Uma representação fotográfica do Outro radicalmente nova
Desde o seu nascimento, em meados do século XIX, a fotografia simbolizava a superioridade tecnológica e era muito utilizada para descrever e classificar as populações e as ‘’raças’’ do mundo. Entre as duas guerras mundiais, quando Verger começou a fotografar, ela ainda era amplamente utilizada como uma ferramenta da antropologia física de caráter racista. A ambição das fotografias antropométricas era estabelecer uma classificação das raças e dos tipos humanos: os sujeitos eram fotografados nus ou poucos vestidos, de frente/perfil, com fundo branco ou despojado, com luz crua. As representações fotográficas do outro eram ‘’peças’’ destinadas a integrar o vasto museu de história natural da Humanidade. A fotografia servia também para constituir uma série de imagens exóticas e pitorescas, de cartões postais, sem qualquer contexto. As ‘’cenas" e os "tipos’’ identificados com legendas generalizantes promoviam a ideologia colonial.
Desde o início de sua prática fotográfica, Verger se colocou na contracorrente dessas representações fotográficas e ‘’científicas’’ do outro. Suas imagens não revelam o olhar frio, classificador e naturalista da antropologia da época, que afasta o sujeito da sua essência humana, reduzindo-o ao mero estatuto biológico ou à sua condição ‘’primitiva’’. Ao contrário, as imagens de Verger testemunham uma empatia profunda em relação ao sujeito fotografado. As personagens aparecem com as suas singularidades individuais irredutíveis. Por exemplo, às vezes, as imagens priorizam a beleza plástica de um indivíduo. O sujeito existe por ele mesmo, não é o representante anônimo e impessoal de sua ‘’raça’’ ou de sua cultura. O tipo de olhar do colonizador sobre o colonizado é também abolido nas suas fotografias, que rejeitam conotações pitorescas, condescendentes ou exóticas.
Não há mise-en-scène de uma alteridade inacessível. O espectador é confrontado com sua própria humanidade compartilhada: homens sempre únicos e sempre iguais. Verger dá a ver uma alteridade enriquecedora e ‘’assimilável’’. Não existe uma representação da distância do outro. Ao contrário, há uma tentativa de aproximação, de torná-lo mais próximo.
Verger participou amplamente da renovação do olhar eurocêntrico sobre o homem negro. Talvez pela primeira vez na história da fotografia, não é mais um olhar de homem branco sobre negros, mas o olhar de um ser humano sobre outros.
Verger foi um dos primeiros a realmente quebrar os códigos etnográficos de registro fotográficos, em virtude de imprimir algumas características em suas imagens:
A ausência de pose tradicional ou convencional, em imagens dinâmicas. A mobilidade do fotógrafo e a instantaneidade em relação ao evento fortalecem o realismo das imagens. Os ângulos de tomada são novos (plongée, contre-plongée) e múltiplos. Essas técnicas de Verger lembram aquelas utilizadas pelos ‘’modernistas’’ da fotografia, como Alexandre Rodtchenko ou Dziga Vertov. Os corpos estão em movimento, em ação, quase nunca estáticos: corpos em festa (danças dos sambistas, febre do carnaval), em êxtase (transe de possessão no candomblé), no trabalho (pescadores puxando as redes, estivadores em atividade no porto). Esses corpos exalam, muitas vezes, uma sensualidade à flor de pele, e o fotógrafo parece freqüentemente atraído pela beleza plástica e pela expressividade dos corpos negros masculinos (ver por exemplo o álbum O Mensageiro, 1993, publicado no Brasil em 2002).
A fotografia não busca necessariamente mostrar todos os elementos da cena, nem apresentar de maneira exaustiva as informações brutas. Ela não é somente um simples instrumento de coleta. Ela sugere a atitude, o jeito de ser do outro, por vezes, por meio de um detalhe, de um movimento, de um olhar carregado de emoção.
As personagens estão muitas vezes descentradas no quadro ou até mesmo fora do campo visual principal. Isto reforça a impressão de autonomia dos sujeitos. Apesar dessa atenção às singularidades individuais, deve-se notar que nas suas imagens em plano médio (séries de rituais, manifestações festivas) os indivíduos em sociedade interagem com seus semelhantes, o sujeito se insere no universo cultural e social que o envolve.