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Gyula Halász – Brassaï: o artista e o despertar fotográfico[1]

Ludmila Kaehler[2]

Resumo / Abstract

Este artigo lança um olhar sobre a trajetória artística de Gyula Halász – Bassaï durante o início do século XX. Focando compreender questões inerentes à fotografia, foi investigado o ingresso do artista de origem húngara no universo fotográfico da época. Visando ao domínio da linguagem fotográfica, em paralelo à pesquisa documental, foram desenvolvidos ensaios em cidades diversas. Tenciona-se um diálogo com a obra Paris de Nuit de Brassaï, como resultado dos conhecimentos construídos permeados por processos criativos.

This article provides a glimpse at the artistic career of Gyula Halász - Bassaï during the early twentieth century. By focusing on trying to better understand the many questions related to photography the entry of the Hungarian-born artist in the photographic universe was investigated. Aiming the field of photographic language, parallel to the extensive research on his work, photographic essays were developed in several cities. These essays promote a dialogue with Brassaï’s Paris de Nuit, as a result of the knowledge constructed by creative processes.

Introdução

Com a finalidade de compreender o processo de criação de um gênio da fotografia, na tentativa de sanar minhas próprias inquietações artísticas, propus-me a seguir uma incansável e fascinante jornada em busca de informações sobre a trajetória de Gyula Halász – Brassaï.[3]

Neste artigo, extrato correspondente à pesquisa de mestrado em Multimeios, exponho meus desejos em conhecer mais a fundo a carreira artística de Gyula Halász, investigando primordialmente o que tange à sua incursão no universo fotográfico.

Nos preâmbulos, realizo uma breve apresentação de Gyula Halász a fim de fornecer ao leitor informações básicas, porém relevantes, sobre a vida desse artista de origem húngara. Comumente reconhecido como fotógrafo, ao analisarmos suas obras fica notório que seus processos criativos são amplos e não se limitam a uma forma única de expressão.

Tencionando compreender o contexto, tracei inicialmente um panorama dos caminhos que o jovem percorreu até se instalar definitivamente em Paris, no ano de 1924. Na sequência, procurei remontar seu ingresso no métier que o tornaria célebre no mundo inteiro: a fotografia.

Amparada por referenciais teóricos expressivos, desde biografias até uma significativa obra literária, a qual reúne inúmeras cartas que o artista remeteu a seus pais, investigo a conjuntura da fotografia no período em questão a fim de saber as condições nas quais Gyula Halász adentrou no universo fotográfico.

Internacionalmente reconhecido pelo livro de fotografias Paris de Nuit, de 1932, Brassaï desenhou delicadamente cada canto da capital parisiense em suas memoráveis representações preto e brancas. A metrópole é retratada de maneira carinhosa. As cenas de personagens marginais, assim como as mais soturnas vielas, vistas através do Olho de Paris,[4] evidenciam apenas a beleza e descartam qualquer conotação pejorativa ou de denúncia.

A busca pela atmosfera de sonho era proposital. O artista tinha predileção por fotografar a bela Paris à noite e em condições enevoadas. A neblina, que para ele era o cosmético das cidades (BRASSAÏ, 1971), faz com que a iluminação fique difusa, promovendo um ambiente fantástico, onírico.

Brassaï estudou artes plásticas em Budapeste e Berlim. Retratou temas variados, desde a noite parisiense até os grafites estampados em muros da cidade. Teve como estímulo o trabalho do compatriota e renomado fotógrafo André Kertész e do francês Eugène Atget, que imortalizou ruas da capital francesa em época anterior.

No decorrer de sua existência, relacionou-se com diversos artistas, pintores, fotógrafos, escultores e proeminentes escritores. Documentou fotograficamente as esculturas de Pablo Picasso ao longo da vida do artista e, devido a esse trabalho, manteve estreita convivência com ele.

