Referências Bibliográficas
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Flusser, Vilém Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec, 1985.
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Laso, Eduardo. Antes y Después - Comentarios sobre “Antes de la lluvia” de Milcho Manchevski [on line]. 2007. Disponível em http://www.museu.ufrgs.br/admin/artigos/arquivos/AntesdelalluviaEduardoLaso.rtf Acesso em junho de 2009.
Pérez-Reverte, Arturo. El Pintor de Batallas. Buenos Aires: Afaguara, 2006.
Sontag, Susan. Ensaios de fotografia. Rio de Janeiro: Arbor, 1981.
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Wandelli, Raquel. Durante as guerras, depois da história, antes da chuva - cinema hipertextual. In: Socine (Org.). Estudos de Cinema. São Paulo: Annablume, 2002.
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http://www.flickr.com/photos/guyrux/515208285/
http://www.futuroprofessor.com.br/governo-serra-arredondamento-de-notas-e-memorex
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http://jornalismopolitico.blogspot.com/2007/05/jos-serra-armado-e-perigoso.html
http://radicalidadedemocratica.blogspot.com/2007/05/armado-e-perigoso-governador-jos-serra.html
http://noticias.uol.com.br/uolnews/monkey/2007/05/16/ult2529u238.jhtm
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1705200712.htm
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http://www.midiasemmascara.com.br/artigo.php?sid=5809
http://www.cmnat.rn.gov.br/noticiaexterna.asp?id=556
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/blogs.asp?id_blog=3&dia=17&mes=5&ano=2007
http://cbrayton.wordpress.com/2007/05/17/public-relations-blunder-of-the-month-jose-serra/
http://www13.unopar.br/unopar/publicacao/manchete.action?m=415
Resumo
A presente comunicação aborda relações intertextuais entre o ato fotográfico, entendido no seu sentido mais amplo nas relações entre fotógrafo e cena, também as relações entre sociabilidade e circulação, e focando o fotógrafo como anunciador da primeira significação com sua presença ativa no fazer fotográfico. Abordamos a gestualidade técnica do fazer e o pensar fotográfico especificamente a partir no filme Antes da Chuva (Before the Rain, 1994, direção de Manchevski) e ao final analisamos a condição cultural da gestualidade técnica nas imagens de José Serra apontando uma arma para fotógrafos em evento público no dia 15 de maio de 2006.
José Serra e o rifle: imagem-ato
“Olha aí, ele quer matar o fotógrafo! Rarará! Não avisaram pro Serra que o fotógrafo não tem nada a ver com a feiura dele. O Serra é tão feio que nem precisa de fuzil para assustar. Só a cara já basta. Ele tem cara de urubu gripado! E com o nariz entupido! Rarará!” (José Simão, 16/05/2007)
Como você se sentiria com um FAL (Fuzil Automático Leve) belga, calibre 7.62 mm apontado para você por um governador? Mesmo que fosse uma imagem? Algumas imagens similares permeiam o mundo, algumas foram as últimas imagens de um fotógrafo ou um cineasta antes de ser baleado. Se um governador aponta uma arma dessas para um jornalista e faz o som “pá, pá, pá”, o que farão os policiais?
Philippe Dubois em seu livro O ato fotográfico (1993) anuncia logo no início que a fotografia como uma imagem-ato está inseparável de sua anunciação, ou seja, não é possível pensarmos a imagem fora do ato que a faz emergir, e nos coloca em questão do sujeito na fotografia ou, como ele diz, “o sujeito em processo”. Nesse sentido, a imagem-ato se desloca e migra para vários possíveis significados, mas devemos olhar para a imagem-ato como um processo de produção (o ato fotográfico em si ou o gesto de tomada), e seus itinerários posteriores, ou a fotografia colocada em ação.
