Sobre as fotos proibidas de Robert Mapplethorpe

Sobre as fotos proibidas de Robert Mapplethorpe [3/3]

Mauricius Martins Farina

Nos anos 80 e 90, considera-se a presença da arte abjeta, dos artistas que trabalharam com fluidos corporais os mais diversos, como sangue, esperma, urina, unhas, cabelos, pelos; é uma época marcada por diversos traumas e pela presença da AIDS em particular, o próprio Mapplethorpe foi vitimado pela doença. A ideia de abjeção tem relação com o sentido de expulsão, de colocar para fora o que asfixia e envenena.

Num grande panorama percebe-se que o sujeito ainda romântico expõe suas carnes doloridas para expiar a falta de sentido e seu sofrimento por haver se desconectado de um nexo descrito nos mitos da harmonia clássica. A alma barroca de Caravaggio é paradigmática de um sentido avesso e transgressor, sua Natureza morta com cesto de frutas[2], pintada em 1597, apresenta a realidade em decomposição e não uma beleza mimética calcada nos valores da perfeição; ela é emblemática, assim como seu Auto-retrato como Baco[3], de uma presença indicativa da realidade e do tempo acima das convencionalidades estéticas de uma falsa noção de beleza. É possível estabelecer relações mais profundas nessas imagens que são marcadas pela transgressão ao estabelecido, elas pertencem a uma tradição, a uma linhagem “maldita” que supõe a coragem de roubar o fogo dos deuses e apagar a chama do Sol.

Neste auto-retrato não há dúvida na presença da morte; ao empunhar um cajado com uma caveira, há a presença da antiga tradição da representação da caveira como símbolo da efemeridade da vida, Vanitas[4]. A morte como presença de uma narrativa de uma atmosfera dionisíaca perturbada pela destruição da capacidade de estar imune aos inimigos da carne.

O tempo é cíclico, os eventos tornam a se repetir. A imagem pública dos moralistas é sempre pudica, entretanto, basta observar a forma como tratam aqueles sob sua responsabilidade, manifestadamente com um desinteresse extremo. Falsos moralistas são muitas vezes sujeitos recalcados adeptos de práticas perversas. Seu problema não é a verdade em si, mas a imagem moral, a imagem pública disfarçada, simulacro de honradez.

O senador Helms, que em 1989 lançou uma campanha contra a tolerância pública à arte indecente, ainda se julgava amparado por uma concepção norte-americana da arte, na qual Hughes reconhece uma falácia terapêutica. A implantação da modernidade nos Estados Unidos foi uma adaptação brilhante em que se concebeu “a ideia de uma vanguarda terapêutica” que propagava um esteticismo imaculado e, todavia, simbolizava simplesmente cultura e além disso uma moral superior. Por isso o caminho em direção à correção política (que hoje domina o cenário) foi tão curto justamente ali onde o esteticismo ficava em segundo plano. Atualmente é mais importante diante do que o artista “toma posição” do que a forma como o faz. Entraram em voga hoje aqueles artistas que assumem uma posição diante do racismo, do sexismo e da aids, surgindo assim uma relação secreta entre a censura do lado conservador e a autocensura no meio artístico. (BELTING, 2006)

Em 1987 Mapplethorpe cria a Fundação Robert Mapplethorpe, com o objetivo de promover a fotografia e obter fundos para pesquisa e luta contra a AIDS. Desde sua morte, em 1989, sua obra é motivo de diversas exposições retrospectivas ao redor do mundo, incluindo Centre Georges Pompidou, em Paris, Museu Stedelijk, em Amsterdam, Whitney Museum of American Art e Guggenheim Museum, em Nova York e a Galleria dell'Accademia em Florença, na Itália.

Vários ensaios foram publicados, livros, exposições importantes; dentre os que escreveram sobre ele poderia destacar Susan Sontag e Arthur Danto que examina a arte de Mapplethorpe dentro do contexto de sua contemporaneidade, tratando da "fronteira" entre a arte e a pornografia, considerando a alta qualidade artística das imagens de Mapplethorpe.

