Gênesis: Arte transgênica via Internet 1 / 4

Fábio Oliveira Nunes [1]

Introdução

Nos anos 90, a existência humana passa a tomar um novo sentido: a extensa divulgação da pesquisa internacional do Genoma Humano[2] passa a alimentar um novo imaginário, em que coabitam a esperança de grandes avanços na medicina e a possibilidade de leitura e manipulação irrestrita de qualquer característica humana. O desvendamento do código genético humano significa reduzir um organismo humano em uma seqüência textual codificada, ou ainda, numa espécie de mecanismo de informação, conforme HARAWAY (1994):

Nas biologias modernas, a tradução do mundo para um problema de codificação pode ser ilustrada através da genética molecular, da ecologia, da teoria da evolução biológica e da imunobiologia. O organismo foi traduzido em problemas de codificação genética e interpretação. A biotecnologia, uma tecnologia da escritura, informa amplamente a investigação. Num certo sentido, os organismos deixaram de existir enquanto objetos de conhecimento dando lugar a componentes bióticos, isto é, tipos especiais de mecanismos processadores de informação.

Desse modo, dentro da nossa contemporaneidade temos a intersecção da codificação digital e da codificação genética dentro de um mesmo conceito: a informação. Assim, com os olhos na cibernética determina GARCIA (2001):

A informação é uma espécie de vetor que vai permitir que se estabeleça um substrato comum, que perpassa a matéria física, a matéria viva e a máquina. Vai haver um terreno comum que vai perpassando a vida, o físico e a máquina, e esse terreno comum vai ser trabalhado através de uma linguagem comum, coisa que não existia desde o tempo de Newton. Não existia uma possibilidade de encontrar qualquer explicação ou interpretação do real que cobrisse todo o campo objetivo e agora, a partir da cibernética, isso é possível, graças à constituição da noção de informação, o substrato comum a partir do qual se pode entender o objeto técnico, o ser vivo e o ser inanimado.

Dentro dessas questões de hibridismo informacional - a quebra da barreira entre o natural e o artificial - encontra-se a poética de artistas como Eduardo Kac, pesquisador da arte transgênica, que transita entre a biotecnologia e as redes computacionais. Para conhecer um pouco mais desse universo, veremos alguns trabalhos e, mais a fundo, a instalação Gênesis, apresentada em 2000 no Instituto Itaú Cultural em São Paulo.

[1] Professor do Instituto de Artes da Unesp, Doutorando em Artes na USP e Mestre em Multimeios na Unicamp. Web site: http://webartenobrasil.vila.bol.com.br

[2] Mais informações sobre a pesquisa do Projeto Genoma Humano podem ser acessadas em http://genome.gov