Cárcere de Caseros - “Desaparecimentos: retratos na ausência”
Verónica del Valle // Valeria Nuciari
“La cámara ya no era un instrumento que registraba presencias,
era una forma de hacer desaparecer el mundo,
una técnica para encontrar lo invisible.
”Paul Auster - “Leviatán”
Neste trabalho consideramos a fotografia como um instrumento central dentro da investigação antropológica. Vivemos sob uma chuva permanente de imagens, a maioria das quais passa por nós sem deixar vestígio na memória. Tomamos as imagens como processos emocionais incompletos, e buscamos gerar reflexões críticas nos espectadores, os quais esperamos que, fazendo intervir seu saber prévio, supram as lacunas da representação. Ao olhar uma imagem o espectador se apropria de certos elementos da foto, utilizando ao acaso associações subjetivas, que serão para ele como pequenos relatos, fragmentos soltos do real. Nos propomos a tomar as fotografias como um olhar fragmentado para que quem olhar as imagens construa um quadro crítico e emotivo a respeito do condicionamento, a reclusão e a exclusão da vida dentro da sociedade. Centrando-nos no cárcere como uma metáfora de um sistema que se reproduz em todos os aspectos da sociedade, a vigilância e o castigo, a exclusão, a restrição e a norma, nos propomos a possibilidade de construir isso através de imagens e textos. Toda pessoas excluída dentro da sociedade está confinada a um mesmo papel recortado, imóvel e petrificado similar ao dos presos dentro de uma prisão.
O cárcere de Caseros, na Cidade de Buenos Aires, representa hoje um relato fragmentado, habitado cada dia mais por desaparecimentos que por memória. Com esses fragmentos de imagens tentamos encontrar pegadas, únicas para cada qual, que se imponham à atenção. É definitivamente a busca do Homem através de suas pegadas, de seu passo, de seus intentos: seus “pequenos relatos”.
Criamos uma nova realidade em que o objeto (imagem e texto) se converte em outro diferente, porque nós com nosso olhar o transformamos/reinventamos. A matéria-prima não varia, mas a forma que a arte lhe dá a impede efetivamente de seguir sendo a mesma. É essa arte outra forma de conhecimento, e o essencial da arte é justamente que nos construa um mundo, que nos revele um tipo de olhar: não só uma forma de olhar, mas também um lugar a partir do qual seguir para o mundo. E cada olhar, sabemos, é insubstituível. Manufaturamos realidades.
O que caracteriza a fotografia antropológica não é tanto seu tema, mas sim a classificação da “realidade”, que propõe e parece transmitir, a partir do conhecimento particular de quem a observa.
Existe uma certa fatalidade na fotografia, já que esta não pode existir sem algo e alguém. Mas o que faz que fotografemos algo em particular?
Em parte, ali reside a inclassificabilidade da fotografia: não existe uma única razão para determinar uma de suas circunstâncias. A essência da fotografia é sempre invisível pois não é a ela que vemos e embora não se distinga de seu referente, nos move a um ato secundário de reflexão. É central destacar que aquilo que a fotografia não mostra é tão importante como o que mostra (existe uma relação quase inevitável entre fora e dentro), é portadora de uma presença “virtual” que a une com algo que já não está ante nossos olhos, mas que se revela ali como excluído. Muitas vezes uma fotografia é um quadro, uma abertura, que nos mostra aquilo que está ausente, e na busca daquilo que não está enquadrado reside a força do olhar. Mas além da fotografia, conseguir pensar no que há por trás da imagem.
Em toda fotografia existe um suplemento de significado (punctum), o que acrescenta à foto e que entretanto não está ali explicitamente. É algo sutil que se encontra mais além do campo, mais além do quem mostra, como se na imagem se manifestasse uma pressão do indizível que deseja ser dito.
