Roland Barthes e a escritura: um olhar poético sobre o signo fotográfico

Roland Barthes e a escritura: um olhar poético sobre o signo fotográfico - II/III

Robson Aurélio Adelino Braga

I | II | III | referências bibliográficas

II - Barthes: a fotografia e a escritura no limiar da poesia

Para entender melhor o contraste em questão é preciso ter em mente certos traços que conferem ao procedimento intelectual de Roland Barthes um caráter original.

O pensamento de Barthes é marcado pela instabilidade e pela contradição. Se, por um lado, Barthes está associado ao esforço sistemático, minucioso e formalizante que o levou a ganhar notoriedade como um dos pais fundadores da Semiologia, por outro lado, o seu pensamento expõe um caráter lábil, plástico, sujeito a rupturas bruscas, que o levou a ser acusado de praticar imposturas e de escorregar abusivamente no subjetivismo. Barthes, porém, resiste a essas acusações, reclamando para si "o direito de o discurso crítico ser um discurso artístico autônomo, que nada tem a ver com qualquer verdade, mas apenas com a validade, que é uma coerência interna do sistema."[5]

Essa reivindicação de direito, essa afirmação de legitimidade de um modo de reflexão peculiar encontra-se exemplarmente formulada no texto da aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária do Colégio de França, que Barthes pronunciou em 1977. Aí ele declara-se publicamente "um sujeito incerto", "impuro", disposto a apoiar-se "nas forças excêntricas da modernidade" e inclinado, com freqüência, "a sair de um embaraço intelectual por uma interrogação dirigida ao meu prazer." Começa assim por explicitar abertamente, diante da audiência de uma instituição secular, a dissonância entre o seu procedimento crítico e as expectativas convencionais das disciplinas acadêmicas:

...se é verdade que, por longo tempo, quis inscrever meu trabalho no campo da ciência, literária, lexicológica ou sociológica, devo reconhecer que produzi tão-somente ensaios, gênero incerto onde a escritura rivaliza com a análise.[6]

O que Barthes denomina aqui "escritura" ou "literatura" é a máxima inscrição do sujeito no ato da emissão dos enunciados, é a voz subjetiva que fala através do texto sem que o sujeito tente ocultar-se pela completa submissão à legislação dos códigos epistemológicos estabelecidos; é, pois, uma linguagem reflexiva, auto-referencial, que visa recolocar o sujeito no centro do ato de enunciação; uma linguagem que é, no dizer de Barthes, "o grafo complexo das pegadas de uma prática: a prática de escrever."[7]

Advogando o direito de praticar a sua escritura num terreno onde ela enfrenta a resistência de todas as tradições consagradas do discurso acadêmico, Barthes está se insurgindo contra as "vozes autorizadas" que refletem a vigência insuspeitada do poder através da linguagem. Pois uma das manifestações do poder infiltrado na linguagem, tributária das características desse poder apontadas por Barthes – "a autoridade da asserção, o gregarismo da repetição" – reside no discurso chamado científico. A escritura barthesiana pretende funcionar como contraponto a esse discurso:

A ciência é grosseira, a vida é sutil, e é para corrigir essa distância que a literatura nos importa. (...) através da escritura, o saber reflete incessantemente sobre o saber, segundo um discurso que não é mais epistemológico mas dramático.[8] 

A escritura pretende iluminar tanto o objeto como o sujeito que se debruça sobre ele, e a presença do sujeito transparece no uso que ele faz da linguagem. A linguagem que constitui a escritura recusa a condição de linguagem utilitária corrente no trato explicativo das teorias; não é a linguagem que é abolida como um mero meio, tão logo o fim, a explicação, seja atingido.

...as palavras não são mais concebidas ilusoriamente como simples instrumentos, são lançadas como projeções, explosões, vibrações, maquinarias, sabores: a escritura faz do saber uma festa. (...) a escritura se encontra em toda parte onde as palavras têm sabor (saber e sabor têm, em latim, a mesma etimologia). (...) É esse gosto das palavras que faz o saber profundo, fecundo.[9]

A linguagem escritural revela, pois, uma profunda afinidade com a linguagem poética, no que essa linguagem mantém uma permanente simetria entre forma e conteúdo. Pois o poema, como nos mostra Paul Valery,

...não morre por ter vivido: ele é feito expressamente para renascer de suas cinzas e vir a ser indefinidamente o que acabou de ser. A poesia reconhece-se por esta propriedade: ela tende a se fazer reproduzir em sua forma, ela nos excita a reconstituí-la identicamente.[10]

Em A câmara clara, Barthes abdica de todo o repertório conceitual que vinha empregando no tratamento da fotografia e opta por abordá-la no nível das sensações que ela provoca face à sua experiência individual como espectador. Barthes declara-se insatisfeito com os discursos críticos em voga - da sociologia, da psicologia, da psicanálise - que resvalam, segundo ele, para uma redução da complexidade do problema da fotografia. A alternativa passa a ser, então, a assunção plena da subjetividade diante da fotografia, a tradução da experiência particular do observador perspicaz numa linguagem expressiva como último recurso para captar a "essência" ou o "gênio próprio" da fotografia: "Mais valia", diz Barthes, "de uma vez por todas, transformar em razão a minha declaração de singularidade e tentar fazer da ‘antiga soberania do eu’ (Nietzsche) um princípio eurístico."[11]

Essa opção de Barthes por rejeitar os princípios normativos dos sistemas conceituais com os quais vinha trabalhando e por erigir a subjetividade em razão legisladora, fundindo a experiência intelectual e a experiência sentimental, a reflexão e a escritura é o que confere ao ensaismo barthesiano o caráter de uma "eudoxia", o conhecimento obtido com a participação dos sentidos. A tensão entre uma demanda referencial e uma aspiração formal, que transparece em A câmara clara, torna possível afirmar que essa obra cumpre uma vocação do ensaio que o situa em algum lugar no caminho que conduz à autonomia do poético.

I | II | III | referências bibliográficas

[5] PERRONE-MOISÉS, Leila. Roland Barthes. São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 38.

[6] BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 1987, p. 7.

[7] Idem, p. 17.

[8] Idem, p. 19.

[9] Idem, p. 21.

[10] VALERY, Paul. Poesia e pensamento abstrato. In: Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1991, p. 213.

[11] BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 19.