A representação do negro nas fotos de Pierre Verger (1902-1996) 2 / 4

Jérôme Souty

Fotografar os homens

Homenagem aos vivos, as fotografias de Verger traduzem um olhar sensível e cheio de curiosidade sobre a grande família humana. Desde as suas primeiras grandes viagens, no início dos anos de 1930, ele se interessa pouco pelos monumentos ou pelas paisagens – são os indivíduos que o atraem.

Salvador, Brésil, 1949-53Salvador, Brésil, 1949-53

Benim, 1952Benim, 1952

A fotografia do mundo negro tem um lugar central na obra de Verger. As suas imagens sobre os negros, desde os anos 1930 (Antilhas, Estados Unidos, África do Norte e Sahel, Benin pela primeira vez em 1936), mas sobretudo a partir de 1946 (Brasil, Suriname, Cuba, Haiti, África ocidental, em particular Benin e Nigéria, Congo) vão renovar profundamente a representação fotográfica do homem negro. A quase totalidade das fotos feitas depois de 1946, data da sua chegada a Salvador, Bahia, é dedicada ao mundo afro-americano e africano.

Na sua obra, Verger dá a ver o que as culturas africanas preservaram e reinventaram no Novo Mundo (manifestações culturais e religiosas, arte de viver), enfim, toda uma concepção do mundo e do viver juntos que o colonialismo e a escravidão não conseguiram destruir. O fotógrafo defendeu os valores sociais e psicológicos ligados às religiões politeístas (ausência de proselitismo e da dicotomia bem/mal; orgulho de si e auto-estima dos adeptos; múltiplos processos de identificação etc.), destacando a força de resistência e de adaptação das culturas negras.

Verger desenvolveu um trabalho metódico de comparação visual sobre as culturas negras na África e no Brasil. Em alguns álbuns como Dieux d’Afrique (1954) ou Orixás (1981), ele mostra as semelhanças culturais e religiosas entre os dois lados do Atlântico por meio de uma série de fotos colocadas lado a lado (figuras do panteão, rituais, gestos, artesanato…), e por meio de montagens cruzadas (para descrever visualmente um mesmo ritual ele mistura, na mesma seqüência, imagens fotografadas na África e no Brasil). Nestes verdadeiros “ensaios fotográficos”, Verger conseguiu criar uma nova articulação entre imagem e escritura. O seu acervo fotográfico, hoje alocado na Fundação Pierre Verger, em Salvador, constitui uma formidável base de dados comparativos sobre as culturas yoruba e fon e a suas diásporas.