Meu desejo de pesquisar a obra de Brassaï ocorreu não somente por questões de afeto em relação à sua fotografia, mas também por se tratar de um artista completo. Multimídia, criou esculturas, pinturas, desenhos, obras literárias. Produziu um filme, premiado em 1956 por originalidade, Tant qu’il y aura des bêtes. A possibilidade de conhecer mais a fundo o profícuo universo desse grande artista é constante aprendizado e incentivo para seguir adiante.

Percorrer vagarosamente as fotografias banhadas por luzes difusas, repletas de delicados tons de cinza, sutis contrastes; visualizar as sombras ricas em texturas, que ressaltam os calçamentos tipo pavê;[5] e analisar a bela composição criada pelas formas geométricas da cidade, emoldurada pelo recorte peculiar do artista – esse exercício de observação é uma lição para qualquer aprendiz.

Em diálogos do livro Conversas com Picasso, Brassaï mostra a constante busca pela luz perfeita, apropriada para ressaltar a cor e a textura dos objetos nas cenas fotografadas. Seu olhar apurado fica evidente quando descreve sua visão através da janela do ateliê de Picasso. Ele destaca a luminosidade que salienta as superfícies e a gradação de tons esmaecidos. (BRASSAÏ, 2000, p. 186).

Brassaï foi autor de um trabalho diverso e múltiplo, que estava muito à frente de seu tempo. Optou pela linguagem fotográfica tardiamente, já com expressiva maturidade artística. Suas representações transcendem a realidade e a objetividade da fotografia; sua obra possui forte componente visual, pois demonstra um exercício de reflexão interna, o que torna o acervo fonte de estudo inesgotável.

O artista

Gyula Halàsz, húngaro proveniente de família de classe média, nasceu em 1899 em Brasov na região da Transilvânia. Cresceu imerso no intelectual universo das letras. Seu pai era um dedicado professor de literatura e o incentivava a seguir estudos na área de artes.

Quando ainda pequeno, teve oportunidade de conhecer a capital francesa. Mudou-se, temporariamente, com a família para Paris, onde seu pai desenvolveu pesquisas acadêmicas durante um ano, entre 1903 e 1904.

Na ocasião, uma criança de apenas quatro anos, caminhou pelas ruas parisienses e brincou com frequência no Jardin du Luxembourg. Segundo biografia, essa inesquecível fase francesa continuaria vívida na memória e o acompanharia ao longo da existência. “Tudo o fascinava, desde as luzes até as multidões e muitas das imagens de Paris permaneceriam impressas no imaginário do pequeno menino.” (POIRIER, 2005, p. 10).[6]

Adulto, Gyula Halàsz deixou a casa dos pais em Brasov para cursar artes em Budapeste e posteriormente em Berlim. Na época, o foco de seu trabalho era o desenho – que praticava com afinco, além da pintura e da redação de artigos para jornais húngaros. Tinha, portanto, estreita relação com a escrita. É provável que sua afinidade pela escrita tenha surgido moldada pelo ambiente cultural em que fora criado e por influência paterna.

Obteve êxito ao ingressar na Academia de Belas Artes alemã em 1921, todavia era contrário a algumas regras da escola. Testemunhando a liberdade de criação dos artistas que conhecera no ambiente germânico externo à universidade, não estava convencido de que a dedicação aos estudos acadêmicos seria o melhor caminho para seu desenvolvimento. Ao se comunicar com os pais, Gyula Halàsz relata seus anseios em relação aos estudos formais (BRASSAÏ, 1997, p. 45). Posteriormente, abandona a Academia alemã e passa a produzir de forma autônoma frequentando ateliês e cursos livres.

O exemplar literário Letters to my Parents reúne diversas cartas de Gyula Halász endereçadas a seus pais, redigidas entre o período de 1920 a 1940. Essa compilação da correspondência é importante fonte de consulta e possibilita que tenhamos uma ideia das aspirações do jovem, das condições e do contexto em que o húngaro construiu sua carreira artística.

