Crítica fotográfica no Boletim do Foto-Cine Clube Bandeirante, 1948-1953 ( II / II )

Vanessa Sobrino

Os documentos que trago[5], selecionei de artigos publicados no FCCB-Boletim, de 1949 e 1951. São escritos por diretores do Clube, sócios-fundadores que tiveram esse impulso da discussão pelo meio textual, sobre as práticas fotográficas que acompanhavam as novas tendências, tais como as citadas acima, por exemplo. Interessante notar que, na tentativa em teorizar um novo modelo de fotografia, esses artigos aparecem no FCCB-Boletim depois de 1948, Capas de boletins do FCCB com as seguintes fotos: A máscara e o vulto, de Ítalo Rainato; Al Di La, deGiulio Parmiani (Itália); sem título, de Francisco Albuquerque.período que acompanhou as mudanças gráficas e editoriais com a publicação de artigos adaptados e traduzidos de revistas de fotografia estrangeiras. Artigos publicados originalmente nos E.U.A. e Europa, que chamam nossa atenção por inaugurarem, na série cronológica do Boletim, uma discussão teórica sobre a natureza da fotografia, com a proposta primeira de negar ou questionar o pictorialismo, trazendo contribuições para a constituição de uma crítica fotográfica que se teorizava, de um lado, uma fotografia chamada de "moderna" e, por outro, divulgava tal modelo com base na negação da fotografia pictorial do século XIX. O pictorialismo nesses artigos é encarado como o contraponto da fotografia que se propunha como novidade, a favor de uma concepção do presente e do progresso.

A discussão sobre a intervenção de pigmentos na cópia fotográfica em laboratório foi criticada por representar uma técnica utilizada no pictorialismo para aproximar a fotografia da pintura. O fotógrafo do Circolo Photográfico Milanese, Volf Sterental[6], em artigo traduzido e publicado no FCCB- Boletim em 1949, afirmava que as excessivas intervenções manuais desfiguram a natureza da imagem fotográfica, e propunha uma intervenção subtrativa de detalhes, para a valorização de linhas essenciais e, assim, oferecer uma imediata percepção ao observador. Essa idéia teve repercussão clara e perceptível no Boletim. Posteriormente, em artigo de Jacob Polacow (Texto 1), defendia-se que o "esboço do fotógrafo é o negativo, no qual ele pode introduzir muito poucas alterações: assim, esse esboço deve apresentar o máximo esforço de perfeição." Um aspecto importante dessa fotografia "moderna" que se instaurava era a idéia de que, para ser considerada arte, deveria ser produzida mediante as potencialidades intrínsecas do processo fotográfico, em uma fotografia direta ao olhar, desvinculando-se da técnica pictorialista e se afastando dos temas sugeridos pela pintura clássica, ambas características que tiveram a conotação de distrair o observador.

 Embora a defesa da fotografa como arte não tivesse sido abandonada, a valorização da visão direta do observador e da subjetividade do fotógrafo era um aspecto fundamental para a constituição da "moderna" fotografia como linguagem. O fotógrafo húngaro Tibor de Csorgeo, em outro artigo publicado no Boletim[7], opinou, no mesmo ano (1949) em que participou do Salão Internacional de São Paulo, que a fotografia deveria provocar irrealidade ou constrangimento no observador, acostumado com imagens pictoriais, concebidas como realistas. Idéia que podemos ver repercutida no artigo de Eduardo Salvatore, na época presidente do FCCB (Texto 2): "Procura-se demonstrar que a fotografia já deixou de ser uma arte meramente representativa e copiativa, mas permite ao fotógrafo a livre interpretação e a manifestação do próprio 'eu' ".

A fotografia "moderna" para Salvatore viria romper com o imobilismo dos salões de tradição pictorialista, renovando e abrindo, em território brasileiro, às novas experimentações que aconteciam nas vanguardas européias e americanas. Aborda um modelo de fotografia que estava preso às regras dos Salões, ao qual denominou "fotografia de salão", conceito também conhecido como "fotografia artística". Nessa visão, a tradição do Salão de Fotografia, prática corrente no século XIX e começo do XX, preservaria muito da produção pictorialista, onde se expunham cenas de marinhas, paisagens com tonalidades suaves de cinza e temáticas romantizadas, privilegiando uma narrativa simbólica.

Na perspectiva de uma fotografia "moderna", Aldo de Souza e Lima, fotógrafo do Clube, como ênfase central de seu artigo publicado em dezembro de 1949 no Boletim, transcreve o texto de Masclet, um dos líderes do "Grupo XV", da França, sobre a repercussão das fotografias do FCCB no Salão de Paris. Na comparação entre os Salões, de Paris e de São Paulo, Souza e Lima aproxima a produção paulista na qualidade de vanguarda, valorizando a produção do FCCB em consonância com o grupo francês.

Em "A Crítica ao IX Salão" [8] publicado em 1950, Benedito Junqueira Duarte, crítico de cinema e colunista do Jornal O Estado de São Paulo, localiza um período de ruptura na continuidade da produção fotográfica do FCCB, levantando dois momentos: antes e depois do VII Salão, em 1948. Observou que uma "atmosfera arejada" pairava na produção paulista em exposição, visualmente afastada da prática pictorialista. Assim também como Salvatore defendia, os fotógrafos do FCCB intencionavam marcar uma fotografia de expressão individual, que esteticamente valorizasse o uso da perspectiva, das linhas, da supressão de detalhes e, principalmente, a expressão da subjetividade do fotógrafo, criando a cada fotógrafo a liberdade de um estilo diferenciado, auto-referido como "moderno". Os leitores da Studium podem agora se deleitar e experimentar um pouco do clima que inspirava tais debates. Boa leitura!

[5] Texto 1: POLACOW, Jacob. Arte Fotográfica em seus aspectos locais. FCCB-Boletim, v. IV, n.43, nov. 1949.  Texto 2: SALVATORE, Eduardo. Considerações sobre o Momento Fotográfico. FCCB-Boletim. v. VI, n.67, nov.1951.

[6]  STERENTAL, Volf .Tendencias da fotografia. FCCB-Boletim, v. IV n.39, 1949. 

[7] CSORGEO, Tibor. A missão e o campo de ação da fotografia moderna. FCCB- Boletim, v. III, n. 31, nov. 1948.

[8] DUARTE, Benedito Junqueira  A Crítica do IX Salão. F.C.C.B. Boletim, v. V, n.53, set.1950