Mocambos, Quilombos, Brasil

Maurício Falavigna

Terras de preto
autor: Ricardo Teles
editora: Abooks
ano:2002

Assentamentos rurais, manifestações culturais vinculadas ao passado, ascendência escrava. Esses são os parâmetros, segundo a Associação Brasileira de Antropologia, para se definir um quilombo, mocambo ou terra de preto. Legalizadas progressivamente a partir do início da década de 1990, essas comunidades espalham-se por todas as regiões do território nacional, mas ainda representam um Brasil quase desconhecido.

Entre 1994 e 2001, o fotógrafo porto-alegrense Ricardo Teles registrou cenas de vida de nove dessas comunidades, em cenários geográficos tão diversos quanto a seca e sertaneja Conceição das Crioulas, ou a amazônica Jamary. Embora de claro e inevitável uso antropológico, a intenção de Ricardo Teles passa longe disso, e os resultados vão bem além. Muitas das imagens parecem nascer da vontade de conviver, mais que de registrar. Mas, para os olhos urbanos que desconhecem completamente os modos de vida desses locais, alguns conjuntos de cenas chamam atenção.

De imediato, as festas religiosas. Uma Marujada que os desavisados entendem logo por Congada pelo vestuário e movimentos, a festa de São Gonçalo entre os Kalungas, de sincretismo evidente, fotos sonoras. Festas que valem o ano, pensadas e aguardadas durante os outros dias, liga que ao grupo dá forma única.

Em seguida, o trabalho e o lazer. O trançado, a cozinha, a pesca, a colheita, a coleta: atividades onde é sempre o coletivo que se destaca. Mãos e pés que trabalham em conjunto, redes da pesca nascida de muitas mãos de muitos, puxadas por vários braços. Na ausência do trabalho, mais uma vez é o coletivo que impregna as imagens: no álcool e no fumo, no bar e na casa, o espectador não sente qualquer oportunidade de solidão na vida dessas isoladas comunidades. São atitudes comuns, no sentido de que há um pertencimento coletivo de cada gesto. Não há surpresa alguma no olhar do leitor porque ela não existe no olhar dos convivas.

Por fim, a criança. Após qualquer leitura, de qualquer tipo, da seqüência de fotos onde se intercalam a vida em nove quilombos, todo espectador guarda uma impressão infantil que só pode ser comparada ao dito de Villas-Bôas em Marcha para o Oeste, a de que uma tribo indígena é um reino onde o soberano é a criança. Ser criança é algo que transborda e respinga, com uma vitalidade e uma alegria que nos constrange por sermos tão urbanos, tão modernos, tão cansados.