Dispositivos e subjetividades
Podemos aferir que um mesmo dispositivo é capaz de desempenhar diferentes papéis de acordo com o momento histórico, como, por exemplo, o dispositivo da camera obscura que até o século XVIII representou um modelo de visualidade clássico o qual privilegiava uma subjetividade interiorizada e determinista e no século XIX passa a representar um modelo de visão baseado nas incertezas do corpo. Isso significa dizer que um dispositivo pode sobreviver ao tempo, mas não sem se adaptar aos regimes de visão e de subjetividade de cada época. A pluralidade de dispositivos na atualidade constitui um campo aberto de possibilidades e experimentações, e estas são capazes de produzir transformações na subjetividade humana. Trata-se de pensar novos modos de produção de subjetividade a partir dos dispositivos que integram a fotografia ao contexto das Novas Mídias. Para isso, propomos um rápido recuo ao século XIX, quando a relação entre imagem e corpo torna-se fundamental na construção de uma subjetividade moderna.
Até o século XIX, acreditava-se que o modelo de visão humana era análogo ao da camera obscura. Configurando uma identidade extremamente discursiva e determinista em relação ao mundo, a camera obscura definia a posição interiorizada de um observador em relação ao mundo exterior. O modelo de subjetivação no mundo clássico parece ter encontrado na câmera escura uma excelente metáfora para a constituição de um sujeito racional que tem o conhecimento como a verdade. A modernidade marcaria essa ruptura com a visão racional e estática da câmera escura. A verdade é então relativizada e o corpo surge como instrumento essencial para a compreensão do real. Talvez a maior descoberta nesse campo tenha sido a de que o corpo humano é produtor de diferenças no próprio funcionamento da visão. A visão torna-se não apenas uma visão encarnada, mas também múltipla e caótica.
Ao longo do século XIX, ao mesmo tempo em que podemos estabelecer uma relação entre as transformações sofridas pelo modelo de subjetividade e o desenvolvimento dos dispositivos de visão, acentuam-se também os estudos e o desenvolvimento das chamadas geometrias não euclidianas e do conceito de quarta dimensão temporal. São estratégias que se apresentam como alternativas à supremacia monocular instaurada pelo modelo perspectivista renascentista que posicionou o sujeito como figura central, e que privilegiam a multiplicidade de pontos de vista, o descentramento do sujeito e uma visão sempre parcial do mundo.
Sob a perspectiva de Gilles Deleuze, a melhor forma de entender os sujeitos seria como agenciamentos que se metamorfoseiam à medida que expandem suas conexões. Partindo de conceituações prévias apontadas por Foucault[6], Deleuze desenvolve seu pensamento a partir da noção de processos de subjetivação. Não há aqui um sujeito prévio, e sim processos de subjetivação. Para o autor, “a subjetivação é o processo pelo qual os indivíduos e as coletividades se constituem como sujeitos, ou seja, só valem na medida em que resistem e escapam tanto aos poderes quanto aos saberes constituídos.” (PARENTE, A. 2004: p96). Trata-se de novas formas de subjetividade, de subjetividades múltiplas, fluidas, heterogêneas, de uma subjetividade que já não está previamente estabelecida, mas que se dá através de uma relação entre sujeito e dispositivo.
Podemos aferir que a partir das experiências produzidas por e nos dispositivos imagéticos que integram diferentes mídias, como é o caso das obras de Jeffrey Shaw, as subjetividades se apresentam de forma sempre relacional. Não há sujeito prévio, nem imagem determinada. O que há é um processo incessante de subjetivação, que se dá a partir dos deslocamentos dos corpos e das imagens. Pura experiência.
[6] A desconstrução das noções tradicionais de sujeito e corpo foi amplamente desenvolvida por Foucault, ao propor um sujeito que é processual e que não tem essência ou natureza. Ver: “Um Retrato de Foucault”. Op.Cit.