A fotografia reproduz mecanicamente até o infinito aquilo que apenas ocorreu uma vez e não poderá voltar a se repetir, nela o tempo se encontra estancado. De certo modo parece representar o “retorno do morto”. Uma foto leva consigo uma carga de valor de verdade inquestionável que nos diz: isto foi assim. O referente sempre está presente na fotografia, e ambos se caracterizam por permanecer imóveis dentro de um mundo em constante movimento. A fotografia, no decorrer dos anos, funciona de certa maneira como um simulacro da existência: um simulacro do que nunca mais poderá se repetir existencialmente e agora essa existência/presença só pode ser vivenciada por cópias, que nos recordam também o ausente, o perdido.
A existência da fotografia é dupla, quando é tomada e reconhece um autor que a define, de certa maneira fixa-a e depois com cada olhar essa fotografia é multiplicada. Conforme a situação reconstruímos um passado, manufaturamos una nova realidade cada vez. “La realidad no existe. Debe ser buscada y ganada.”[i] (Paul Celan). Indubitavelmente a arte, dentro desta a fotografia, reflete a realidade, mas por sua vez funda uma realidade nova. Isto não há que se esquecer nunca: a arte é criadora da realidade e não só reflexo dela.
Vemos a fotografia como uma forma e o quê é a forma sem a extensão de um conteúdo. É o conteúdo que dá lugar à forma e este conteúdo nunca se esgota, porque a arte nos presenteia uma enorme riqueza de significados possíveis e por sua vez nos faz viver outros mundos possíveis. Seguindo Vattimo acreditamos que o encontro com uma obra de arte é um modo de fazer experiência, com a imaginação e a emotividade, de outras formas de existência, de outras “realidades”, que nos faz deslizar um pouco fora do horizonte concreto (e às vezes fechado) em que vivemos cotidianamente Neste intercâmbio, produz-se o encontro artístico, nosso próprio horizonte se modifica.
Embora a fotografia possua um alto conteúdo técnico (foco, luz etc.) também é um meio de expressão, pois nela contam, justamente, a sensibilidade e a emoção. Mais além de ser considerada por muitos como um mero registro, a fotografia é uma interpretação; constitui-se como um uso deliberado daquilo que se escolhe registrar e deixar impresso como legado de “verdade” e presença. A imagem fotográfica pode se utilizar não só como registro ou documento antropológico mas também como uma forma de expressão (como metáfora, como texto) já que a fotografia transmite coisas que a linguagem verbal não consegue dizer.
Nem o texto nem a imagem podem esgotar o real, por muito bons que sejam. Ambos estão plenos de subjetividades, de interpretações e recortes da realidade, são, cada um deles, abordagens possíveis e formas de aproximação distintas de um mesmo fenômeno. Texto e imagem se enriquecem mutuamente: um dizendo, outro mostrando.
A fotografia é um olhar que recorta, seleciona e interpreta; é um olhar subjetivo pleno de emoção e de uma idéia sobre mundo. Assim mesmo esse olhar especial requer o manejo de uma técnica e de um maquinário. Uma fotografia nasce da realização de três práticas: fazer, experimentar e olhar. Como já dissemos, através da fotografia se evidencia um corte e uma fragmentação da realidade. Primeiramente o fotógrafo está obrigado a escolher somente um determinado ângulo, um momento, dentro da continuidade do real. Quando tiramos uma fotografia praticamos uma ruptura, estabelecemos os limites daquilo que queremos ver.
Essa fragmentação do tempo vivido, preservado, nos coloca algumas perguntas com respeito a nossa relação com o tempo e a memória. A memória é o que constitui toda nossa vida. A memória poderia ser não tanto o passado contido em nós, mas uma prova de nossa vida no presente, de onde olhamos e recordamos. As fotografias se contêm e se bastam: não são o mundo, não são a realidade, mas a “verdade” que propõem é igualmente válida como qualquer outra. O eu desaparece dissolvido em um olhar que deixou de pertencer e cumpre e inventa suas próprias regras. Definitivamente o que importa é olhar e a ordem com que esse olhar procede. Um olhar que não é de uma ordem rígida, pelo contrário, aceita a presença do acaso e busca acomodar-se a ele, fixando em um único instante, que é múltiplo, as diversas variáveis da existência. Combinam-se sem fim: ordem e caos, imutabilidade e mudança, vontade própria e acaso.