A relação de catálogos sobre sua obra que apresento aqui serve para dimensionar a estatura da obra de Mapplethorpe para acima das pequenas e das grandes inquisições que a sua obra tenha sofrido: Robert Mapplethorpe Photographs. Norfolk, VA: Chrysler Museum, 1978; Black Males. Amsterdam, Holland: Galerie Jurka, 1979; Robert Mapplethorpe, Amsterdam, Holland: Galerie Jurka, 1979; Creatis. Paris, France: Albert Champeau, rue du Depart, 1978; Robert Mapplethorpe. Frankfurter, Germany: Peter Weirmair, Steinernes Haus, exhibition Catalogue, 1981; Lady Lisa Lyon. Munchen, Germany: Schirmer/Mose, 1983; Robert Mapplethorpe 1970-1983. London: Institute of Contemporary Art, 1983; Robert Mapplethorpe. Milan, Italy: an Idea Books Edition, Publimedia Editrice, 1983; Certain People: A Book of Portraits. Los Angeles, CA: Twelvetree Press, 1985; Black Book. New York: St. Martin’s Press, 1986; Robert Mapplethorpe. Milan, Italy: Idea Books, 1986; Robert Mapplethorpe 1986. Berlin and Cologne, West Germany: Raab Galerie and Kickenpauseback Galerie, 1986; Robert Mapplethorpe. Tokyo, Japan: Parco Co., Ltd, 1987; Robert Mapplethorpe. New York: Bellport Press, 1987; Robert Mapplethorpe. Boston, MA: Whitney Museum of American Art, New York in Association with New York Graphic Society Books; Little Brown and Company, 1988; Robert Mapplethorpe. Philadelphia, PA: Institute of Contemporary Art, University of Pennsylvania, 1988; Robert Mapplethorpe. Ten By Ten, Munich: Schirmer/Mosel, Essays by Els Barempts, 1988 Das Portrait. Germany; Some Women. Boston, Toronto, London: Bulfinch Press/Little, Brown & Company, 1989; The Robert Mapplethorpe Collection. New York: Christie’s, October 31, 1989; Flowers Mapplethorpe. Boston, Toronto, London: Bulfinch Press/Little, Brown, & Company, 1990; Robert Mapplethorpe Early Works. New York: Robert Miller Gallery, 1991, edited by John Cheim; Becher, Mapplethorpe, Sherman. Monterrey, Mexico: Museo de Monterrey, 1992; Robert Mapplethorpe. Tokyo, Japan: Art Tower Mito and Asahi Shimbun, 1992; Mapplethorpe. Lausanne: FAE Musee D’Art Contemporain, 1992; Mapplethorpe versus Rodin. Milan: Electra, 1992; text by Germano Celant; Mapplethorpe. Louisiana, Denmark: Louisiana Museum, 1992; text by Germano Celant; Mapplethorpe. New York, NY: Random House, 1992; essay by Arthur C. Danto; Erotik in der Kunst des 20. Jahrhunderts. Koln: Benedikt Tascheri Verlag, 1992; Art & Auction. “Special Report, Let Us Know Appraise Famous Men,” November, 1993; American Made: The New Still-Life. Japan Art & Culture Center, Tokyo, Japan; Mapplethorpe: Altars. New York: Random House, 1995; Eds. Mark Holborn and Dimitri Levas; Mapplethorpe: Pistils. New York: Random House, 1996; Eds. Mark Holborn and Dimitri Levas; Pictures: Robert Mapplethorpe. Santa Fe: Arena Editions, 1999; Ed. Dimitri Levas; Promiscuous Flowers, R. Mapplethorpe & N. Araki. Tokyo: Art Life Ltd., 2001; Robert Mapplethorpe and the Classical Tradition: Photographs and Mannerist Prints. New York: Guggenheim Museum Publications, 2004; Eds. Germane Celant and Arkady Ippolitov.

[2]CARAVAGGIO, Basket of Fruit, c. 1597, Oil on canvas, 31 x 47 cm, Pinacoteca Ambrosiana, Milan.

[3]CARAVAGGIO, Sick Bacchus, c. 1593, Oil on canvas, 67 x 53 cm, Galleria Borghese, Rome

[4]As VANITAS (vaidades) são as expressões artísticas que traduzem, de maneira simbólica e num registro eloquente, sibilino, a nossa relação conflituosa com a morte. São formas artísticas históricas, datadas no tempo (e, no entanto de sentido intemporal), que nos confrontam com a maior doença coletiva da humanidade, que é a angústia que resulta da consciência aguda da mortalidade. Ver em: http://www.ipv.pt/millenium/pers13_4.htm