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Editorial

É com satisfação que apresentamos o número 33 da Revista STUDIUM patrocinada pelo Fundo de Investimento de Campinas (FICC) da Secretaria de Cultura/Prefeitura de Campinas com a poio da FAPESP e Insituto de Artes da Unicamp. Nesta edição procuramos escapar da recorrente sistematização que nos obriga ao pensamento linear e conclusivo e neste sentido este numero é o resultado da pesquisa de mestrado: Vendo (o) Corpo, Vendo (a) imagem: a autorrepresentação fotográfica de mulheres e travestis profissionais do sexo do Itatinga/Campinas de Luiz Carlos Sollberger Jeolás (download).

jardim das delícias, BoschUma edição invariavelmente sugere conteúdos orientados e ou revestidos de algum sentido daquilo que supomos ser, não somente a polissemia do conjunto de imagens, mas da própria polissemia das relações humanas, tanto para o documento como para os supostos objetos artísticos no tempo e no espaço. É mister, como gosta Bibia Gregori, dizer que o Jardim Itatinga não se fecha em suas Delícias.

Para materializarmos qualidades e problemas humanos matizados neste lugar, faz-se necessário recorrermos aos “ismos”, à semiótica, aos saberes psi, sócio, históricos e antropológicos na tentativa de desvendarmos as (i)lógicas simbólicas deste território, considerado, segundo as mentes mais conservadoras, o maior “prostíbulo” a céu aberto da América Latina.

Para nós, é mais um local de trabalho como muitos outros e assim como disse uma das profissionais do sexo, colaboradora da pesquisa, um sex-office a céu aberto, ou ainda nas palavras de Diocleide, uma amiga que foi ao Itatinga numa ocasião de festa: Nossa, quanta vida!

O exercício dos autores convidados para essa edição foi o da apropriação das imagens produzidas por mulheres e travestis moradoras do Jardim Itatinga durante a pesquisa-ação de mestrado. Mas, afinal, e a tão propalada e outorgada autonomia das imagens? Será que a busca de uma resultante dialógica entre forma e conteúdo se faz sempre necessária?

Neste sentido, durante o exercício de ambientação ou descrição cenográfica que a contextualização do campo exige, retoma-se uma das mais reveladoras memórias vividas nesta giornatta. Dela não há “registros formais”, muito embora, o pesquisador estivesse com a sua câmera fotográfica FujiFinePix S5.

Com a devida licença pedida ao fotojornalismo, me contive e, incrivelmente, nada cliquei. Pode ser que dia desses alguns frames apareçam. Enfim, uma insólita memória, delicada, volátil, um sentimento de desrealidade, como diria Barthes. Chromes, Netscapes, Mozzilas e Explorers, conheçam a história: “A morte do aplique que virou crack”.

Fani, a querida Fanny Delaine de Barewelch: “nome completo por favor”, como sempre pedia foi, dentre todas as profissionais do sexo, uma das mais participativas e a que mais respondeu ao estereótipo da vida de uma travesti profissional do sexo e  viciada em crack.

Era um dia de semana quente em Campinas, de sol a pino. A irmã de Fani, o cunhado, sete ou oito pessoas moradoras do Jardim Itatinga e eu estávamos naquele cemitério com muitas covas rasas e públicas para indigentes, embora ao morrermos nos tornarmos todos.

Foto de Fanny Delaine de BarewelchO silêncio estava explicitado nas apresentações e as graças, já reveladas nas saudosas memórias. Denise Martins, travesti colaboradora e uma das principais articuladoras política do Itatinga, no caminho do corpo à cova conta que Fani havia recém-adquirido o desejado aplique de quarenta centímetros para o cabelo: durante uns dois dias, só deu ela lá, no Jardim das Delicias, batendo o cabelo. Em nossa conversa, Denise continuou: cheguei a imaginá-la destroncando o pescoço, Nenê, de tanto que batia o cabelo. Rimos, rimos muito enquanto andávamos com as mãos nos lábios.

Foto de Fanny Delaine de BarewelchDenise disse que ela gastou todo o dinheiro dos últimos programas no tal aplique, até o do aluguel. Infelizmente, Fani não aguentou ficar sem as pedras de crack, continuou Denise: rifou o aplique, vê se pode? No dia seguinte, anterior ao velório, fora encontrada morta em um quarto de motel no Itatinga, depois de alguns clientes e cachimbadas.

No caminho, já bem próximos à cova, começamos a rir novamente e a nos perguntar: afinal de contas, quem havia ficado com a maior parte do aplique? Até hoje não sabemos em que cabeças aqueles fios estão batendo. Também não sabemos se os cruzeiros que Fanny nos descrevia em pormenores e com requintes de detalhes eram resultado de viagens ou de seu rico imaginário. Não importa, assim como não importava. O simples fato de narrá-los nas mesinhas do bar entre latinhas de cerveja já nos deixava felizes. E o sol, somente ele, a pino, sempre como testemunha.

