Imagens Negras, século XIX

Maurício Falavigna

O olhar europeu. O negro na iconografia brasileira do século XIX.
autores: Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro
editora: Edusp
ano: 1994

O mercado de carnes vivas, o buliço das ruas, a faina nos canaviais, as preocupações dos brancos ... Podemos imaginar a presença africana no Brasil dos novecentos (e viajar ainda mais para trás) pelo todo que apreendemos da escola ao cotidiano, dos romances e filmes aos livros de história, registros de um imaginário politicamente construído desde o seu nascedouro: gritos românticos de igualdade e liberdade, desprezos originados em hierarquias raciais calcadas em construções cientificistas, recuperações idealistas de convivência e miscigenação, declarações de independência promulgadas pelas vítimas reais – ao sabor dos tempos, as construções do discurso apóiam-se nas idéias e nas palavras, e nossa imaginação delas parte, arquitetando cenários supostamente vividos e tornando palpáveis prazeres e horrores, recortando pedaços do real para elaborar argumentos para este ou aquele posicionamento frente ao presente.

Esse inevitável método do discurso, mesmo quando encontra corroboração, perde boa parte da força ante imagens que, mesmo quando previstas no mais acadêmico saber acumulado, ganham intensidade insuspeita em seus contornos, forçando leigos e especialistas a novos olhares, novas assimilações, novas formas de pensar.

Esse é o caso de O Olhar Europeu, pesquisa e análise de imagens dos negros brasileiros no século XIX realizadas por Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro, publicadas pela EDUSP em 1994 e expostas no Brasil e em vários países da Europa na seqüência. Cada imagem perde o caráter de ilustração do texto e ganha autonomia interpretativa – por mais que novamente, pela força do discurso historiográfico, sejam inseridas em outro contexto escrito, de viajantes e cronistas europeus que em suas passagens por terras brasileiras narraram o exótico visitado, afoitos por contarem a seus pares europeus os costumes de uma sociedade estranha, de cores e feições inquietantes.

São imagens que vão da escravidão urbana ao trabalho com a cana ou nas jazidas, de registros de compra e venda de gente-mercadoria ao casamento de mercadorias recém-libertas, registros de conhecimento e lembranças do exótico visitado eternizadas em cartões-postais. São desenhos e fotografias que partem da mão e dos olhos do colonizador – assim como a quase totalidade dos textos de época estudados – mas são registros de natureza diversa, onde a participação do retratado vai além da experiência daquele que a registra.

Especialmente nas imagens fotográficas: mesmo construídas ou elaboradas conforme um costume de época ou um pedido do retratado, são momentos do real que se prestam a narrativas de naturezas tão díspares que ultrapassam em muito as possibilidades de história e ficção exercidas em um poema, em um estudo acadêmico ou em um documento administrativo. Vítimas dos retratos tanto quanto dos textos, a diferença reside na parcela de verdade dessas pessoas que pode ser tocada a olho nu, esquecendo boa parte das intermediações: elas resultam mais ricas e complexas do que uma imagem pronta e uniforme. A parcela individual de cada ser fotografado como que deixa um rastro de alma que não se acorrenta facilmente a interpretações que coletivizem seu significado, daquelas que diluem suas vidas em uma multidão unívoca, nos dizendo que este ou aquele era simplesmente um escravo ou um liberto. Há visivelmente mais do isso naqueles registros de momentos de vida.

É relativamente fácil confirmar o que contam os viajantes europeus, historiadores de diversas épocas, poetas condoreiros e estudiosos interessados no tema. Mais difícil e doloroso é reconhecer a familiaridade de rostos e situações desse acervo iconográfico. E a certeza só se encontra no fato de que, ao olhar para esses rostos, sabemos imediatamente que uma infinidade de histórias ainda podem ser contadas.