Gênesis: Arte transgênica via Internet 3 / 4

Fábio Oliveira Nunes

Arte transgênica

Desse trabalho para o início da arte transgênica foi um curto período de tempo. Em 1998, surge o projeto GFP-K9, em que GFP é a abreviatura de Green Fluorescent Protein e K-9 é referencial ao adjetivo inglês canino (canine). Trata-se da inclusão no DNA de um embrião canino de uma proteína de medusa (Aequorea victoria) que tornaria o cão fluorescente - emanando luz verde - ao contato com certas condições do ambiente. Para justificar sua criação, o artista estabelece o cão transgênico como uma nova etapa na intervenção humana na existência canina: desde 15.000 anos atrás, o homem vem selecionando lobos portadores de características imaturas (processo evolutivo conhecido como neotenia) e mais modernamente através do controle de acasalamentos (MACHADO, 2001) para criar um "ideário canino".

Mais tarde, Kac consegue realizar um trabalho equivalente ao GFP-K9: o GFP Bunny. Seguindo os mesmos procedimentos do projeto anterior, uma coelhinha albina torna-se fluorescente ao encontrar-se em um ambiente com uma determinada iluminação (precisa-se de um tipo de luz azul). Depois de nascida, o próximo passo seria a socialização da coelhinha: Kac pretendia levá-la para morar com sua família. Mas o laboratório francês, que o auxiliou na execução do projeto, simplesmente impediu sua retirada, alegando que o artista não teria condições de cuidar do animal transgênico. O artista, por sua vez, vem desenvolvendo várias manifestações em prol da "Alba livre", como forma de mobilizar a opinião pública. No seu site[8], inclusive, é possível enviar e acompanhar inúmeras mensagens em prol da libertação de Alba. De qualquer forma, uma considerável discussão - envolvendo não só a sociedade científica - foi formada diante desse fato.


imagem2-Coelhinha transgênica: Alba

Algumas considerações de Kac sobre a arte transgênica:

Eu proponho o uso da engenharia genética para transferir gens sintéticos para micro organismos ou material genético de uma espécie para a outra com o objetivo de criar organismos vivos únicos e originais. A engenharia genética permite ao artista criar novas formas de vida animal e vegetal. A natureza deste tipo de arte se define não apenas pelo nascimento de uma nova planta ou animal, mas pela qualidade da relação que se estabelece entre o artista, o público e o organismo transgênico. Trabalhos de arte transgênica serão levados pelo público para casa para serem plantados no jardim ou criados como animais domésticos. Não pode existir arte transgênica sem um firme compromisso e responsabilidade com a nova forma de vida criada.[9]

[8] Site de Eduardo Kac: http://www.ekac.org .

[9] Trecho da entrevista de Eduardo Kac a Karla Mourão para a revista X news, ano I, número 6, outubro de 1999. Disponível no site do artista em http://www.ekac.org/kacxnews.html .