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Imagens da poesia erótica de Hilda Hilst

Paula Cabral[1]

Resumo / Abstract

O ensaio visual aqui apresentado refere-se a uma parte da dissertação de mestrado da autora, defendida em 2013, na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, e desenvolvida sob supervisão do professor Joaquim Brasil Fontes ( participaram da banca: Prof. Dr. Ronaldo Entler e  Profa. Dra. Ana Beatriz de Araujo Linardi). A pesquisa é dividida apresentada em três momentos básicos: discussão teórica sobre o tema da produção expressivo-fragmentária e aberta, passando pelos pensamentos de Nietzsche, Schlegel e Novalis, entre outros autores que pensaram e discutiram o tema;  leitura, aproximação e análise da obra “O desejo”, de Hilda Hilst; e a produção poético visual a partir do livro de Hilst.

O ensaio, por sua vez, propõe um diálogo entre fotografias e a poesia do desejo  de Hilda Hilst; a partir de uma experiência subjetiva da pesquisadora com os fragmentos textuais e poéticos da escritora. Uma experiência particular, aberta e pontual, em meio a outras inúmeras possibilidades que uma relação com os textos e a alma poética de Hilda Hilst permitem e incitam

The visual essay presented refers to a poetic expression of the author's master's dissertation, ended in 2013, at the Institute of Education – Unicamp (Campinas), by supervision of Joaquim Brasil Fontes. The research is divided into three basic moments: theoretical discussion on the theme of expressive-fragmentary and open production, passing through the thoughts of Nietzsche, Schlegel and Novalis, among other authors who thought and discussed the theme; reading, approximation and analysis of the book "O desejo", by Hilda Hilst; and the visual poetic production from the book of Hilst.

The visual essay, on the other hand, proposes a dialogue between photographs and the poetry of Hilda Hilst's desire; From a subjective researcher’s experience with the textual and poetic fragments of the writer. A particular experience, open and punctual, amidst the many other possibilities that a relationship with the texts and the poetic soul of Hilda Hilst allow and incite.

Porta de entrada

[…] pensar é, antes de tudo, caminhar, e o fragmento enquanto expressão do pensar é, essencialmente, indicador de caminho.

NOVALIS, apud SOUZA, 2008, p. 78

Porque o mundo e o desejo são desertos. Buracos negros, que atraem, fascinam e destroem.

Devoram sujeitos, mastigam-nos e os regurgitam outros. Só o ser que viveu os desertos e os buracos negros do desejo e do mundo sabe do que falo.

Hilda Hilst é um desses seres. Hilda Hilst é ela e sou eu.

A questão que se colocava enquanto diretriz; o que se desejava enquanto projeto era claro desde o início. Acadêmica e poeticamente, o que se queria desde o primeiro momento reflexivo era que as palavras pudessem conversar com as imagens. Que ambas – expressão literária e expressão fotográfica – se complementassem e pudessem lidar com o indizível e talvez apresentá-lo por via paradoxalmente dupla (imagem – texto) e única (imagemtexto).

Compreender esse processo relacional também se fazia importante.

Uma relação entre fotos e palavras. Relação intensa, apaixonada, com direito a todos os binômios que a paixão carrega. Enfim, para que se pudesse estabelecer uma conversa entre fotografia e literatura de forma expressiva, criativa e honesta, era preciso movimento interno. Fazia-se necessário que a palavra escrita explodisse durante a leitura, no desejo de ser também imagem. Ora, não se queria algo morno. Depois de conhecer o inferno, o morno torna-se muito pouco.

Opção por recortes.

Mas o que fazer com tanta energia, com tanta força de tantos lados? Hilda Hilst é um vendaval, tanto quanto o desejo.

Livro escolhido, recorte delimitado: Do desejo (2001). Era com ele que eu conversaria imageticamente. Era com ela também: com os amores de Hilda, com seus temores, com suas dores; que eram dela, e são também todos meus.