Ao analisar a obra de Michel Snow, Authorization, Dubois coloca o leitor como parte da narrativa, preso na simultaneidade do processo. Um dispositivo que remete para o plano psicológico e íntimo de cada olhar que fica preso momentaneamente nessa narrativa. Se na obra de Snow estamos frente à nossa imagem em simultaneidade em jogo de espelhos, a imagem de Serra com o fuzil coloca a foto como um processo ou uma construção social que muda de conteúdo de acordo com o processo de imagem-ato, que sai do operador e chega até sua recepção. A existência do espelho coloca em questão o sujeito ou, como ele diz, “o sujeito em ação”, e o sujeito aqui é o leitor, que é mirado e em seguida sente-se incomodado com a face jocosa do governador, quase ouvimos a onomatopéia do som da arma sugerida pelo atirador aprendiz que apontava para a fotógrafa Vivi Zanatta, da Agência Estado, (“pá,pá, pá!”). A fotógrafa também mirou e fotografou Serra, dois dispositivos similares em ação: o fuzil e a câmera fotográfica.
Não imaginava o governador José Serra, talvez entusiasmado com a demonstração de força da polícia militar em ação comemorativa do sucesso de um resgate, atingisse a dimensão da migração de significados desse ato, mesmo entusiasmado com o poder recém-adquirido de atirador de elite. Depois de certo tempo passado sobre esse ato polêmico e a consequentes fotografias, penso que devemos voltar nosso olhar para essas imagens e analisar com distanciamento crítico os desdobramentos dessa imagem-ato como um evento fotográfico.
Em quem Serra mira? Uma pergunta que fica implícita. Nos fotógrafos, poderíamos entender como a primeira realidade, como diz Kossoy, mas quando a imagem sai do campo situacional e entra em circulação pelos meios de comunicação de massa, somos nós a quem o fuzil aponta, nós leitores e cidadãos! Como o governador do Estado mais importante do país se distrai e assume a infelicidade de uma postura agressiva e incômoda? Seria ele ingênuo para apontar uma arma direto para os fotógrafos, que também o miravam com suas câmeras? Arma contra arma, uma talvez estivesse descarregada, a outra tinha muitos projéteis imagéticos digitais. As lógicas da arma e da câmera são muito similares, uma gestualidade técnica contaminada pelo olhar oportuno em busca da caça dos dois lados do olhar.
As primeiras imagens publicadas, já no próprio dia, apontavam, sem dúvidas, que seria deslocada e ressignificada, e muito rapidamente a sociedade midiatizada lhe deu outros lugares. A imagem aparece na entrada da ocupação da reitoria em duas fotos, uma noturna e outra diurna, que foram publicadas respectivamente pela Folha de S. Paulo e pelo Estado de S. Paulo, com quase o mesmo ponto de vista. Os fotógrafos são sincrônicos nesses casos, percebem imediatamente a importância do deslocamento de imagens, são os primeiros a realimentar as múltiplas realidades que uma imagem pode ter. Para desespero do marqueteiros do governador, dificilmente essa imagem vai se desgrudar da imagem de José Serra, ainda vai ser muito lembrada e reproduzida. Mesmo assim, tentou-se minimizar o estrago. Muito se escreveu sobre a imagem e em alguns casos blogs ainda sobressaltaram a gestualidade do governador, como o blog chamado Radicalidade democrática, que altera o contexto da imagem e direciona o fuzil para outra pessoa. O autor do blog simplesmente manipula a foto de Vivi Zanata e nos esquece enquanto receptores da imagem e no campo de mira, afinal ficamos no lugar do fotógrafo e ele nos coloca no lugar do Lula! Essa tentativa de deslocamento do gesto de Serra não conseguiu quebrar o autoritarismo implícito que o próprio ato carrega em sua significação primeira.
Seguindo uma lógica de mudar o conteúdo implícito da imagem, a revista Veja publica a foto com o seguinte comentário: "José Serra brinca com uma arma diante de fotógrafos. Mas o governador não está para brincadeira quanto o assunto são as penitenciárias do Estado. Elas são regularmente revistadas por agentes especiais e os presos indisciplinados agora sofrem sanções".
Nessa legenda, o texto extrapola a imagem e a utiliza como suporte para outras coisas, presídios, revistas, agentes especiais e a seriedade do governador, mas com essa expressão torna-se difícil entender a postura como séria, afinal, com quem ele está se divertindo com essa expressão de rosto em barraca de quermesse? A revista nem ao menos se importa com o gesto, com a mira no leitor e a insanidade do ato.
