Foto-grafias impossíveis: O desafio das imagens fantasmas - 1 / 3

Victa de Carvalho *

Diversidades da imagem

A questão que se apresenta neste artigo diz respeito às mudanças em relação ao modelo de visualidade que a fotografia encarnou ao longo da modernidade e à transgressão de seus mais importantes aspectos como prática de representação a partir da holografia. O objetivo aqui é promover um diálogo entre a fotografia e a estereoscopia, como modelos para se pensar o regime de subjetividade moderno, e a invenção das práticas holográficas, na medida em que apresentam um contundente questionamento das formas convencionais de produção e percepção visual.

Diante da proliferação e da multiplicação dos mais diversos modos de ser da imagem, principalmente a partir do avanço da informática e das mídias eletrônicas nos últimos anos, percebemos a necessidade de reavaliar conceitos e referenciais anteriormente instituídos ao longo de nossa história visual. A generalização cada vez maior e a diversificação destas imagens contemporâneas nos conduzem a uma investigação acerca de uma nova visualidade que se apresenta e questiona as relações entre observador e representação.

Até o século XIX, acreditava-se que o modelo de visão humano era análogo ao da câmera obscura. Configurando uma identidade extremamente discursiva e determinista em relação ao mundo, a câmera obscura definia a posição interiorizada de um observador em relação ao mundo exterior. Esse paradigma foi dominante por um longo período histórico.

Estudos acerca da visão humana seguiram-se durante todo o século XIX. Descobriu-se que o corpo humano ele mesmo produzia diferenças no modo do olhar de acordo com seu funcionamento. A fisiologia ganhou espaço e diversos cientistas passaram a estudar o corpo humano e seu modo particular de perceber visualmente. "A percepção visual, por exemplo, é inseparável do movimento muscular do olho e do esforço físico envolvido na busca de foco em um objeto ou simplesmente mantendo as pálpebras dos olhos abertas."[1]

Seguindo as pistas de Jonathan Crary, o modelo de subjetivação no mundo clássico encontra na câmera escura uma metáfora para a constituição de um sujeito racional que tem o conhecimento como verdade. A modernidade marcaria essa ruptura com a visão racional e estática da câmera escura. A verdade é então relativizada e o corpo surge como instrumento essencial para a compreensão do real.

O mecanismo de visão binocular era um fenômeno conhecido desde a antigüidade, mas apenas depois dos anos 1830 é que ele tornou-se uma questão fundamental para a ciência. Identificar um corpo que fabrica imagens diferentes em cada um dos olhos preocupava os pesquisadores na medida em que não se conhecia ainda o método utilizado pelo corpo para reunir essas imagens e formar uma única imagem tridimensional. Jonathan Crary adverte que a invenção do estereoscópio foi parte da mesma reorganização do observador, baseada na abstração e na reconstrução da experiência visual, que inaugurou um modelo de visão subjetiva no século XIX.

Se a fotografia preserva as mesmas relações monoculares da perspectiva renascentista e do espaço euclidiano, a estereoscopia propõe um afastamento desse modelo de visualidade que se organiza a partir de um ponto de vista único e que determina o sentido para o observador. Ainda assim, a imagem estereoscópica promove apenas uma ilusão de profundidade que é sintetizada de forma subjetiva. A proximidade e a imobilidade do observador são condições irrestritas para a experiência tridimensional estereoscópica.

A estereoscopia é a maneira mais antiga de se ver imagens em três dimensões. A técnica parte do modelo binocular e produz imagens fotográficas de uma cena com a mesma diferença axial com que os nossos olhos direito e esquerdo captam as imagens.

Existem diversas maneiras de fazer com que essas imagens tornem-se apenas uma e sejam vistas de forma tridimensional. A forma mais comum de visualizar uma imagem estereoscópica é por meio de papel celofane, os chamados "óculos 3D", em que de um lado a lente é azul e do outro vermelho. Outras técnicas mais avançadas já existem, como as lentes transparentes que filtram determinados comprimentos de onda e outras que fabricam imagens estereoscópicas coloridas.

De acordo com José Inácio Parente, autor do livro A estereoscopia no Brasil, a estereoscopia teria sido vítima de sua própria "magia", já que sua possibilidade de tridimensionalidade era apesar de tudo apenas um artifício. Para o autor, esse teria sido o motivo principal, responsável pela sua decadência. Presa às condições limitadas de observação, a estereoscopia perdeu terreno para a fotografia que, por ser bidimensional, possuía maior mobilidade para se enquadrar em qualquer tamanho ou formato, o que facilitou sua veiculação em qualquer tipo de mídia.

"O que parecia uma limitação a libertou (a fotografia) para ocupar lugar nas publicações e no fotojornalismo, nos álbuns de família e na propaganda, no cinema e na televisão, povoando o planeta através da mídia, transformando-o em um mundo de imagens"[2]

De uma outra forma, a fotografia também era capaz de representar a tridimensionalidade, mas apenas na medida em que o cérebro a codificava em 3D. No entanto, qualquer que seja a posição do observador frente a uma fotografia, o ponto de vista do fotógrafo mantém-se o mesmo, estático. Tanto as práticas fotográficas quanto a estereoscopia utilizam-se da mesma organização espacial em perspectiva e permanecem análogas ao funcionamento do próprio corpo.

Percebemos que, ao longo do século XIX, ao mesmo tempo em que podemos estabelecer uma relação entre as transformações sofridas pelo modelo de subjetividade e o desenvolvimento dos dispositivos de visão, acentuam-se também os estudos e o desenvolvimento das chamadas geometrias não euclidianas e do conceito de quarta dimensão. Tais descobertas abriram caminhos para novas subjetividades e influenciaram diversos artistas modernos.

* Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Doutoranda.

[1]Crary,Jonathan. 1999, p 72

[2]Ibidem, p 20