
Resultados de uma tentativa de imersão no passado
A análise dos dados obtidos confirma a raridade de originais referentes à década de 1920, especialmente que façam referência às mulheres negras, tanto em coleções particulares quanto institucionais.
Ressalta-se que a partir do desenvolvimento da pesquisa nos acervos institucionais de Rio Grande constatou-se a presença das mulheres negras em mínima parte do acervo geral dos locais visitados. Essa aparição geralmente não as privilegia enquanto uma intenção do fotógrafo, remetendo às fotografias em que os elementos centrais são ruas ou instituições das cidades de Rio Grande e Pelotas.
Convém salientar que a situação descrita acima é semelhante à observada na maioria dos acervos institucionais de Pelotas pesquisados, em que os indivíduos negros se apresentam, geralmente, em imagens nas ruas, ou naquelas que se referem aos espaços destinados aos operários e aos pobres.
O Centro de Documentação Histórica da FURG (CDH) possui um fundo denominado História Fotográfica, que abarca algumas imagens de Pelotas em 1923, feitas no centro da cidade durante a entrada das forças revolucionárias do general Zeca Neto. Tais fotografias são as únicas em que se registrou a presença de mulheres negras, na década de 1920.
Além das citadas acima, o CDH também conta com fotografias diversas a partir da década de 1920, estas se referem a Rio Grande e tratam de temas como a União Operária, os teatros e edifícios da cidade.
Durante a pesquisa na Fototeca Municipal não se pôde ter acesso aos originais. Ao conhecer o tema da pesquisa a responsável separou algumas imagens referentes às mulheres na década de 1920. Entretanto, dentre elas não estava nenhuma negra.
O Museu da Cidade apresenta um número significativo de imagens das primeiras décadas do século passado das quais em 38 aparecem mulheres. Salienta-se que as negras estão presentes em apenas duas, que remetem às alunas do Colégio da União Operária.
A Biblioteca Riograndense possui um arquivo fotográfico amplo, do século XIX até a atualidade. Este contém inclusive negativos de vidro. As mulheres buscadas nessa pesquisa estão presentes em cinco fotografias, referente ao período entre as décadas de 1910 e 1920, que estão representas nas ruas da cidade de Rio Grande, sendo que em apenas uma delas essa presença possa ter sido o objetivo do fotógrafo.
Salienta-se que a não intencionalidade do sujeito que fotografa de registrar tipos populares e, principalmente afro-descendentes, é uma hipótese que se apóia nos interesses de quem encomendava a produção de tais imagens. Entretanto, não suportável, com base nos dados aferidos, defender que o fotógrafo não atentasse para os que poderiam participar da composição da imagem.
Quiosque situado na atual Praça Montivideo em Rio Grande, 1910
Fonte: Acervo Biblioteca Riograndense
Na verdade, talvez nem houvesse objetivo ou intencionalidade em eternizar figuras, populares ou não, por meio de suas fotografias. Algumas delas, que não se referem às personagens da cena, podem apontar para aspectos importantes da análise. Por exemplo, nesta imagem, consta a representação de um quiosque da cidade de Rio Grande, hoje não mais existente. Pode-se visualizar uma menina vendedora de frutas posando para a fotografia ao lado de um menino e um aprendiz de marinheiro. Eles constam na imagem não como elementos centrais, embora roubem a atenção de espectadores como nós, mas como elementos animadores da proporção e perspectiva da cena. São, ou operam, portanto, como elementos de cena. Não haveria porque considerá-los elementos focados ou centrais dessa imagem, da qual se destaca na sua inegável simetria e geometria, a pequena construção em madeira.
Na segunda etapa da pesquisa foram analisados seis acervos particulares de senhoras negras da cidade. Observou-se que possuíam raros originais das décadas de 1920 e 1930, sendo que a quantidade de fotos mais significativa data a partir da década de 1940. Foi justamente o dado da exigüidade de fotos datando das duas primeiras décadas do século XX que apontou para mais uma importância desses acervos, porquanto o dado reiterava aquele já observado nos periódicos e nos arquivos institucionais. Com base nisso, realizou-se a opção metodológica de analisar e digitalizar todas as imagens existentes que tivessem sido produzidas até a década de 1950, uma vez consentida a solicitação feita às depoentes.