Logo depois de iniciada a leitura, interessante e angustiante notar que não me identifico na organização poética hilstiana para a produção de imagens, mas sim na sua (des)reorganização. E na minha (re)organização imagética. É quando “quebro” seus poemas e sua lógica que me encontro expressivamente. É a partir da fragmentação dos pensamentos e sentimentos próprios de Hilda Hilst que uma outra poética ganha força e se constrói. É a partir de uma composição imagético-fragmentária autoral sobre o que me punge e me chama fotograficamente que encontro fragmentos da poesia hilstiana. Antropofagia: comer, regurgitar – imagem-palavra / palavra-imagem.

A partir dessa percepção sobre o processo criativo, os caminhos se desviam da estrada preestabelecida. A relação genérica no diálogo palavra-imagem não é mais o foco central do que me interessa. É, em vez disso, a específica relação entre a necessidade de fragmentar os poemas de Hilda para que o diálogo entre os fragmentos e minhas equivalências fotográficas[2] aconteça e se desenvolva. Trata-se, então, de ter por objeto de estudo o próprio processo criativo, que a princípio não se explica. Busca-se então essa compreensão.

Mas de onde partir e como lidar com certas situações poético-expressivas, que perpassam os caminhos da emoção, da reflexão, da interpretação, da desconstrução, e se fazem próprios, ainda que mantendo um profundo e intenso diálogo com sua origem autoral escrita, que, nesse caso, é a poesia de Hilda Hilst?

***

Para além de tentar entender o próprio caminho poético de autoria hilstiana, convergente com pensamentos de ordem batailliana, é especialmente na tentativa de compreensão de um processo expressivo autoral que me lanço na busca e em diálogos com linhas de pensamento que consigam argumentar filosófica, literária e/ou ensaisticamente o que me passou, o que se passou quando da minha interação criativa/expressiva com os poemas de Hilst e da produção/ressurreição de imagens fotográficas autorais que dialogam com essa poesia.

Uma pesquisa no campo das poéticas visuais. Portanto, longe de desejar desenvolver ou encontrar uma linha teórica que a justifique, a explique ou a enquadre.

Uma situação poética e um processo autoral de fragmentação de poemas de Hilda Hilst e produção de composições ou “equivalências fotográficas”, buscando estabelecer, quase “antropofagicamente”, relações dialógicas com pensamentos de autores de diferentes linhas, lugares e épocas. Pensamentos que ajudam a desenvolver uma compreensão de um processo próprio. Esses autores são fundamentalmente interessados em refletir e debater sobre aspectos filosóficos, conceituais e práticos referentes à vida e a suas inter-relações pessoais e artísticas. Permito-me também fazer inferências e estabelecer relações próprias entre conceitos e pensamentos apresentados por eles.

***

Traçando um caminho, a partir desses encontros, é possível afirmar hoje que, como eixo norteador fundamental do trabalho, encontra-se a filosofia alemã do Romantismo do primeiro período. Definitivamente, foi a partir do pensamento e da prática literário-filosófica de Novalis e Schlegel que se conseguiu aqui desenvolver relações entre o pensamento romântico e a produção fotográfico-literária que faz parte desta pesquisa.

Os princípios de fragmentação que regem esse pensamento se baseiam fundamentalmente na necessidade de liberdade expressiva de um indivíduo (des)organizado em meio ao caos social, cultural e pessoal, que percebe que o equilíbrio, a contemplação, o ideal platônico e toda utopia do linear caíram por terra; e que, diante de um estado estilhaçado e caótico, o fragmento é opção de expressão e diálogo progressivo com o mundo. Inacabado como o sujeito que o produz, ao mesmo tempo em que é fechado em si mesmo, esse modelo expressivo permite interações e reflexões condizentes com o meio circundante intimista e social de quem o produz e de quem o lê e o interpreta.

Pelos mesmos caminhos fragmentários seguem alguns pensamentos de Nietzsche, justificando essa forma de escritura, segundo a análise de Blanchot, a partir da necessidade de lidar e apresentar conteúdos e formas escriturais que abranjam e apresentem pluralidade de sentidos e abertura às interpretações.

Em seguida, como segundo norte de estudo e de diálogo, aparece Roland Barthes, que com seu conceito de punctum me dá abertura para inferir compreensões sobre o que me chama e motiva na poesia de Hilda Hilst.

Outros nomes, como Giorgio Agamben e Luigi Pareyson, também contribuem e enriquecem essa compreensão pessoal de um processo de criação próprio.

