Foto-grafias impossíveis: O desafio das imagens fantasmas - 3 / 3

Victa de Carvalho

Impossibilidades fotográficas e as promessas holoartísticas

É interessante perceber que o dispositivo fotográfico continua sendo repensado e adotado por diversos artistas não mais a partir de um questionamento a respeito das bases essenciais e puristas da fotografia, mas da sua utilização como ferramenta na construção de um conceito de arte que se afasta cada vez mais da velha questão da aura desenvolvida por Walter Benjamim. A Pós-fotografia é caracterizada por André Rouillé como material da arte contemporânea, tendo diversos artistas conquistado, a partir dos anos 80, uma liberdade em relação à ética artística e fotográfica.

A holografia viabiliza conceitos outrora limitados ao universo das idéias, possibilitando novas oportunidades criativas para o campo artístico. Ela nos insere num contexto multidisciplinar, em que novos paradigmas visuais e intelectuais se apresentam e os tradicionais conceitos de arte encontram-se coagidos frente a tantas transformações impostas pelo contemporâneo. "Com um holograma é possível virar o espaço do avesso, cortá-lo, gravar a ausência de objetos, tornar o invisível visível, e fazer o sólido ficar transparente de formas paradoxais impossíveis para outras mídias."[6]

Diante deste cenário em que todas as possibilidades coabitam de forma a legitimar as dualidades outrora abandonadas, a "HoloArte" incentivou o regime de cooperação entre técnicos e artistas previamente adotado apenas pelos artistas desbravadores dos campos da tecnologia. A arte holográfica expõe uma síntese do trabalho científico e artístico, na qual os processos criativos requerem parcerias de cientistas e artistas na tentativa de transpor o regime de dualidades que direcionou a trajetória do ocidente. É importante ressaltar, no entanto, que arte e ciência sempre caminharam juntas, contribuindo de forma indiscutível para o surgimento de novas subjetividades.

A chamada Holopoesia[7] trabalha com a imaterialidade da palavra e encontra em Eduardo Kac profunda e larga representatividade. Um holopoema, nos diz Kac, não consiste simplesmente num poema em versos transformado em holografia. A holopoesia caracteriza-se por uma descontinuidade no processo de leitura, uma não-linearidade da cognição através da variação dos fragmentos da obra vistos pelo observador enquanto este se movimenta.

O observador deve, portanto, assumir uma postura móvel e dinâmica para se movimentar ao redor do texto e encontrar seus diversos significados enquanto as palavras se apresentam e depois desaparecem no espaço. Um holopoema deve ser lido, de acordo com Eduardo Kac, "como um movimento irregular e descontínuo, e que vai mudar na medida em que é visto sob diferentes perspectivas."[8]

A chamada poesia holográfica ou holopoesia vem intensificando o diálogo da poesia com outras disciplinas como a psicologia da percepção, a física quântica, a geometria fractal, a filosofia holística, buscando novas relações entre os códigos verbal e visual. As novas interfaces constituídas a partir da cultura tecnológica, sem dúvida, contribuíram para uma nova forma de percepção visual. "A holopoesia corresponde diretamente à experiência contemporânea em sua imaterialidade, não-linearidade e fluidez" nos diz Eduardo Kac.

A geometria fractal vem sendo amplamente utilizada por artistas interessados na pluridimensionalidade e na mutabilidade, capazes de dissolver as fronteiras formais entre suportes e linguagens. Para que se configure um fractal é preciso estar entre a dimensão dada e a dimensão imediatamente seguinte ou anterior. Fractais são sistemas "auto-semelhantes" e complexos, pois são gerados por alguns sistemas caóticos. Aplicando a geometria fractal à holografia, temos como resultado imagens holográficas que não têm exatamente três dimensões.

Na arte, Eduardo Kac definiu um fractal como algo que está entre o signo verbal e o signo visual; algo que ora é um texto, ora é uma imagem, e que pode transitar livremente entre os suportes enquanto assume diferentes formas, demonstrando toda a complexidade desse trânsito.

