A prova: ensaio sobre a incompletude

A prova: ensaio sobre a incompletude [1/4]

Ronaldo Entler

A dádiva e o castigo da cegueira

A Prova é a história de um fotógrafo cego. Isso bastaria para despertar a curiosidade do público, mas seria algo apelativo e insuficiente se o filme não soubesse tirar consequências desse encontro improvável entre a câmera e alguém que não enxerga. Produção australiana de 1991 dirigida por Jocelyn Moorhouse, o filme faturou em sua estréia os prêmios mais importantes do Australian Film Institute e recebeu uma menção em Cannes. Chegou ao Brasil um ano depois através da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e foi escolhido pelos críticos como melhor filme da programação.

O lançamento do filme contou com a colaboração involuntária de um artista cujo trabalho começava a aparecer para o mundo naquele momento, o fotógrafo esloveno Evgen Bavcar. Cego desde os 12 anos de idade por conta de dois acidentes sucessivos, Bavcar começou a fotografar aos 16 anos. Já em Paris, onde trabalha como professor e pesquisador da área de estética no CNRS (o reconhecido Centro Nacional de Pesquisas Científicas), obteve grande projeção quando lançou, também no início dos anos 90, um livro autobiográfico chamado Le Voyeur Absolu, e mostrou seu trabalho em diversas exposições pelo mundo. Também nessa condição inusitada de fotógrafo cego, Bavcar despertou estranhamento e comoção por onde passou. Na ocasião, muitos, incluindo críticos de cinema, entenderam Bavcar como sendo a inspiração para o filme. Jocelyn Moorhouse, convocada a falar muitas vezes sobre o assunto, afirmou sequer conhecer o trabalho do esloveno antes que a imprensa fizesse a ligação[1].

A exemplo do que sugere o título do livro de Bavcar (O voyeur absoluto), muitas histórias e mitologias apresentam personagens cegos como alguém que enxerga mais longe, mais profundamente, com uma sensibilidade aguçada que permite ver além das aparências. O mais famoso desses personagens é, talvez, Tirésias, profeta oriundo de Tebas, punido por Hera com a cegueira, mas presenteado por Zeus com o dom da vidência, quando opinou a favor deste último numa discussão do casal de deuses. É exatamente Tirésias quem aparece como oráculo em algumas importantes tragédias gregas, anunciando o destino de heróis como, por exemplo, o de Édipo.

É uma idéia semelhante que move o documentário Janela da alma (2002), de João Jardim e Walter Carvalho. Uma série de personalidades com diferentes níveis de deficiência visual, dentre elas Evgen Bavcar, discute o modo como suas limitações se desdobram em modos peculiares de compreender a realidade.

O Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago (ele também personagem de Janela da alma), não chega a construir propriamente uma exceção, mesmo mostrando o nível de degradação moral a que as pessoas se submetem quando sua sobrevivência está ameaçada por uma súbita perda da visão. Como uma espécie de espelhamento da mítica vidência dos cegos, Saramago parece se referir através de sua cegueira branca à deficiência de um mundo marcado pela visibilidade de todas as coisas, uma caverna de Platão que, em vez da sombra, oculta a realidade pelo excesso de luz. Aqui, a suposta doença apenas metaforiza um mal que já estava consumado e que, no entanto, nunca foi tão visível quanto durante o período de cegueira. Nesse sentido, os personagens não deixam de retornar dessa experiência com um aprendizado. Podemos dizer então que cegos tendem a ser personagens privilegiados, muitas vezes dignificados pelo sofrimento que os aflige e pela consciência que alcançam.

A Prova traz, no entanto, uma abordagem original: mantemos um razoável nível de empatia com Martin, o fotógrafo cego do filme, mas o modo como ele próprio lida com sua deficiência é pouco romântico ou heróico e, em princípio, sua sensibilidade se limita ao plano físico, isto é, à capacidade de sobreviver satisfatoriamente com o aguçamento dos quatro sentidos que lhe restam. Marcado por um trauma, Martin não pode enxergar algumas verdades que desfilam diante dele, e torna opaco todo sentimento das pessoas que o rodeiam.

[1] Jocelyn Moorhouse confirmou não haver nenhuma inspiração em Bavcar, numa resposta que nos foi enviada por e-mail através de Beth Swofford, sua agente nos Estados Unidos (16/09/2009).