Transcorridos cerca de dois anos na Alemanha, o rapaz retorna à sua cidade natal, Brasov. Permanece uma temporada com a família e após alguns meses, em busca de um ambiente mais favorável às artes, parte em direção à França, local que jamais havia esquecido.

Desembarca em Paris, no início de 1924, em pleno e rigoroso inverno. Vai morar no Montparnasse, bairro repleto de promissores artistas à época. A região em que optou por se instalar não era distante do Jardin du Luxembourg, local que habitava seu imaginário infantil.

A paixão pela Cidade Luz reacende.

O tempo passava e Gyula Halász, com 25 anos, ainda não fotografava. Dotado de olhar apurado e artístico, as cores, os contornos e as imagens da cidade já o encantavam. Provavelmente estavam aos poucos sendo armazenados na memória, para que posteriormente fossem revelados e emergissem em papéis fotográficos. Relatou, certa vez: “Esta manhã, logo que acordei, avistei o topo da torre Eiffel acima de um mar de névoa, cercada por uma massa de edifícios, e agora posso ver o céu carmesim pela iluminação dos bulevares” (BRASSAÏ, 1997, p. 53).[7]

Devidamente instalado na capital parisiense, segundo suas cartas (BRASSAÏ, 1997, p. 59), Gyula Halàsz fica maravilhado com a vivacidade do lugar. O rapaz passa a frequentar um ambiente promissor no que diz respeito às artes. Havia muitos estrangeiros, a cidade fervilhava, ocorriam diversas festividades, o que para um jovem de personalidade sociável era condição positiva.

Em Paris, o artista permanece atuando como jornalista correspondente de periódicos estrangeiros para os quais envia artigos com frequência. Os temas que aborda são diversos e envolvem desde filosofia, literatura e artes, até eventos culturais que aconteciam na cidade.

Tenaz, o artista continua a praticar o desenho e a frequentar escolas livres nos arredores de onde morava. Paris o fascinava cada vez mais.

O despertar fotográfico

Durante os meus primeiros anos em Paris, começando em 1924, eu vivi à noite, indo dormir ao alvorecer e despertando quando o sol se punha, deambulando pela cidade de Montparnasse a Montmartre. Embora eu ignorasse e até mesmo desgostasse de fotografia, anteriormente, eu fui inspirado a me tornar fotógrafo pelo meu desejo de traduzir tudo o que me encantava na Paris noturna que eu estava vivenciando.

Brassaï[8]

Buscando submergir no universo criativo de Brassaï, a fim de melhor compreender minha própria produção fotográfica, transito por livros à procura de informações sobre a carreira desse mestre das imagens noturnas. Ao longo da pesquisa passo a questionar quando tudo começou.

Ciente de que incursionou no universo fotográfico já com certa maturidade, reflito: Quando Brassaï se interessa de fato pela fotografia? Quais são as motivações que o levam a explorar essa ferramenta relativamente nova no início do século XX?

Alguns artigos redigidos por ele continham desenhos de sua autoria a fim de ilustrar as notícias. Escrever e ilustrar artigos era uma forma de subsistência, uma vez que a vida parisiense era bastante dispendiosa. Mesmo contando com algum apoio da família, agora vivia distante, sozinho, e não era incomum que enfrentasse dificuldades financeiras.

É fato que, nos anos 1930, revistas e jornais europeus começavam a demandar, cada vez mais, desenhos e fotografias para a ilustração de notícias. Conforme Aubenas, “O intervalo entre 1928-1939 foi um período de ouro para a imprensa semanal ilustrada na França – situação que possibilitou que Brassaï passasse com facilidade da escrita de artigos para a criação de imagens” (AUBENAS, BAJAC, 2012, p. 113).[9]

Decorrido um ano desde que se mudara para Paris, Gyula Halàsz ainda não fotografava. Isso fica evidente ao lermos uma das cartas endereçadas a seus pais, escrita em 16 de janeiro de 1925. O artista relata que estava prestando serviços de maneira intensiva para os periódicos e esclarece a forma como esse trabalho se dava, no trecho que segue:

