Gênesis: Arte transgênica via Internet 4 / 4
Fábio Oliveira Nunes
Gênesis
Uma segunda incursão do artista pela arte transgênica deu-se em Gênesis, apresentado inicialmente em 1999, na Áustria, no evento Ars Eletronica e depois no ano 2000, no Itaú Cultural, em São Paulo.

imagem3- Visão do espaço expositivo em Gênesis
O trabalho constitui-se em uma instalação que utiliza a rede como canal para interferências. A instalação Gênesis é composta por uma sala de paredes escuras com uma projeção de vídeo. Na primeira parede, uma transcrição de um pequeno trecho do antigo testamento onde é possível entender uma possível "autorização" divina para as intervenções da atual engenharia genética: "Deixe que o homem domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos que se movem na terra" (Gênesis 1, 28). Em outra parede, a transcrição do texto em inglês para o código Morse e em uma terceira, a tradução do código Morse para o código genético DNA. Cria-se aqui um gene sintético, advindo do texto bíblico. O crítico de arte Arlindo Machado, um dos curadores da exposição, descreve o funcionamento dessa instalação:
O gene sintético contendo o texto bíblico é, em seguida, transformado em plasmídeo (anel de DNA extracromossômico capaz de auto-replicação) e então introjetado numa bactéria E. coli, que o reproduzirá às próximas gerações. As bactérias contendo o gene Genesis apresentam a propriedade de fluorescência ciã (azul esverdeado) quando expostas à radiação ultravioleta e coabitam uma placa de Petri com outra colônia de bactérias, não transformadas pelo gene Genesis e dotadas da propriedade de fluorescência amarela quando submetidas à mesma radiação ultravioleta. À medida que as bactérias vão entrando em contato umas com as outras, um processo de transferência conjugal de plasmídeos pode acontecer, produzindo as seguintes alterações cromáticas: 1) se as bactérias ciãs doarem seu plasmídeo às amarelas (ou vice-versa), teremos o surgimento de bactérias verdes; 2) se nenhuma doação acontecer, as cores individuais serão preservadas; 3) se as bactérias perderem seus respectivos plasmídeos, elas se tornam ocres.
O processo de mutação cromática das bactérias pode se dar naturalmente ou pode ser também ativado por decisão humana, por meio da radiação ultravioleta, que acelera a taxa de mutação. No espaço da galeria onde ocorre a experiência, tanto os visitantes locais como os visitantes remotos (que participam do evento pela Web) podem ativar ou desativar a radiação ultravioleta, interferindo portanto no processo de mutação e ao mesmo tempo possibilitando visualizar o estágio atual das combinações de ciã, amarelo, verde e ocre. [10]
O ato mais simples da atual interface computacional - o clique - é o que diretamente altera as propriedades vitais das bactérias expostas a radiação ultravioleta. E sua simplicidade destoa de toda a idéia de complexidade que temos quando pensamos numa intervenção genética. É um ato simples, assim como um sopro.
Na Internet, isoladamente a dimensão do trabalho tornava-se outra. Ainda que houvesse um substrato textual eficiente - como aconteceu no caso do Itaú Cultural - a assimilação do trabalho dava-se muito mais numa tríade homem-máquina-bactérias. Ao adentrar o espaço virtual do trabalho, o visitante tinha diante de si uma pequena tela com vídeo em streaming[11], com imagens em tempo real, mostrando um círculo redondo com pequenos pontos verdes, cianos e ocres. A ação do visitante era pontual no que diz respeito a ele também ser um ativo modificador de matéria viva. O ato de manipulação genética - antes privilégio de poucos - passa a ser intuitivo, sucinto, simples.
No ato de simplicidade do clique, surge-me a idéia de que a acessibilidade a essa nova dimensão da informação - a genética - pode estar cada vez mais perto da pessoa comum. Assim como ocorreu com o digital, teremos em breve ferramentas que facilitem o acesso de todos ao domínio dessa nova forma de informação?
No domínio das codificações, Gênesis constitui-se em um grande exercício de tradução, didático para visualizar e relacionar as fragmentações mais comuns na cultura ocidental. Inicia-se na palavra, dotada de significado, que é fragmentada em letras para, em seguida, ser traduzida para o código Morse - um antigo antecessor dos atuais meios de comunicação à distância, uma das origens da tecnologia de comunicação moderna. Depois, o artista lança mão de uma inteligente licença poética: estabelece uma chave léxica simples para traduzir do código Morse para o código genético e assim estabelecer um caminho que independe da significação: parte dos fragmentos, das letras, e não do texto em si, enquanto significação, para estabelecer o DNA dos plasmídeos. A atenção de todas as etapas é mantida no fragmento e, conseqüentemente, na possibilidade de recombinação desses fragmentos. A respeito desse ponto, as afirmações de GARCIA (2001) são interessantes para estabelecermos uma possível leitura do trabalho sobre esse aspecto:
Não há mais, praticamente, trabalho que não seja afetado, ou cuja maneira de ocorrer não tenha sido profundamente alterada pela cibernetização, pela informação digital. No campo do conhecimento também há uma maneira nova de se pensar, de produzir conhecimentos, que é através do que algumas pessoas chamam de reprogramação, reordenação, reprocessamento, recombinação. Cada vez mais a própria cultura é concebida como recombinação. Esse substrato comum, essa informação, que faz parte do ser vivo, do ser inanimado e também do objeto técnico, é caracterizado por aquilo que um filósofo francês chamou de uma maneira muito interessante de finito ilimitado. Ele entende por finito ilimitado um pequeno número de elementos ou de componentes que permitem uma combinação e uma recombinação ilimitada. Por exemplo, na questão digital você tem zero e um, mas com zero e um você consegue justamente fazer, através de combinações e recombinações, através da digitalização, mudanças na maneira como se operam as coisas. Por outro lado, na informação genética você tem quatro elementos, que são as quatro letras a partir das quais se constitui, o código genético.
A recombinação da informação - colocando num mesmo substrato texto, código Morse e DNA - torna-se evidente numa das partes mais surpreendentes do trabalho: a inversão do processo, em que o artista, através do DNA das bactérias já modificado, passa o código genético para Morse e em seguida para texto novamente. O resultado é um texto corrompido, mas com capacidades de estabelecer sentido:
Let aan have dominion over the fish of the sea and over the fowl of the air and over every living thing that ioves ua eon the earth.
Diante desse substrato comum, a informação, Gênesis e outros trabalhos de arte transgênica demonstram que a arte pode caminhar no sentido de questionar/refletir uma nova condição biológica que há muito tempo já não é um domínio exclusivo da ficção. Ao tornar-se tão manipulável quando os caracteres binários, a informação genética tende a cada vez mais ser uma nova linguagem de expressão, de agregação de sentidos, de sensibilidade. Mas se há uma espera no sentido de algum tipo de postura crítica, denotando caminhos alternativos para essa inevitável textualização da vida, será que devemos realmente assumir as práticas em ascensão, as mesmas práticas passíveis de crítica? É um paradoxo: a arte transgênica incomoda e, ao mesmo tempo, impressiona.
[10] Texto disponível em http://www.itaucultural.org.br/exposicoes/trabalho_do_artista/kak/genesis00.htm
[11] Formato de vídeo compactado para a Internet.