Amas na  fotografia  brasileira da segunda metade do século XIX 3/4  

Sandra Sofia Machado Koutsoukos

8Retrato de ama com criança. Cartão-de-visita de Constantino Barza. Recife, 1880. Acervo da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (Recife – PE), CFR 8279. 9Retrato de ama com criança da família Costa Carvalho ou Parente Viana (segundo ficha do acervo). Cartão-de-visita de Alfredo Ducasble. Recife, 1879-1894. Acervo da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (Recife – PE); referência: CFR 15296. 10Retrato de ama com criança. Cartão-de-visita de Costantino Barza. Recife, 1880. Acervo da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (Recife – PE); referência: CFR 4364. 11Retrato de ama com criança. Cartão-de-visita de Frederico Ramos. Recife, 1889. Acervo da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (Recife – PE); referência: CFR 552. 12Retrato de babá com o menino Eugen Keller. Fotografia de Alberto Henschel. Recife, 1874. Coleção G. Ermakoff (Rio de Janeiro). 13Retrato de Elisa Saboya de Albuquerque com ama escrava Joana. De Hermina Costa & Cia. Recife, 1883-1887. Acervo da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (Recife – PE), CFR 4089.

Estes seis retratos (acima) foram feitos em estúdios na  cidade de Recife, de meados da década de 1870 ao fim da década de 1880. De um período um pouco posterior ao das três imagens anteriores, também de Recife, eles seguiram uma outra construção formal. As amas estão à direita do quadro e as crianças à esquerda, sentadas sobre algo (mesa, coluna, banco alto, almofada), e estão seguras pelas mulheres. Todas as amas dessa série foram retratadas com vestimentas de corte europeizado, sem luxo demasiado, e por fotógrafos variados.

14Verso do retrato de Elisa Saboya de Albuquerque com ama escrava Joana. Acervo da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (Recife – PE), CFR 4089.

15Retrato de Antonio da Costa Pinto com sua ama-de-leite. Carte-cabinet (11 x 16,5 cm) de Antonio da Silva Lopes Cardozo. Bahia, c. 1861. Acervo do Arquivo Nacional. 02/FOT/436.

16Retrato de Maria Rita Meireles da Costa Pinto com a ama-de-leite Benvinda. Carte-cabinet (11 x 16,5 cm) de Antonio da Silva Lopes Cardozo. Bahia, c. 1881. Acervo do Arquivo Nacional. 02/FOT/76.
Nesta imagem, que é o verso da última imagem da seqüência de retratos anterior,  está escrito: “Elisa Saboya (...) com a escrava Joana”. A parte escrita serviu apenas para identificar a menina e a escrava, não se tratava de uma dedicatória[10].

As três fotos seguintes são de amas “baianas”, sendo que as duas primeiras fazem parte da coleção de fotografias avulsas do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Antonio da Costa Pinto, aqui retratado com sua ama-de-leite viveu de 1857 a 1862. A ama, de aparência bastante jovial, posou para a foto com um vestido rodado, cheio de lacinhos, enrolada no seu pano-da-costa (com certeza, colorido) e com os cabelos escondidos sob o turbante branco bem arrumado; ela não exibiu jóias. O fotógrafo tentou equilibrar a composição, “desequilibrada” pela diferença de altura dos dois personagens retratados, colocando uma coluna no canto direito da fotografia. Um pedaço do espaldar da cadeira se insinuou atrás do braço direito dela. 

Esta imagem retrata Maria Rita Meireles da Costa Pinto com a ama-de-leite Benvinda. Digna de nota é a forma de nomeação que era dada àquele tipo de foto, pois geralmente quando a localizamos descobrimos o nome inteiro da criança, por menor que ela fosse, e, no máximo, o primeiro nome da ama (como as anteriores: Mônica, Vitorina, Pretonila e Joana), ou apenas a referência “ama-de-leite”.[11] A então pequena Maria Rita viveu de 1880 a 1947 e, muito provavelmente, foi aparentada do menino, com o mesmo sobrenome, da foto anterior. Quase imperceptível na foto, perdida na profusão de panos, a figura da menina com o vestido branco – provavelmente, o vestido de batizado – quase se “camuflou” na saia branca da ama. Sem fundo decorado, cadeira de espaldar rebuscado, ou uma coluna “grega”, a composição da foto foi bastante simples. A ama e o bebê formaram um triângulo que ocupou boa parte da fotografia. Bastante enfeitada, a ama Benvinda não encarou a máquina (talvez estivesse preocupada em ajeitar e aquietar o bebê), mas exibiu os seus adornos: o colar de contas, a pulseira de várias voltas (ou seriam várias pulseiras?), o pano-da-costa bastante decorado e o turbante, também decorado e bem arrumado. O traje e os adornos (que deviam lhe pertencer) que Benvinda usou para a foto lhe garantiram uma identidade africana; e eram detalhes de uma identidade que ela sabia o que significava, assim como também o sabiam as pessoas do seu meio.[12] A ama Mônica fora vestida com o luxo europeu “emprestado”; já Benvinda se produzira com sua indumentária. Caso tivesse tido oportunidade, ou tempo suficiente, teria Benvinda encarado a máquina e demonstrado orgulho de sua identidade exposta, ou talvez orgulho de sua posição como ama-de-leite, o que podia significar que ela tinha o “privilégio” de participar da intimidade da família à qual servia e, dessa mesma família, obter “agrados”, incluindo aqui a visita ao estúdio de fotografia e uma cópia do registro?

