Foto-grafias impossíveis: O desafio das imagens fantasmas - 2 / 3
Victa de Carvalho
O paradigma holográfico
Diversas técnicas vêm sendo utilizadas na tentativa de produzir imagens em três dimensões na fotografia e no cinema, em que objetos possam ser observados sob diferentes ângulos de visão. Enquanto a estereoscopia, a fotografia e o cinema existem de forma análoga[3] ao nosso sistema óptico, outras tecnologias, como a holografia, parecem estar reformulando os modelos de visualidade. Estudos acerca da holografia e de cinema holográfico eliminam a necessidade de um acessório mediador para a visualização em três dimensões e possibilitam outras relações espaço-temporais na imagem.
A holografia consiste numa técnica de gravação e projeção de imagens que permite a reconstrução de uma cena em três dimensões. Desta cena podemos ter uma visão espacial bastante realista, já que foi elaborada sob diversos ângulos de visão.
"A holografia é um método de fotografia sem lentes no qual o campo ondulatório da luz espalhada por um objeto é registrado numa chapa sob a forma de um padrão de interferência. Quando o registro fotográfico o holograma é exposto a um feixe de luz coerente, como um laser, o padrão ondulatório original é regenerado. Uma imagem tridimensional aparece."[4]
A palavra vem do grego holos - todo, inteiro - e graphos - sinal, escrita. Sua principal característica é conter toda a imagem codificada em cada uma de suas partes, cada pedaço da chapa contém a imagem inteira de forma condensada. Qualquer pedaço do holograma pode reconstruir a imagem inteira.
Quando reduzimos a realidade tridimensional visível por nossos olhos a apenas duas dimensões, por meio de uma fotografia, por exemplo, a reprodução dessa realidade é normalmente reconhecível por nós. Há uma correspondência biunívoca entre os objetos que vemos e os representados na fotografia. Na holografia não existe essa correspondência entre a realidade e a imagem gravada. Um holograma de uma flor, por exemplo, pode aparecer como um borrão não importando quão bela seja, até que seja novamente iluminado e reconstitua então uma flor em três dimensões.
Ao contrário do processo fotográfico no qual a imagem é feita a partir da soma de pontos do objeto que refletem mais ou menos luz e cada ponto corresponde a outro na superfície do filme, na holografia cada ponto espalha luz sobre toda a película. O que é gravado não é uma imagem, e sim um "padrão de interferência entre ondas luminosas."
As principais características da imagem holográfica são: 1. a possibilidade de cada parte reconstituir a imagem inteira, visto que o que é gravado é um padrão de interferência e não uma imagem biunívuca; 2. a diversidade de pontos de vista, pois é possível ver atrás e na frente da imagem; 3. nova relação espaço-temporal na medida em que no domínio das freqüências tudo existe simultaneamente.
A holografia supera a concepção da perspectiva linear e monocular inaugurada pela Renascença, propondo um novo modelo de visualidade. Uma análise mais cautelosa nos mostra que a grande potência dessa técnica visual não é sua característica tridimensional; ela não deve ser vista como uma fotografia aperfeiçoada. As imagens holográficas propõem um questionamento a respeito da imprecisão do olhar e da própria natureza da realidade. A holografia fomenta a indistinção entre sujeito e objeto, e por ser uma imagem fantasmagórica, um corpo imaterial que flutua no espaço, possibilita uma inédita experiência imersiva.
A imagem holográfica apresenta uma nova topologia que desestabiliza a tradicional relação entre objeto, imagem, observador. É uma imagem ao mesmo tempo real (para trás) e virtual (para frente), que ultrapassa o domínio do suporte e transborda para a realidade. No entanto, a grande potencialidade deste meio não está apenas em sua característica tridimensional, mas na possibilidade de experimentarmos uma outra temporalidade desligada dos aspectos cronológicos lineares.
A técnica holográfica levanta ainda a permanente questão do armazenamento de informação em superfícies limitadas. Se a fotografia foi considerada um grande registro da memória, a holografia mais uma vez transpõe essa dimensão fotográfica na medida em que tem enorme capacidade de armazenamento de informações. O paradigma holográfico chega aos suportes da memória na tentativa de desvendar o mistério do armazenamento desses registros no próprio corpo humano.
Durante muito tempo, cientistas acreditaram que as memórias estivessem localizadas em zonas específicas do cérebro, no entanto, estudos revelaram que mesmo tendo-se retirado uma porção de massa cerebral onde supostamente estariam as memórias, determinadas atividades não eram apagadas da mente.
"(...) as memórias são codificadas não nos neurônios, mas em padrões de impulsos nervosos de tipo cruzado em todo o cérebro, da mesma forma que a luz atravessa toda a área de um pedaço de filme contendo uma imagem holográfica."[5]