A prova: ensaio sobre a incompletude

A prova: ensaio sobre a incompletude [4/4]

Ronaldo Entler

Imagem e palavra

Às vezes, esperamos tocar diretamente o real por meio da linguagem. Mas, no final das contas, a linguagem apenas permite rodear o real de modo um tanto difuso, porque coloca entre o sujeito e o mundo os artifícios que a constituem: o idioma, as gramáticas, as técnicas, os estilos, enfim, os modos de referir-se ao real. Se a linguagem nos parece satisfatória para gerenciar nossa relação com o mundo é porque existe um pacto – podemos chamá-lo simplesmente de cultura – que, pelo menos, estabelece parâmetros comuns para o discurso, ou seja, permite a comunicação. Nesse sentido, uma afirmação ou um documento é suficientemente verdadeiro não tanto porque seja capaz de revelar o real em si, em sua totalidade, mas porque o modo como tenta cercar esse real está em conformidade com o pacto estabelecido. Isso significa que toda linguagem exige uma entrega, uma confiança, algo que Martin é incapaz de constituir.

Para testar a veracidade da fala de sua mãe, Martin fará intervir outra linguagem, a fotografia. Talvez porque, mesmo sendo uma criança, pudesse supor nessa imagem uma relação mais objetiva com o mundo. Após pedir que ela descreva a paisagem da janela de sua casa, ele duvida de seu relato, e faz então sua primeira fotografia para ter uma prova daquilo que sua mãe realmente havia visto. Mas o que Martin espera provar não diz respeito ao objeto que estava diante da câmera, mas ao sentimento de sua mãe. Há portanto um abismo entre a foto que realiza e a questão que coloca. Para piorar, ele não pode ver a prova que produz. Mesmo que sua fantasia projete sobre a imagem tal potencial de veracidade, a fotografia ainda precisa ser decifrada. Constitui-se então um círculo vicioso: Martin, que produziu essa imagem para confirmar um discurso, deverá aguardar o encontro com alguém sincero o bastante para produzir um discurso que confirme a imagem. Trata-se, assim, de uma espécie de espera messiânica capaz de reconciliar as representações humanas com uma verdade originária. A narrativa do filme se inicia no momento em que Martin parece estar prestes a reconhecer em Andy essa possibilidade de redenção. Mas a honestidade de seu novo amigo também será colocada à prova através da fotografia ou, mais precisamente, será colocada em dúvida por sua obsessão.

A espera atormenta Martin de diferentes modos. As fotografias que faz (à velha maneira) precisam ser reveladas, e essa latência da imagem constitui novos riscos. Por isso, Martin não admite que outras pessoas peguem suas fotos no laboratório. Mas há outras esperas: uma vez de posse das imagens, ele precisa também aguardar que alguém as descreva, para serem então identificadas com uma etiqueta impressa em braille. Mas ele finalmente parece ter encontrado a pessoa certa para essa tarefa: além da rápida confiança que se constrói, Martin gosta do estilo “simples, direto, honesto” como Andy fala das imagens, usando poucas palavras, conforme ele recomenda.

Mas a paixão de Andy por Celia põe tudo a perder. Mais uma vez frustrado, Martin decide enfrentar seu passado por sua própria conta. Ao visitar o túmulo de sua mãe, reconhece pelo tato o nome em relevo que está na lápide. Mas aqui também a palavra lhe parece insuficiente, e ele pergunta ao funcionário do cemitério: “há casos de se enterrar caixões vazios?” Ele duvida assim de um dos mais antigos sistemas de representação que é o sepultamento: em grego, sema, que dá origem a termos como semântica ou semiótica, quer dizer signo mas, antes, era a pedra tumular que garantia a permanência na memória de uma pessoa ausente.

Martin está em busca de relações de sentido, uma correspondência entre uma imagem e uma palavra, uma palavra e a realidade, mas também entre uma sepultura e uma suposta morte. Para os antigos, a akedia representava a experiência limite de desleixo e imoralidade que é deixar um corpo insepulto, de modo que se garantia até mesmo a cerimônia dos inimigos mortos em combate. Para o cristianismo, a acídia (ou a preguiça) tornou-se o pecado capital de abandonar Deus por negligência ou indiferença. A tormenta de Martin é um espelhamento disso tudo, refere-se à possibilidade de uma sepultura permanecer sem um corpo, que aqui equivale à possibilidade de ter sido laboriosamente abandonado pela mãe. Nesse caso, é sua alma que padece pela impossibilidade de fazer o luto da pessoa que ama, pela impossibilidade de velar algo que já lhe era obscuro, e que não tem certeza de estar ali.

O personagem Martin, assim como fotógrafo esloveno Evgen Bavcar, precisa da mediação da palavra de alguém para poder se conectar com as imagens que produz. O que muda entre um e outro é o nível de consciência que cada um tem sobre os potenciais e os limite das linguagens em questão. Bavcar assume a imagem como um diálogo bastante aberto sobre suas memórias e desejos e, desse modo, as palavras de terceiros que atravessam suas imagens constituem uma poética intersubjetiva. Já Martin busca objetividade, um encaixe entre a imagem e uma verdade moral, algo que só é possível no plano de uma fantasia da qual, no entanto, ele tem pouca ou nenhuma consciência. Nesse caso, no cruzamento entre a palavra e a imagem, elas se complicam e se atrapalham mutuamente. No final das contas, todos nós, cegos ou não, recorremos frequentemente à mediação da palavra para estabelecer uma ligação entre a imagem e o mundo. As medidas possíveis dessa relação é algo que temos a aprender tanto com a sensibilidade poética de Bavcar quanto com a opacidade afetiva de Martin.

Voltando ao filme, vemos que, após a nova decepção e a situação limite de desconfiança diante do túmulo da mãe, Martin parece entender que é preciso baixar a guarda, pois cabe apenas a ele aquilo que tem cobrado dos outros. Novamente, reencontramos Édipo que obstinado em desvendar a verdade sobre a injustiça que tornou toda Tebas estéril: ao procurar o responsável, ele encontra a si mesmo como culpado. Mas há diferenças cruciais: enquanto Édipo descobre não ter escapado de seu destino (revelado pelo cego Tirésias), Martin tem a chance de construir o seu. Enquanto Édipo se pune com a cegueira e se exila, Martin tem aí a oportunidade de reconciliar-se com suas memórias e com sua condição para, então, retornar ao mundo.

Não cabe aqui contar o final da história, mas a narrativa se encaminha para um desfecho quando ele reconhece que sua noção de verdade é frágil e que, portanto, suas expectativas sempre tendem ao fracasso. Sendo assim, não lhe resta alternativa a não ser fazer um pacto de confiança com alguém que, apesar de humano e suscetível à mentira, é capaz de produzir um discurso no qual se reconheça não uma evidência da verdade, mas simplesmente a produção de um sentido. Talvez a partir disso, sua primeira fotografia, prova que justifica seus desafetos, poderá revelar-se finalmente como memória da pessoa que mais ama.