Para situar a produção fotográfica em um contexto no qual o desenvolvimento técnico é inerente e indissociável, deve-se destacar dois momentos que remetem à idéia de uma democratização da fotografia: o uso da câmera portátil no final do século XIX e a câmera compacta, utilizada a partir da década de 1930, que poderia ser operada com mais facilidade e comprada por custo menor, proporcionando mais produção de imagens das cidades em modernização, dentre outras possibilidades de interesse social.
Mas, entre o que o mercado oferecia e o que a população de uma cidade como Pelotas poderia utilizar havia um distanciamento considerável. Tanto o acesso como o custo de equipamentos e serviços era maior em cidades menores e afastadas das capitais, condição na qual se encontrava Pelotas. Portanto, supõe-se que essa possível “democratização” contemplou com parcimônia ou raridade os indivíduos das classes populares. As imagens fotográficas, utilizadas como meio de registro e propagação de idéias, também serviram como meio de diferenciação social, reiterando a concepção de Bourdier (1989), pela qual a fotografia sagra os momentos decisivos da sociedade. Convém destacar que esta análise mais ampla justifica-se em função do valor documental das imagens e da oportunidade que oferecem para uma comparação com o todo. A análise do material produzido em outras décadas também pode permitir entender as variações dessas representações e o porquê do raro número de imagens referentes à década de 1920.
Observou-se que a quantia de exemplares varia em cada acervo, sendo encontrados desde seis exemplares referentes às primeiras décadas do século XX até mais de 80 originais nos arquivos pessoais. Os temas abordados nessas coleções geralmente remetem a retratos de familiares e amigos. Entretanto ratifica-se que é possível trabalhar nessas fontes inúmeros aspectos da história da cidade que se deixa contemplar pelas fotografias nas quais as cenas ocorrem nas ruas, em bailes, em locais de trabalho, em escolas, etc. O recorrente fato de exemplares não-datados apareceu, como é inevitável, em todos os acervos consultados e, portanto, foram estimadas datas aproximadas com base nos dados da entrevista, aferidas como sendo na primeira metade do século XX.
Diva, década de 1930
Fonte: Acervo pessoal de Giselda Marques
Destaca-se aqui uma dentre as muitas fotografias encontradas. Esta imagem remetida à década de 1930 apresenta a tia de uma das senhoras visitadas. Na entrevista soube-se que a moça do retrato era uma trabalhadora da Fábrica de Fiação e Tecidos. Sabe-se que na Fiação as mulheres eram a maioria entre os trabalhadores, entretanto nunca ocupavam cargos de chefia e trabalhavam em um ambiente insalubre além da ocorrência de freqüentes assédios de seus supervisores.[5]
Nos conjuntos estudados observou-se uma significativa diferença no modo como se dão as representações das mulheres negras em arquivos oficiais e em coleções particulares. A diferença observada remete tanto à história dessas mulheres na cidade como aos próprios usos sociais da fotografia, lembrando que fotografias também são produzidas com o intuito de preservar fatos que as fazem ou dos que se fazem elementos da imagem. Portanto, apesar da inevitável consideração de que a uma imagem podem ser atribuídos diversos significados observou-se, pela relação entre acervos e entrevistadas, que o grupo que a produz e escolhe preservá-la geralmente perpetua a própria memória ou a sua ancestralidade.