Na coluna do jornalista Cláudio Humberto (18/05/2007) é dado espaço para a tentativa de mudar o contexto da imagem e algum significado além do jogo de espelhos, diz a nota com a seguinte chamada “Sob a mira de Serra”: “Ao ler nesta coluna que o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) criticou o governador de São Paulo, José Serra, por ter posado para fotógrafos com um rifle na mão, o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP) cutucou: - Será por Serra estar mirando nos aloprados do PT, apanhados com R$ 1,7 milhão, de que até agora não se sabe a origem?”
Da mesma forma, o político tenta tirar a mira de cima de nós, e colocar no plano da metáfora, do homem que controla a corrupção, mas a imagem continua se sustentando por si mesma, acima de qualquer legenda o fuzil sempre está apontado para todos nós que estamos diante da imagem. Mesmo com essas ações que tentaram dar uma leitura favorável ao governador Serra, ou seja, tentaram de qualquer forma minimizar o estrago imagético, a imagem vai percorrer o mundo digital, as ruas e as camisetas, com outros significados, para aqueles que estão sendo mirados efetivamente, aqueles que nos sentimos no lugar da fotógrafa, como um jogo de espelhos.
Algumas agências internacionais publicaram fotos do evento e tornaram a imagem conhecida no exterior, como a Reuters no dia 16 de maio, com o seguinte texto:
“Sao Paulo State Governor Jose Serra points a rifle towards photographers covering a ceremony in which he paid tribute to the GATE elite police force for their successful handling of a 56-hour hostage situation in April, in the police headquarters in Sao Paulo May 15, 2007.” (REUTERS/Daniel Mobilia - Agencia o Globo (BRAZIL)).
A capa da Folha de São Paulo do dia 16 de maio trouxe a imagem em destaque com a chamada muito instigante: “O franco-atirador”. Nessa foto percebemos que a mira não está dirigida ao fotógrafo, pois a imagem mais impactante é a foto em que Serra mira diretamente para Vivi Zanata. Aqui, Diego Padgurschi está um pouco ao lado da fotógrafa Vivi Zanata, a mira lhe passa na tangência, e o “tiro” somente lhe pega de raspão!
Essa imagem migrou para muitos lugares e, assim, cartazes, imagens e camisetas percorreram os movimentos em defesa da autonomia universitária no momento de ocupação da reitoria da USP e com funcionários, professores e alunos em greve. Até mesmo um cartaz ressignifica o “franco-atirador” da Folha e coloca uma crítica à própria UNE (União Nacional dos Estudantes), na figura de um de seus ex-presidentes, em cartaz colado na ocupação da reitoria da USP.
Algumas fotos são publicadas depois da primeira realidade e apropriadas pelo movimento social. Essa imagem de capa da Folha de S. Paulo, do dia 25 de maio, demonstra que a imagem passa a habitar as barricadas de ocupação da reitoria da USP, continuando a apontar arma para nós. O rifle é direcionado para os possíveis policiais que desocupariam o prédio.
Como podem notar, dois fotógrafos em temporalidades e de diferentes jornais, uma foto feita de dia e outra de noite e publicadas na Folha de S. Paulo e no Estado de S. Paulo, fazem uma leitura que recoloca a imagem de Serra em outro contexto, já ressignificada pelo próprio cartaz. Infelizmente, não encontrei os autores das fotografias acima, fiz uma grande busca na internet e não encontrei a autoria. A imagem deslocou-se com muita rapidez para vários contextos, e para infelicidade e amargura dos marketeiros do governador. Não nos iludamos se essa imagem voltar fortemente em futuras campanhas eleitorais, e nos dois sentidos anunciados, como um político de ação, que pega em armas para combater a violência, e como um político em ato infeliz que não dimensiona sua ação em evento público.