Estou começando a tirar meu sustento cada vez mais dos desenhos e fotografias. O grande problema é que continuo sem os contatos diretos dos jornais alemães, só tenho os indiretos; com isso, são os editores daqui que ficam com os lucros dos desenhos, fotografias, artigos… Foi de grande valia que encontrei um fotógrafo, por sinal muito bom, que sai comigo para qualquer lugar que eu necessite que ele fotografe… estou me tornando uma espécie de photo agency. (BRASSAÏ, 1997, p. 99).[10]

Em correspondência trocada com seus pais após esse período – ainda me referindo à obra literária que reúne suas cartas –, verificamos que Gyula Halàsz contrata duas fotógrafas que tinham a incumbência de capturar imagens a fim de ilustrar seus artigos. Além disso, fotógrafos franceses lhe enviavam imagens com o desejo de que fossem publicadas em proeminentes jornais alemães com os quais ele mantinha contato.

É provável que em algum momento Gyula Halàsz tenha refletido sobre o fato de agenciar fotógrafos para que capturassem imagens a fim de ilustrar os artigos por ele redigidos. Por que ele, um artista sensível, com noções de composição e luz, não poderia ser capaz de tomar as rédeas da situação e fazer suas próprias fotografias?

Sempre envolto em dificuldades financeiras, porém resiliente e dotado de extrema sagacidade, talvez tenha começado a analisar a possibilidade de ele próprio realizar as fotografias que ilustrariam os artigos.

A carta de 19 de dezembro de 1925 nos dá indícios dessa intenção:

Parece que no início de janeiro serei correspondente parisiense de uma das maiores agências de fotografia alemã por um salário fixo de 100 gold marks. O amigo e escritor Medina me apresentou ao diretor da agência… meu dever é obter de fotógrafos parisienses as imagens em que os alemães estão interessados e ter um fotógrafo que capture imagens para ilustrar os artigos. Mas Gaudenz (esse é o nome do diretor) preferia que eu aprendesse a fotografar para que eu mesmo providenciasse as imagens. (BRASSAÏ, 1997, p. 133).[11]

Vivia na França já havia cinco anos, e no início de 1929 ainda não fotografava de fato. Mesmo não atuando como fotógrafo, ficava cada vez mais visível que Gyula Halàsz tinha o objetivo de dominar a técnica e de começar a capturar as próprias imagens.

No mês de fevereiro daquele ano, ele era correspondente regular de dois periódicos alemães e com isso tinha aportes monetários mais regrados. Relata à família que sua situação financeira se mostrava mais estável e que, logo que tivesse algum dinheiro sobrando, não hesitaria em investir na carreira de fotógrafo: “Assim que minha situação financeira se fortalecer, comprarei uma boa câmera de retratos, para tirar minhas próprias fotografias e ficar independente não somente dos fotógrafos, mas de Paris também” (BRASSAÏ, 1997, p. 175).[12]

O final de 1929 parece ter sido um período intenso e repleto de novas experiências. Além de tecer seus primeiros contatos com a fotografia, Gyula Halàsz escreve o primeiro artigo em francês, Le cimetière des chiens (BRASSAÏ, 1997, p. 178).[13] Ilustrado com desenhos do jovem húngaro, o texto foi publicado na revista francesa VU.

Entre o final de 1929 e o ano de 1930, finalmente Brassaï começa a fotografar.

Esse espaço de tempo figura em biografias e é expresso no livro Letters to My Parents, no qual Gyula Halàsz relata aos pais sua iniciação na nova empreitada. As cartas subsequentes possibilitam a compreensão dos desejos do artista em investir em equipamentos, e aprofundar e dominar a técnica.