Tentar suplantar uma imagem com palavras é impossível, já que ao mudar de uma estrutura para outra elaboram-se outros significados. O texto que acompanha uma imagem não está somente destinado a comentá-la, pode-lhe outorgar significados que parecem racionalizá-la. Embora muitas vezes o texto amplia as conotações incluídas na fotografia, também é certo que freqüentemente o texto produz um significado completamente novo que parece emanar da própria imagem. Essas conotações não são “naturais” mas sim culturais e pessoais, tomam seu sentido em virtude da sociedade em que se produzem. A leitura da foto sempre é histórica e dependente do background do espectador.
O tempo memorial afetivo é múltiplo e polissêmico. A viagem de percorrer uma fotografia se faz levando como equipamento o presente conosco: nosso modo de ver, nosso corpo, nossas vivências: olhamos conforme a situação. A subjetividade de nosso olhar encontra novos significados, esse fragmento de tempo aparentemente inalterável, nunca é o mesmo, sempre é outro: perante nós e perante os demais. Porque nossa percepção das coisas se altera e com ela nossos critérios de realidade e de valor: o percurso do olhar nunca é o mesmo.
A arte é uma companheira essencial para nossas perguntas. A idéia da escritura, da fotografia, da Arte como o que vai conseguir resgatar o que o tempo leva, como preservação (nunca imóvel). Na arte o presente já é memória. A arte é valiosa porque se submete à prova da relação abismal entre a medida e o incomensurável. E dado que se trata de um assunto de óptica, uma espécie de "olhar de outra maneira" ("Hemos de mirar a la ciencia desde la óptica del artista y el arte desde la óptica de la vida”[ii] Nietzsche), a vida é aqui o critério. O valor não é, pois, mais que o lampejo de um certo olhar.
Um retrato na ausência: se um homem deseja estar verdadeiramente presente deve estar pensando, não em si mesmo, mas no que vê, deve esquecer-se de si mesmo a fim de estar ali, e a partir desse esquecimento, a partir desse lugar, surge o poder da memória. Quando damos um passeio no âmbito da memória, penetramos no mundo.
É impossível fazer uma análise social que possa prescindir ou ignorar os espaços por onde os sujeitos transitam. Porque são esses espaços os que são transformados pelo passo do homem como por sua vez este é transformado pelo espaço. Todo espaço físico pode ser chamado um não-lugar antes de ser habitado pela presença dos sujeitos, porque é esta que organiza e reconhece esse espaço, trata-se de encontrar e construir um centro.
Marc Augé chama de “não-lugares” os “Espaços que não criam identidade singular nem relação, a não ser solidão e semelhança”. Os não-lugares são os espaços do anonimato, nos convertem em meros elementos que se formam e desfazem ao acaso sem nunca formar uma rede.
Um não-lugar deixa o homem sem a afirmação de um espaço. E se entendemos que o homem necessita para sobreviver, para não sentir-se vulnerável, o reconhecimento de um lugar, transformar um não-lugar em seu lugar, habitar o mundo que o rodeia: formar uma rede.
O homem seja em uma prisão ou em “liberdade” vive em uma oscilação contínua entre a pertença e o estranhamento, entre o estar sempre e o não estar nunca “em casa”: essa sensação de estar em trânsito.
Por isso o ser humano definitivamente necessita sentir-se um habitante, seja do espaço que escolheu seja do espaço a que foi recluso. Necessita construir um espaço de reconhecimento, recortar do mundo espaços significantes. E no momento em que o homem habita e tece uma trama constrói uma memória.
Fazemos uma dupla restituição: a pegada deixada e do que nós recuperamos a partir de nosso olhar. As fotografias são um espaço aberto que pode e deve ser habitado: por um sujeito, a quem é possível encontrar e retratar; e por uma realidade, à qual é possível referir-se.
A memória como um lugar. O Cárcere de Caseros é o lugar, é esse esquecimento, a partir do qual buscamos retratar o homem e sua memória. Assim como o mundo se grava em nossas mentes, nossas experiências ficam gravadas no mundo. Marcas, texturas, pegadas, passos...