Ao contrário da pesquisa de mestrado que priorizou a seleção de fotografias feitas pelas mulheres e travestis do Itatinga, os ensaios a seguir foram organizados a partir da escolha de cada um dos autores convidados para compor esta edição. Eles/elas tiveram como ponto de partida um conjunto de imagens do material da referida pesquisa editado por mim e por Fabio Gatti.

Fernando de Tacca, querido mestre e editor-chefe da STUDIUM, entre tintos de veranos e jamon serrano quando de seu encontro com Luiz Carlos Sollberger Jeolás em Madri para também trabalharem, escolheu como capa desta edição, talvez aquela que seja a imagem síntese de todo o processo. Sua escolha se deve à sua argúcia e memória (a)efetiva. Trata-se de um autorretrato de Jocasta, que nos deixa a dúvida se o creme encontrado em sua face era cera depilatória ou esperma. Tacca havia acabado de assistir “A Pele que Habito”, filme de Pedro Almodóvar lançado à época, inspirando-o a discorrer sobre a fotografia e as várias camadas dérmicas que podemos assumir.

Lygia Arcuri Eluf toma o espaço como ponto de partida de sua reflexão e sugere que o espaço da paisagem sem bordas ou limites traz à consciência uma compreensão estética por parte das colaboradoras da pesquisa.

Iara Beleli mescla sua memória a duas  fotografias, vestidos de noivas e de primeira comunhão para o ensaio nas passarelas das imagens escolhidas.

Fábio Gatti se dá ao direito de criar uma prosa entre quatro entidades: ficção, realidade, interpretação e lugar.

Bibia Gregori comprova que, para além das objetividades que o rigor acadêmico pede, é possível revestir uma análise com sensibilidade e sagacidade.

A edição de Alê Poeta para o vídeo inédito aqui apresentado, mostra o material captado e roteirizado por Jeolás em um dia na vida de Jocasta e revela as contingências de gênero no cotidiano de uma travesti. Rastros, fragmentos e histórias de uma vida.

Fique agora com a edição 33 da revista STUDIUM (Por/Eng). Nela você poderá navegar, graças ao cuidadoso trabalho de Lygia Nery, pelos ensaios dos autores e seus depoimentos, assistir ao vídeo de Jocasta e fazer um tour pela exposição virtual/3D montada por Rogério Simões da Cunha. Aproveitem!

Luiz Carlos Sollberger Jeolás (Nenê)
Editor

Fábio Gatti
Coeditor

Artigos

As peles que habitamos
Fernando de Tacca
Conversações Fotografia
Fábio Gatti
Sonhos de passarela
Iara Beleli
O espaço da paisagem, sem bordas ou limites
Lygia Arcuri Eluf
Videntes fugidios
Maria Filomena Gregori

Dissertação

adobe reader Vendo (o) corpo, vendo (a) imagem - Dissertação completa em pdf

resumo/abstract Resumo

arquivo zipado Dissertação zipada para download

Nota de tradução - Lendo imagens

Como "vemos" uma imagem que não está na nossa frente? Com palavras. E é com isso que trabalho. Palavras, palavras... Em inglês, em português.

Enquanto fazia a versão para o inglês dos textos dessa edição, ficava imaginando como seriam as imagens às quais os autores se referiam. Porque, obviamente, eu as montei em minha mente, de acordo com a descrição de cada uma delas.

Então, fui "vendo", uma a uma, as fotos escolhidas pelos autores. A primeira, de Fernando Tacca, um rosto coberto em parte por uma máscara, um creme. Depois, as imagens selecionadas por Iara Belelis: um vestido de noiva em uma vitrine e meninas trajadas para sua primeira comunhão. Lygia Eluf escolheu sequências fotográficas mostrando paisagens. Bibia Gregori optou por uma foto mais abstrata, manchas na parede, mofo, e outra de um canteiro de obras com areia, betoneira.

Após terminar meu trabalho, pedi para ver as fotos. Recebi todas as imagens, não apenas as escolhidas pelos autores, e, no meio de tantas fotografias, fui tentando identificar visualmente aquelas que foram descritas nos textos. Essa foi uma tarefa consideravelmente simples, pois as imagens foram bem traduzidas em palavras - o bom texto pode se aproximar bastante da força de uma imagem.

Espero ter feito uma tradução entre as línguas tão boa quanto a tradução entre mídias que tive a oportunidade de verificar nesses textos.

Diana Ricci Aranha

3D virtual - exposição

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