A fotografia contemporânea integra um amplo cenário de miscigenações e mediações[1] em que as questões apresentadas pelas imagens parecem indicar a criação de um regime de imagem com novas formulações e experiências que, sob uma perspectiva purista, é proponente de indefinições e inseguranças em relação ao papel da fotografia. Os principais questionamentos sobre o estatuto da fotografia na contemporaneidade parecem caminhar menos na direção das especificidades e do purismo fotográfico e mais na direção das hibridizações dos dispositivos imagéticos e da experiência visual. As novas modalidades da fotografia apresentadas no contexto das novas mídias, por exemplo, vêm promovendo uma reorganização não apenas na própria essência do que foi instituído como o fotográfico, mas também na relação do observador com a imagem.
A proposta aqui é conduzir uma investigação sobre a fotografia contemporânea em sua relação com as novas mídias, a partir da noção de dispositivo. Trata-se de pensar o que se dá quando o dispositivo é colocado em evidência e passa a funcionar como um ativador capaz de suscitar acontecimentos imprevisíveis e incompossíveis, e quando a imagem torna-se o próprio lugar de uma experiência da ordem do virtual. Nota-se que, por um lado, a imagem parece nunca se tornar objeto, nunca se fixar e, por outro, o sujeito parece estar sempre em processo.
É nesse sentido que muitas das produções imagéticas a partir dos anos 90 parecem ser objetos de estudo privilegiados para pensarmos o papel da fotografia na arte contemporânea. Por um lado, são dispositivos que geram um desequilíbrio nos modelos pré-concebidos entre obra e observador, imagem e representação, e se apresentam como linhas de fuga que permitem novas subjetividades; por outro lado, são dispositivos que nos permitem mergulhar numa virtualidade em que as imagens fabricadas tornam-se híbridas e transitórias e na qual somos forçados a redimensionar valores estéticos em vista não do reconhecimento, mas da própria experiência imagética.
Diferentes agenciamentos resultam desse cruzamento da fotografia com as mídias digitais, de modo a possibilitar experiências que desafiam concepções anteriormente instituídas sobre a habitual relação entre sujeito e mundo. Na medida em que o exterior e o interior, sujeito e objeto, natural e artificial se confundem através de uma interconexidade, nos afastamos de definições precisas e mergulhamos no campo da multiplicidade, da transitoriedade e do acaso. A imagem parece transpor os limites da representação para se estabelecer como um processo capaz de produzir diferença. Nesse contexto, pensamos os dispositivos como produtores de subjetividades, sendo estas fluidas e processuais, que se apresentam como sintomas dessa nova relação com as imagens na contemporaneidade.
As freqüentes concepções e utilizações da noção de dispositivo indicam a necessidade de levarmos em conta a complexidade do seu campo teórico. A complicação estaria exatamente nesta dupla abordagem do termo: uma abordagem referente aos dispositivos enquanto técnicas e estratégias de produção de imagens e uma abordagem conceitual que demarca um vasto e complexo campo teórico. O dispositivo cuja concepção é adotada neste trabalho não corresponde apenas a um sistema técnico, ele propõe estratégias, produz efeitos, direciona e estrutura as experiências, apresenta diferentes instâncias enunciativas e figurativas e tem múltiplas entradas (DUGUET, AM. 2002: p18 ). De acordo com André Parente, um dispositivo é ao mesmo tempo um campo de forças e de relações de elementos heterogêneos - arquitetônicos, discursivos e afetivos[2] - que nos afasta de dicotomias presentes na base do pensamento sobre a representação.
Partimos da premissa de que os dispositivos imagéticos na atualidade são produtores de uma experiência que convoca o corpo, tanto em sua qualidade sensórea quanto motora, como elemento fundamental na relação dispositivo e imagem. A exploração do dispositivo prescinde de um corpo, que no seu percurso é o que vai constituir a obra, fazendo da imagem o lugar de uma experiência que abre caminho para um diálogo com outras mídias. Nessas circunstâncias, a fotografia se abre ao múltiplo, produz atravessamentos e integra um contexto de virtualidades.
Cada vez mais, a arte vem construindo dispositivos que privilegiam a imagem como o lugar das experiências, no qual o observador é convocado a participar de modo a evidenciar que não há obra independente de uma experiência. Não se trata, no entanto, de pensar em uma “experiência vivida”, passada, mas da experiência como um devir que é também imagem e que se dá no processo de interação entre dispositivo e observador. Assim como não podemos falar em literatura sem um leitor para ler, também não podemos pensar em uma arte sem um observador para experimentar. A imagem parece perder o estatuto de autonomia dentro da história da arte e passa a privilegiar a relação que pode ser estabelecida com os dispositivos a partir das experiências dos observadores.
[1] De acordo com Bruno Latour a mediação é uma prática produtora de híbridos integrante do projeto de modernidade. Para o autor, o meio não é um espaço intermediário entre dois pólos, mas um lugar de invenção. Ver : “Jamais fomos modernos” Op.cit.
[2] Ver “Cinema do dispositivo”, de André Parente. (no prelo).