Pelos dados obtidos observou-se primeiramente que o número de imagens de mulheres negras em acervos institucionais é pequeno e que elas não são os elementos centrais das imagens. As poucas fotografias encontradas nos acervos institucionais de cidade de Rio Grande nas quais essas mulheres aparecem, representam-nas como elementos da rua ou em espaços ligados a atividades proletárias, como nas fotos do Colégio da união Operária. Em decorrência, constatou-se que os acervos pessoais se apresentam como um contraponto, uma possibilidade para a análise de outros tipos de representação. As imagens de coleções pessoais ampliam as referências de mulheres negras, apresentando-as em retratos, festas, casamentos e outros eventos sociais. Até mesmo as fotografias feitas na rua, encontradas nesses acervos, apresentam essas mulheres como elemento central e o espaço urbano como fundo. A freqüente visualidade da mulher negra como elemento central nas imagens dos arquivos particulares indica que a carência de tais representações em acervos institucionais pode ser um reflexo do contexto social que tentava silenciar a participação de mulheres afro-descendentes na cidade. Por outro lado, as entrevistas realizadas indicaram a intensa ligação da fotografia com a memória e agregaram valor às imagens, pelos dados que podem levar a uma análise mais ampla de contexto no qual essas imagens foram produzidas. As responsáveis pelos acervos declararam, espontaneamente, satisfação em recordar histórias por meio das fotografias, concebendo as imagens como fontes que têm sua importância baseada na possibilidade de visualizar o passado. No decorrer da pesquisa constatou-se a raridade de exemplares referentes à década de 1920 que contemplem a representação de pessoas negras, tanto em arquivos institucionais quanto em acervos particulares. O número de originais em acervos particulares é significativo, a partir da década de 1940, embora em uma análise qualitativa, a década de 1930 apresenta exemplares significativos.
Embora focando questões de gênero e etnia, o trabalho do qual se originaram os dados arrolados constituiu-se como um estudo sobre a fotografia e os seus usos sociais. A questão originalmente colocada para a investigação partia de uma constatação simples: a de que as revistas ilustradas do Rio Grande do Sul e a Illustração Pelotense, em Pelotas, garantiam o público leitor feminino utilizando matérias e seções de interesse desse público, mas também empregando a fotografia como um elemento de comunicação direta, portanto, eficiente. Não estando inseridas nesse público, as mulheres afro-descendentes não apareciam registradas ou sequer mencionadas nessas publicações. Não constar na fotografia impressa poderia ou não corresponder a não existir fotografias originais referenciando essas mulheres. A amostragem pesquisada indicou a raridade dos originais até os anos 40. Na obra organizada por Santos (2005) observou-se essa ocorrência, embora o tema tratado não se restrinja às análises propostas nesse trabalho.
Os dados levantados não são suficientes para delinear um panorama seguro sobre a representação das mulheres negras em Pelotas nas imagens produzidas no início do século XX e o porquê da exigüidade de imagens referentes às duas primeiras décadas do século, mas apontam reflexões possíveis, fomentam a discussão e reforçam que toda a análise da iconografia fotográfica não se aliena de condições técnicas e que essas condições traçaram, de forma determinante em algumas situações, a própria história da fotografia. A reciprocidade do que a possibilidade técnica permitia fazer, e do que foi feito por demanda social, deu existência a um produto complexo quando tratado como uma fonte. Há particularidades nessa complexidade, debalde toda fonte seja inerentemente complexa. As particularidades dizem respeito tanto à relação entre fotografia e memória, que no estudo se desdobra na situação do ver-lembrar, quanto na situação do ver-esquecer. Se não há fotografias, não há o que ver, se elas existem e não mostram, não há o que lembrar e a dualidade da lembrança opera-se sobre a eleição do esquecimento (Halbwachs, 2004). Verificar se as fotografias foram feitas é tão importante quanto verificar se foram guardadas, mas difere tal importância da verificação do que apresentam ou, melhor dizendo, de como foi registrado o objeto ou a cena. Assim, a fotografia atua no sentido de um veículo para a evocação, mas também, apresenta essa outra capacidade, que se não existe por si, combinada, pode ser muito eficiente, a de silenciar sobre e, assim o fazendo, propor o esquecimento.
[5] EISSINGER,Cíntia Vieira. Bicho da Seda: o espaço dos operários das fábricas de fiação e tecidos em Pelotas. Pelotas: 2006. (artigo de Conclusão do Curso de especialização em História do Brasil do Instituto de Ciências Humanas da UFPEL)