A interação fotógrafo-fotografado
Primeiro como fotógrafo, depois como etnógrafo e historiador, Verger desenvolveu a sua missão de mensageiro cultural e sentimental entre a África e o Novo Mundo, tendo a fotografia como um meio de facilitar o contato humano.
Dassa-Zoumé, Benim, 1948-58As imagens mostradas, trocadas, compartilhadas permitem traçar ligações e aproximar simbolicamente os africanos e os membros da diáspora, integrantes da mesma família cultural que viviam afastados e sem notícias uns dos outros. Assim, no Brasil, em Cuba ou Haiti, Verger mostra aos adeptos da religião dos orixás e vodus as fotos tomadas na África: testemunhas visuais sobre a origem dos cultos, sobre a realidade das tradições africanas. Ele toma também fotos do candomblé e, na Nigéria ou no Daomé, mostra aos africanos que seus herdeiros e descendentes brasileiros festejam as mesmas divindades. A cada olhar as imagens suscitam surpresa, entusiasmo e alegria. Melhor que explicações verbais ou escritas, a fotografia permite aproximar emocionalmente e instantaneamente os membros de um mesmo universo cultural disperso. A receptividade imediata e o grande impacto visual das fotografias facilmente encontram ressonância na cultura oral.
No momento anterior à tomada fotográfica, Verger já desenvolveu uma cumplicidade, uma amizade, no mínimo estabeleceu um contato. Algumas imagens feitas no interior de confrarias secretas africanas, nos santuários do culto aos eguns [antepassados], ou nos terreiros de candomblé só puderam ser realizadas porque Verger fora iniciado na religião, sendo aceito progressivamente como conhecedor da cultura local.
Rwanda, 1952Em suas imagens de caráter etnográfico, a presença do fotógrafo raramente é percebida pelo olhar ou pela expressão dos fotografados. O sujeito fotografado não se sente observado e, salvo raras exceções, não olha em direção à câmera expressando surpresa ou hostilidade; nem se coloca em posturas rígidas ou artificiais. Verger tenta captar a expressão facial no tempo imediato, mas sem ‘’roubar’’ a foto (à maneira do instante decisivo, de Henri Cartier-Bresson). Ele nunca faz alguém posar para um retrato. Nota-se que a Rolleiflex, com sua posição ventral, apresenta uma vantagem, segundo Verger: a possibilidade de fotografar as pessoas sem que elas percebam. O sujeito não sabe o momento em que o fotógrafo clica, pois ele não precisa levar o visor ao rosto no instante de fazer a foto. Por isso muitos retratos adotam um plano levemente inclinado: com a máquina encostada no umbigo e a lente levemente voltada para cima, o fotógrafo, de repente, capta uma imagem.
No entanto,
Zagnanado, Bénin 1948-79
Salvador, Brasil, 1946-59percebemos que em vários retratos o sujeito olha diretamente nos olhos do fotógrafo. Nessas imagens frontais os olhares capturados exprimem franqueza, orgulho, malícia ou cumplicidade. A Rolleiflex não corta a comunicação visual e Verger não hesita em sustentar o olhar do seu interlocutor. O fotógrafo representa seu sujeito, deixando espaço para que, no confronto com a lente, ele próprio se apresente. Percebe-se que há uma interação e uma conivência estabelecidas entre o fotógrafo e seus sujeitos. Isso permite que eles mostrem algo de si mesmos sem temor ou dissimulação, sem timidez ou vergonha. Trata-se de um verdadeiro diálogo entre olhares. Não há expressão de irritação ou de rejeição, que mostraria terem sido fotografados sem saber e/ou sem querer. Nesses retratos, Verger não busca apagar o impacto do seu estatuto de observador estrangeiro, como faz nas suas imagens de caráter mais etnográfico, documental. Ao contrário, o encontro e a inter-subjetividade fotógrafo/fotografado às vezes são bastante visíveis. O assunto dessas fotografias talvez seja o olhar em si: as trocas entre ele e seus sujeitos. Esses retratos condensam o que particulariza o estilo de Verger: a capacidade de restituir o que o outro tem para transmitir, algo da sua intimidade, e essa parte de alteridade que tanto seduziu o fotógrafo.