Sobre as fotos proibidas de Robert Mapplethorpe

Sobre as fotos proibidas de Robert Mapplethorpe [1/3]

Mauricius Martins Farina

De fato, as figuras de Mapplethorpe aproximam-se das tradições da fotografia de arte e das pinturas dos antigos mestres para criar imagens sedutoras, cuja beleza cabal servia como um realce para a sua sexualidade não reprimida. (HEARTNEY, 2002)

Dirty Pictures, rodado no ano 2000, dirigido por Frank Pierson, trata do julgamento de Dennis Barrie, diretor do Centro de Arte Contemporânea de Cincinnati em 1990, que foi acusado de promover pornografia através da apresentação da exposição The Perfect Moment, de Robert Mapplethorpe, que incluía imagens de crianças nuas e exibição de sadomasoquismo homossexual. Dennis Barrie conseguiu manter a exposição de Robert Mapplethorpe, com o apoio do seu conselho de administração, mesmo após o prestigiado Corcoran Gallery of Art em Washington, DC, tê-la anulado. Ele vai a julgamento, através de manobras de uma política conservadora, acusado de promover obscenidade em nome da arte. Ao final ele é absolvido, mas a custa de grandes prejuízos pessoais. O que espanta é que um processo inquisidor sobre imagens fixadas em papel ainda tenha curso em finais do século XX, num país que se fundamenta na noção de liberdade.

A Primeira Emenda (I Amendment) da Constituição dos Estados Unidos da América[1] é uma parte da Declaração de direitos dos Estados Unidos da América e desautoriza, explicitamente, o Congresso a estabelecer uma religião oficial ou dar preferência a uma dada religião, estabelece o livre exercício da religião, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o direito de livre associação pacífica e o direito de fazer petições ao governo com o intuito de reparar agravos. Ao longo do tempo, os tribunais asseguraram a extensão dessas premissas a qualquer ramo do poder judicial e executivo. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos da América assegurou que a XIV Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América incorporasse a Primeira Emenda contra qualquer ação dos estados em particular. Porém, o que pretendo discutir neste trabalho não são os meandros jurídicos ou a Constituição Americana, mas uma questão fundamental na arte contemporânea após os anos 80, que trata de questões que produziram um choque na recepção cultural, promovendo polêmicas e desconcertos sobre a questão dos limites e da ética.

A arte contemporânea americana no final dos anos 80 estava ocupada pelo debate sobre a censura, e dois artistas que trabalhavam com fotografia, Robert Mapplethorpe (1946-1989) e Andres Serrano (1950-) estavam no centro da batalha. O senador republicano Jesse Helms indignou-se, já que tanto a retrospectiva de Mapplethorpe quanto as fotografias de Serrano, Cristo do Mijo em particular, tinham sido financiadas parcialmente com dinheiro público.

O debate envolveu as questões do racismo e do machismo, bem como da blasfêmia e da homofobia. O resultado imediato foi que a Câmara dos Deputados fez uma redução do Fundo Nacional para as Artes equivalente ao que fora desembolsado nos dois projetos, e a Galeria Corcoran de Washington, escolhida como o terceiro local para a mostra de Mapplethorpe, cancelou o evento. Tendo arrancado uma lista do livro de Krzystof Wodiczko, os defensores de Mapplethorpe organizaram um protesto durante o qual projetaram slides de sua obra na fachada da galeria, forçando-a a abrigar a mostra. (ARCHER, 2001:159)

Para a irritação dos moralistas, a arte não é subserviente, não admite imposições externas ao juízo do artista. O limite entre o que é e o que não é arte não é um juízo de valor ou de moral. Não se trata de seguir um manual de bom comportamento ou mesmo de procurar refletir sobre uma pedagogia ética.

A noção de uma determinação do valor cultural partilhado por um bem comum não cabe na arte, não no sentido de algo que deve ser dirigido a alguém como uma verdade, a arte não lida com o pré-conceito. É resultado de uma expressão que extrapola o nível ordinário de uma comunicação, é a possibilidade que cada indivíduo tem de se pensar como o articulador de uma relação que envolve o desenvolvimento de materialidades e de singularidades, de conceitos, e mais que tudo de um porvir de sensibilidade, de sentimento e não de sentimentalismos.

Semioticamente é a possibilidade de uma representação construir um novo objeto problematizando a própria noção de signo. Não é linguagem no sentido coletivo porque não trabalha com o lugar comum da comunicação, mas a possibilidade de construir o que parecia não existir. São inúmeras as diferenças, o tempo diz da presença concreta de subjetividades que compõem a sociedade, e ao materializar essas presenças só pode contar com determinados enunciados que irão compor um significado mais profundo.

Prematuramente desaparecido, Robert Mapplethorpe (1946-1989) ofrece impecables retratos o composiciones que suscitan interes o rechazo por los temas tratados, y hasta la reprobación oficial por parte de autoridades puritanas en los Estados Unidos. Sus desnudos masculinos, La conjunción de modelos de raza blanca y negra (tema ya magníficamente tratado por Eikoh Hosoe) son lo más representativo de su obra. (SOUGEZ, 2001)

[1]"O congresso não deve fazer leis a respeito de se estabelecer uma religião, ou proibir o seu livre exercício; ou diminuir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou sobre o direito das pessoas de se reunirem pacificamente, e de fazerem pedidos ao governo para que sejam feitas reparações por ofensas."