Arranjei uma câmera. Tenho fotografado durante as últimas semanas e os resultados, como podem ver, são encorajadores. Escrevi um artigo que se chama “Desarmamento naval” para acompanhar as fotos de barcos capturadas no Jardin du Luxembourg. Pretendo vendê-lo, com isso em breve estarei apto a cogitar a compra de uma câmera mais adequada. (BRASSAÏ, 1997, p. 181).[14]

É possível que Gyula Halàsz tenha despertado real interesse pelo mundo fotográfico por influência do compatriota André Kertész (POIRIER, 2005, p. 46); conviveu com o fotógrafo em seus primeiros anos em Paris e ao atuar como correspondente, para as revistas alemãs e húngaras, trabalhou regularmente com Kertész. O trecho que segue nos esclarece a respeito:

Quando chegou a Paris, ele falava pouco francês. Em Paris, tornou-se jornalista a fim de se sustentar. Seus clientes eram jornais alemães e húngaros, e era natural que uma ou outra vez ele e Kertész tenham trabalhado juntos como uma equipe antes de Brassaï se tornar um fotógrafo. Quando aconteceu, por volta de 1930, foi Kertész quem lhe ensinou. Brassaï sempre amou o submundo secreto de Paris o qual a câmera nunca tinha visto, e ele ficou intrigado em saber por Kertész que fotografia à noite era possível. (PHILLIPS, TRAVIS, WESTON, 1985, p. 80).[15]

Anos depois, em 1963, ao redigir um artigo para o periódico Camera homenageando André Kertész, Brassaï expressa a importância que o fotógrafo compatriota teve para seu desenvolvimento. Sem rodeios, deixa claro que inicialmente não se interessava pela linguagem fotográfica, nutria inclusive sentimentos de desprezo, até o momento em que entrou em contato com as imagens de Kertész (BRASSAÏ, 1963, p. 7).

Considerações finais

Importante ressaltar que, a fim de ter êxito no novo trabalho, o artista se coloca completamente aberto às novas experimentações. Dotado de sagacidade inigualável, Brassaï soube aproveitar as oportunidades e para isso ficou plenamente disponível aos desafios e riscos inerentes às novas descobertas.

O artista sabia dispor das qualidades que ele próprio acreditava serem fundamentais na existência de um fotógrafo: uma curiosidade insaciável do mundo, da vida e do homem, um senso agudo da forma” (BRASSAÏ, 1963, p. 7).[16] O talento nato e essa curiosidade voraz permitiram que se aventurasse indistintamente em diversas formas de expressão.

Brassaï se lançou à experiência ao se permitir percorrer lentamente as ruas de Paris, desfrutando sem pressa de caminhadas noturnas, observando atentamente e com deleite cada esquina da bela metrópole francesa.

Tanto na vida cotidiana quanto no ato fotográfico, transitava com destreza por diferentes esferas sociais, frequentando desde o submundo parisiense até importantes eventos da alta sociedade: “Um dia eu estava na Rue de Lappe fotografando um mendigo, no outro dia estava numa grande festa” (BRASSAÏ, 1971). Essa versatilidade e entrega Brassaï vivenciaria também na própria arte.

No decurso de quase um ano, dedica-se a praticar a nova forma de expressão. Como demanda todo aprendizado, o artista imprime boa dose de energia e entusiasmo visando à compreensão dos processos, à construção de conhecimentos e ao domínio da técnica.

Sendo assim, a genialidade e a confiança do mestre em sua própria arte são notórias. Ciente de que valiosas obras ganhariam vida em um futuro próximo, concluo minhas explanações sobre sua incursão no universo fotográfico com a derradeira frase por meio da qual Brassaï, em tom quase premonitório, confidencia a seus pais: “Estou feliz que agora domino a arte da fotografia e que consegui o equipamento necessário. Custou tempo e energia consideráveis, mas aos poucos colherei os frutos” (BRASSAÏ, 1997, p. 128).[17]

Fotografias de Brassaï no livro Paris de Nuit, de 1933, pp. 9 e 10.
Fonte: Maison Européenne de la Photographie, Paris.
© Estate Brassaï – RMN-Grand Palais

Conversas com Brassaï: meus ensaios fotográficos

A gênese de minha pesquisa de mestrado em Multimeios partiu do desejo de construir conhecimentos em fotografia por meio da realização de ensaios ao longo do meu andarilhar pelas cidades, entrelaçando a práxis aos meus questionamentos sobre os caminhos de Gyula Halász-Brassaï (1899-1984).