Outra ama “baiana”, também vestida a caráter, é esta 17Retrato de ama com criança. Foto de João Goston. Bahia, c. 1870. Acervo do Instituto Moreira Salles. (de cerca de 1870). Assim como Benvinda, da foto anterior, essa ama fez uso de todos os itens de sua indumentária de caráter africano, os quais, ao serem expostos no retrato, também lhe evidenciaram uma certa configuração identitária. Assim como Benvinda, ela estaria ciente disso. Os itens explorados foram: o (enorme) turbante claro de amarração elaborada, a blusa de renda (que deixa os ombros desnudos – “detalhe” sensual que não aparece em nenhuma ama retratada com roupas europeizadas), a saia colorida e farta, os colares, pulseira e anéis. O interessante é notar que, dentre as amas apresentadas aqui, as amas “baianas” aparecem retratadas com indumentária de caráter africano (e talvez nessa lista de “amas baianas” também possamos incluir a ama de local não identificado 18Negra com criança. “The London Stereoscopic and Photographic Company”, sem data. Coleção Emanuel Araújo. Foto reproduzida de ERMAKOFF, George. O negro na fotografia brasileira do século XIX.  Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2004, p. 101. , enquanto que as amas das outras cidades, como Recife, São Paulo e Rio de Janeiro aparecem vestidas segundo a moda européia de então.

Militão Augusto de Azevedo também retratou em seu estúdio, na cidade de São Paulo, uma série de amas. Em alguns desses registros, Militão optou por aproximar mais a máquina do rosto das amas e das crianças e, assim como o fez em algumas fotos de mães com seus filhos, explorou, intencionalmente ou não, com o arranjo das cabeças das personagens se tocando de lado e retratadas no mesmo plano, o possível carinho e afeto contido naquelas relações. Estas imagens (abaixo) são de amas e crianças registradas com o jogo das cabeças se tocando. Esta última seria a ama ou a mãe da criança? Todos esses retratos foram feitos em meados da década de 1870 e cortados para serem acondicionados nos álbuns de controle do ateliê do fotógrafo. Não vi, nos lugares nos quais pesquisei ou em livros, o mesmo arranjo formal usado por Militão nessas fotos, no retrato fotográfico de outra ama negra no Brasil.

19Retrato de busto de ama com criança. Cartão-de-visita cortado para acondicionamento nos álbuns de controle do ateliê de Militão Augusto de Azevedo (autor da foto). São Paulo, 1870-1874. Acervo do Museu Paulista. IC 16540-0228-3223. 20Retrato de busto de ama com criança. Cartão-de-visita (cortado) de Militão Augusto de Azevedo. São Paulo, 1876. Acervo do Museu Paulista. IC 16541-2049-2715. 21Retrato de busto de ama com criança. Cartão-de-visita (cortado) de Militão Augusto de Azevedo. São Paulo, 1876. Acervo do Museu Paulista. IC 16541-2146-2715. 22Retrato de busto de mãe ou ama com criança. Cartão-de-visita (cortado) de Militão Augusto de Azevedo. São Paulo, 1875. Acervo do Museu Paulista. IC 16541-1101-2715.

[10] Sobre fotógrafos, estúdios de fotografia no Brasil e versos de fotos:  KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro. Fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

[11] A forma de nomeação, indicando o nome inteiro da criança e, quando muito, o primeiro nome da ama, mostrava tratar-se ali do retrato da criança? E quem fez essa mudança, isto é, passou a classificar esse tipo de imagem na categoria “amas-de-leite”? Possivelmente, os próprios colecionadores e/ou os pesquisadores de fotos antigas.

[12] Num estudo das gravuras de Carlos Julião, Sílvia Hunold Lara escreveu sobre a indumentária das escravas: “(...) o uso de adornos e trajes de seda pelas escravas certamente continha outros significados, bem distantes daqueles vislumbrados pelos olhares de senhores e autoridades coloniais. Várias pulseiras, muitas voltas num colar, vestes de seda com enfeites de ouro ou sapatos podiam significar, aos olhos de africanos e de seus descendentes, um sinal de distinção decodificado a partir de critérios não-europeus”. LARA, Sílvia Hunold. "Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e poder na América Portuguesa". Tese de livre-docência, Departamento de História, IFCH – UNICAMP, 2004, p.132.