Por fim, ao apresentar o resultado final do trabalho, os conjuntos dialógicos imagem-fragmento permeiam-se por reflexões pessoais de um formato narrativo-poético, que aparece imbuído de minhas próprias referências e rastros de experiências, leituras e pensamentos sobre desejo, imagem, vida, morte e outros temas, os quais são amalgamados na escritura com referências e construções hilstianas sobre alguns desses mesmos temas e motivos.

Tento então, nessa parte final, a partir da personagem “ela”, resgatar e apresentar duas poéticas do desejo, duas poéticas que paradoxalmente divergem, convergem, fundem-se e confundem-se: são duas e “são” uma.

É o ensaio visual, resultado de todo esse percurso, que escolho apresentar aqui.

 

CORPOS

[…] O meu ser-verdade é que tem vontade disso tudo. Essa outra e esses outros que nós somos todos no dia a dia são máscaras que a gente coloca o tempo todo. (HILST, 1989, p. 142).

 

RESTOS

Pela marca de alguma coisa, a foto não é mais qualquer. Essa alguma coisa deu um estalo, provocou em mim um pequeno abalo, um satori, a passagem de um vazio (pouco importa que o referente seja irrisório). (Barthes, 1984, p. 77).

 

ESCULTURAS

Há, porém, uma essência sob nós, nervura comum do significante e do significado, aderência e reversibilidade de um a outro, como as coisas visíveis são as dobras secretas de nossa carne e de nosso corpo. (Merleau-Ponty, 1964, p. 117).

 

ÁGUAS

O ser voltado à água é um ser em vertigem. Morre a cada minuto, alguma coisa de sua substância desmorona constantemente. A água corre sempre, a água cai sempre, acaba sempre em sua morte horizontal. (BACHELAR, 2002, p. 7).

Referências Bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2007.

ANDRADE,  Carlos Drummond de.  A visita.  Fotografias de Maureen Bisilliat. 3. ed. São Paulo : Gosto Augusta, 1977.  40 p.

BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

BATAILLE, Georges. O erotismo. Porto Alegre: L&PM, 1957.

BISILLIAT, Maureen. A João Guimarães Rosa. 3. ed.  São Paulo: Brunner, 1979.

______. Bahia amada Amado: ou O amor à liberdade e a liberdade no amor. São Paulo: Empresa das Artes, 1996.

______. Chorinho doce. São Paulo: Alternativa, 1995.

______. O cão sem plumas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

______. Sertões: luz & trevas. São Paulo: Rhodia, 1982.

BLANCHOT, Maurice. Nietzsche e a escritura fragmentaria. Buenos Aires: Ediciones Calden, 1973.

HILST, Hilda. Amavisse. São Paulo: M. Ohno Editor, 1989.

______. Do desejo. Organização:  Alcir Pécora. São Paulo: Globo, 2001.

MERLEAU-PONTY, Maurice. O visível e o invisível. São Paulo: Perspectiva, 1964.

NOVALIS. Pólen: fragmentos, diálogos, monólogos. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Iluminuras, 2001.

PAREYSON, Luigi. Estética: teoria da formatividade. Petrópolis: Vozes, 1993.

SCHLEGEL, Friedrich. O dialeto dos fragmentos. Tradução de Márcio Suzuki. São Paulo: Iluminuras, 1999.

SOUZA, Maria Cristina dos Santos de. O fragmento ou aforismo: a expressão do pensamento da natureza tanto para os poetas românticos alemães quanto para Nietzsche. Revista Trágica: estudos sobre Nietzsche. Rio de Janeiro, vol. 1, n. 1, p. 76-83, 1º sem. 2008.

[1] Ensaio poético desenvolvido para a dissertação de mestrado orientada Prof. Dr. Joaquim Brasil Fontes Junior, intitulada Imagens da poesia erótica de Hilda Hilst; ano de obtenção: 2013, no Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Educação da Unicamp, com banca composta pelos professores doutores Ronaldo Entler e Ana Beatriz de Araújo Linardi. Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do CNPq.
paulacdcabral@gmail.com

[2] Termo cunhado por Maureen Bisilliat para designar fotografias que produziu a partir de textos de grandes autores da literatura brasileira.