Até mesmo alunos do curso de Jornalismo da Universidade Norte do Paraná, que produzem um webjornal chamado ComTexto, julgam antiética a publicação das imagens, porque não contribuem para uma “cultura de paz”, ou seja, não perceberam que as fotografias de Serra com o fuzil é um evento jornalístico em si mesmo, catalisador de sentimentos e sujeito a debate sobre sua importância imagética. Por outro lado, e com muito humor, o Blog Dissidência, no dia 18 de maio, comenta a foto e o autor sugere outros usos:
“... pessoas de regime podem colocar a foto na porta da geladeira ou do armário de comida; bancos podem colocar a foto na porta de noite para assustar ladrões. De dia não, uma vez que ninguém entraria no banco para realizar saques ou depósitos; parques de diversão podem utilizar a foto dentro do Trem-Fantasma ou da Casa do Terror; maridos podem colocar a foto na porta do quarto para ficarem livres da mulher de TPM.”
Voltando ao filme Antes da chuva, o fotógrafo anuncia a crise do fotógrafo e o fim de uma visão de imparcialidade ou distanciamento, ou seja, ao fotografar estamos participando do espetáculo, somos artífices muitas vezes também da tragédia, pelo fato de eventos serem realizados para serem fotografados e darem visibilidade a vis e cruéis ações. O fotógrafo, nesse caso, mesmo ao se distanciar dessa participação, não consegue se separar do ato fotográfico de sua própria morte fotográfica. Para Vilém Flusser, o gesto de fotografar é da mesma ordem do gesto de caçador no qual aparelho e fotógrafo se confundem e se tornam uma unidade funcional inseparável (Flusser:1985:41).
Susan Sontag percorre esse mesmo caminho ao demostrar que a gestualidade técnica do ato fotográfico é similar ao ato de mirar por uma câmera, ou oriunda de uma mesma inteligência:
“Não existe guerra sem fotografia, observou o notável esteta da guerra Ernst Jünger em 1939, refinando dessa maneira a irreprimível identificação da câmera com a arma: ‘disparar’ a máquina fotográfica apontada para um tema e disparar uma arma apontada para um ser humano. Fotografar e guerrear são atividades congruentes”. (Sontag, 2003, p. 58)
Nesse sentido, fui buscar essa convergência da inteligência tecnológica e muito além do fuzil automático de Marey, muito conhecido pelos seus experimentos de estudos fisiológicos por imagens, e encontrei uma série de câmeras armas no acervo da George Eastman House, aparelhos que conjugam de forma integral essa gestualidade técnica.
Simulações que nos colocam sob mira de uma arma, como o fez o governador José Serra, em imagens de autores famosos como na conhecida foto de Willian Klein, ou nas imagens encontradas nos pertences de uma jovem de classe média da cidade de Campinas presa como assaltante a mão armada[3]. Pelo jogo entre vítima e mira, nos vemos na mira do revólver do agressivo soldado russo, participante da invasão da Tchecoslováquia em 1968, sobre a fotógrafa do filme A insustentável leveza do ser (1988, direção de Philip Kaufman, inspirado no livro de Milan Kudera). Essas imagens flutuando entre a cor e o preto & branco são o ponto de inflexão da narrativa, na qual as fotografias da jovem fotógrafa deixam de ser documentais para serem policiais, com migração de significados.
A similitude da gestualidade técnica permite que câmera e arma fiquem no mesmo lugar e de forma dramática como na foto de Ron Haviv na Guerra da Bósnia, na qual o fotógrafo compartilha o mesmo ângulo e o mesmo ponto de vista do miliciano sérvio sobre o indefeso civil bósnio que apareceu morto pouco tempo depois. A distância entre a gestualidade técnica e o ponto de vista, entre câmera e arma é muito pequena, quase nenhuma. No caso Serra, a fotógrafa Vivi Zanata foi atingida pela ação agressiva e pela onomatopéia “jocosa” do governador, mas não se intimidou e retornou o gesto técnico, conseguiu caçar a expressão insana do franco-atirador e felizmente sobreviveu! Entre o fuzil e a câmera ficamos somente nós e a imagem que faz a mediação do evento e, de certa forma, quase colocamos nossas mãos para cima em ato de misericórdia como a triste vítima de Ron Haviv.
[3] Ana Paula Jorge Souza, de 22 anos, estudante de Direito e que aparecia em colunas sociais da cidade, foi presa em março de 2007 e condenada por assalto a uma casa lotérica de Campinas, junto com seu namorado Raoni Renzo, de longa ficha criminal.