No holopoema Holo/Olho, as duas palavras, olho e holo, foram holografadas várias vezes e depois retalhadas, para em seguida serem remontadas formando uma nova unidade visual pseudoscópica[9]. Cada fragmento é remontado de forma a propiciar uma leitura cíclica das palavras olho e holo através de uma combinatória entre estas palavras que só acontece espacialmente. Esse trabalho, Holo/Olho, foi apresentado no Salão Nacional de Artes Plásticas no MAM do Rio de Janeiro, em 1984, configurando a primeira holopoesia exposta no Brasil.

Talvez o maior engano acerca das possibilidades da holografia seja a sua associação a uma técnica ilusionista, uma simples reprodução fotográfica em três dimensões. Eduardo Kac não percebe a holografia apenas como um meio tridimensional e nem o considera como sua grande potencialidade. Apesar de ser popularmente reconhecida por suas características espaciais, ou seja, suas três dimensões, é no vetor temporal que o artista encontra o grande potencial artístico da holografia. É na quarta dimensão imaterial que se encontram os verdadeiros paradigmas holográficos.

Dependendo de como ele é visto, o holopoema muda suas características. Há uma descontinuidade sintática em todos os trabalhos de arte holográfica verificada na medida em que a própria holografia tem como potencialidade guardar informação de forma não linear. Por isso, é impossível ter uma visão total da obra, simplesmente porque ela não existe. É preciso navegar nesse tempo e espaço e experimentar individualmente a obra.

Em 1987, com o apoio técnico de Ormeu Botelho, Eduardo Kac elabora seu primeiro holopoema digital sintetizado por um software fractal, dispensando as imagens produzidas a partir de objetos reais. O holopoema Quando? inaugura o conceito de "signo fluido" desenvolvido pelo artista, apresentando o que não corresponde nem a uma palavra nem a uma imagem, mas a algo em permanente mutação.

O texto foi criado de forma a permitir que qualquer pessoa pudesse vê-lo de qualquer ângulo, no sentido horário ou não. No sentido horário lê-se A LUZ / ILUDE / A LENTE / LENTA / MENTE; enquanto no sentido anti-horário temos: A LENTE / ILUDE / A LUZ / MENTE / LENTA. As palavras nunca aparecem ao mesmo tempo; na medida em que o fractal gira em torno do holograma as palavras tornam-se visíveis uma a uma enfatizando o caráter temporal da imagem holográfica, ou seja, a sua quarta dimensão.

Em seu trabalho, Eduardo Kac afasta-se cada vez mais das dualidades que regem nossa cultura, com o intuito de criar uma nova gramática que possibilite o trânsito entre essas dicotomias. Uma vez nessa zona de transição, novos significados surgem entre as imagens, as palavras, entre o tempo e o espaço.

O diálogo proposto pelo artigo busca identificar não apenas as continuidades de um processo histórico, o que permanece e faz parte do regime escópico contemporâneo, mas também identificar suas descontinuidades internas que colaboraram para o surgimento de experiências de outra natureza. Se a fotografia incorporou as ansiedades e as ambigüidades modernas na medida em que reproduziu e multiplicou os símbolos da sociedade industrial crescente, a ponto de promover uma indistinção entre a realidade e suas formas de representação, percebemos que os genes para sua própria relativização estiveram presentes ao longo de toda a modernidade, e inspiraram muitos dos trabalhos de vanguarda. A experiência holográfica deve ser aqui compreendida como uma tensão que teria apontado para a reformulação da linguagem e para a criação de novas possibilidades visuais foto-gráficas tridimensionais.

A holografia anuncia a libertação da câmera como aparelho essencial para a inscrição da imagem. Essa estratégia se apresenta como alternativa à supremacia monocular instaurada pelo modelo perspectivista renascentista que posicionou o sujeito como figura central. Apontamos agora para a multiplicidade de pontos de vista, para um descentramento do sujeito, e para uma visão sempre parcial do mundo.

A arte holográfica parece ocupar um lugar privilegiado para observarmos algumas características das visualidades contemporâneas que se apresentam sob o domínio do virtual, em que as imagens fabricadas tornam-se híbridas e transitórias.

[6]Benyon, Margareth. "Holography as Art", p1

[7]Termo criado por Eduardo Kac em 1983.

[8]Eduardo Kac in: "Holopoetry and Fractal" , p2.

[9]Imagem pseudoscópica é o avesso da imagem que reproduz o objeto assim como foi holografado.