A fim de melhor compreender aspectos poéticos, técnicos e históricos da fotografia, direcionei meu olhar para as paisagens urbanas, alicerçada por expressivo referencial. Influenciada pela obra de Brassaï, iniciei fascinante e incansável jornada procurando atrelar o fazer artístico a investigações e reflexões teóricas.

A intenção foi pesquisar relacionando teoria e prática, e pelos ensaios fotográficos por mim elaborados criar conexões com a poética de Paris de Nuit.

Pelas fotografias de diferentes cidades busco incentivar a renovação do olhar e estimular a percepção de que pode haver poesia mesmo nas coisas banais e em lugares improváveis.

Desejo que as imagens por mim capturadas retratem as cidades e, repletas de sutilezas e contrastes, sejam capazes de transmitir uma atmosfera contemplativa, onírica. Esse é um aspecto pulsante na obra desse brilhante e multifacetado artista.

Homenageando Brassaï, a cada imagem criada, busquei estimular o observador a perceber cenas cotidianas das cidades, que normalmente não são notadas, mas que podem ser imbuídas de surpreendente beleza.[18]

Referências Bibliográficas

AUBENAS, Sylvie; BAJAC, Quentin. Brassaï: le flanêur nocturne. Paris: Gallimard, 2012.

ATGET, Eugène; REYNAUD, Françoise. Eugène Atget: un choix de photographies extradites de la collection du musée Carnavalet. 6. ed. Paris: Actes Sud, 2010.

BONDIA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Tradução de João Wanderley Geraldi. Revista Brasileira de Educação, Campinas, n. 19, p. 20-28, 2002.

BRASSAÏ. Brassaï: letters to my parents. Translated from the Hungarian by Peter Laki and Barna Kantor. Chicago: University of Chicago Press, 1997.

______. Conversas com Picasso. São Paulo: Cosac Naify, 2000.

______. Mon ami André Kertész. Camera, Paris, n. 4, p. 7-32, 1963.

_______.Paris de Nuit. Prefácio de Paul Morand. Paris: Arts et Métiers Graphiques, 1933.

_______.Paris Nocturne. New York: Thames and Hudson, 2013.

______. Spéciale Brassaï . Produtor: Michèle Arnaud. Paris: Office National de Radiodiffusion Télévision Française, 1971.  1 vídeo (48 min). Produzido por Institut National de l’Audiovisuel. Disponível em: http://www.ina.fr/video/CPF86642007/speciale-brassai-video.html. Acesso em: 10 jun. 2015.

PHILLIPS, Sandra S.; TRAVIS, David; WESTON, J. Naef. André Kertész: of Paris and New York. London: Thames and Hudson; New York: The Art Institute of Chicago, 1985.

POIRIER, Diane Elisabeth. Brassaï: an illustrated biography. Paris: Flammarion, 2005.

[1] Título da dissertação: Caminhos pela fotografia: um olhar sobre as cidades. Mestrado em Multimeios, Instituto de Artes/Unicamp. Data da defesa: 30 de agosto de 2016. Banca: Prof. Dr. João Luiz Musa, ECA-USP, e Prof. Dr. Ernesto Giovanni Boccara, IA-Unicamp. Orientador: Prof. Dr. Fábio Nauras Akhras, IA-Multimeios. Estágio de pesquisa na França sob orientação do Prof. Dr. Philippe Dubois (Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3).
ludkaehler@gmail.com

[2] Bacharel em Artes Plásticas pela ECA-USP [2010]. Possui especialização em Ensino de Artes Visuais pela UFMG [2016]. Em agosto defendeu o mestrado em Multimeios no Instituto de Artes da Unicamp. No ano de 2015 foi contemplada com bolsa de mobilidade internacional e realizou estágio de pesquisa na França sob supervisão do Prof. Dr. Philippe Dubois, da Université Sorbonne Nouvelle, Paris 3.

[3] Brassaï: pseudônimo de Gyula Halász. Significa “aquele que vem de Brasov”, cidade natal do artista.

[4] Olho de Paris: apelido de Brassaï atribuído pelo escritor e amigo Henry Miller.

[5] Pavé: paralelepípedo em francês.

[6] Tradução nossa. No original: “Everything from the city lights to the crowds fascinated him, and many images would remain imprinted in the little boys brain”.

[7] Tradução nossa. No original: “As I woke this morning I caught sight of the top of the Eiffel Tower above the sea of fog and the mass of buildings, and now I can see the sky, crimson from the light of the boulevards”.

[8] AUBENAS; BAJAC, 2013, p. 185, tradução nossa. No original: “During my first years in Paris, beginning in 1924, I lived at night, going to bed at Sunrise, getting up at sunset, wandering about the city from Montparnasse to Montmartre. And even though I had always ignored and even disliked photography before, I was inspired to become a photographer by my desire to translate all the things that enchanted me in the nocturnal Paris I was experiencing”.

[9] Tradução nossa. No original: “La période 1928-1939 correspond a um véritable âge d’or de la grande presse hebdomadaire française illustrée de photographies. Ce contexte permet à Brassaï de passer três rapidement de la rédaction d’articles à la création d’images”.

[10] Tradução nossa. No original: “I’m beginning to earn my living more and more from drawings and photographs. The big problem is that I still don’t have direct contacts with the German newspapers, only indirect ones, so it’s the editors here who skim off the profits from the drawings, photographs, articles… It is tom y great advantage that I have finally found a photographer – a very good one – who comes with me everywhere I want her to and takes the pictures… So I am turning into a sort of photo agency”.

[11] Tradução nossa, grifos nossos. No original: “It is likely that, from the first of January, I will be the Parisian agent for one of the big German photo agencies for a fixed salary of 100 gold marks. My writer friend Medina introduced me to the director of the agency… My task will be to obtain from Parisian photographers the pictures that the Germany is interested in, and to have a photographer take pictures for the commissioned articles. But Gaudenz (that’s the name of the director) would mostly like me to learn photography so that I can provide these pictures myself”.

[12] Tradução nossa. No original: “As soon as my financial position is strong enough, I will buy a good portrait camera so I can take my own photographs and become independent not only of the photographer but of Paris as well”.

[13] Informação presente em uma das cartas de Brassaï endereçadas aos seus pais.

[14] Tradução nossa, grifo nosso. No original: “I came by a camera, I’ve been taking photographs for the past few weeks, and the results, as you can see from the pictures enclosed, are encouraging. I wrote an article to accompany the photos of boats taken in the Luxembourg Gardens entitles ‘Naval Disarmament’. I managed to sell it, so I will soon be able to consider buying a more serious camera”.

[15] Tradução nossa, grifo nosso. No original: “When he first came to Paris, he spoke little French. In Paris he became a journalist in order to support himself. His clients were German and Hungarian newspapers, and it was only natural that once or twice he and Kertész worked together as a team before Brassaï himself became a photographer. When he did, around 1930, it was Kertész who taught him. Brassaï has always loved a secret underworld Paris that the câmera had never seen, and he was intrigued to find through Kertész that photography at night was possible”.

[16] Tradução nossa, grifo nosso. No original: “[…] une curiosité insatiable du monde, de la vie et de l’homme, un sense aigu de la forme”.               

[17] Tradução nossa, grifo nosso. No original: “I’m glad to have mastered the art of photography and to have amassed the necessary equipment. It took a considerable amount of time and energy, but I will slowly reap the rewards”.

[18] Estas imagens são uma parte do ensaio fotográfico por mim elaborado ao longo da pesquisa de mestrado e integram o exemplar da dissertação.