|
A estética da violência na fotografia do Notícias Populares I / II Fabiano Silvestre |
I | II | referências bibliográficas
|
Desde a antiguidade a violência é tratada pelo mundo dos homens, seja através da mitologia, seja pelos meios naturais, de forma bizarra e dantesca. Basta ver um acidente de automóvel ou alguém baleado que um sem número de pessoas pára para olhar e comentar. O apelo pela morte, ou mais notadamente, o medo dela é mais do que nunca uma questão social, uma questão humana. Com a evolução da humanidade e avanço dos meios midiáticos houve a desterritorialização dessa plataforma visual. Antes o olhar era natural, sem filtros, sem intermediários: o homem e o objeto. Com o advento da fotografia, esse desejo pelo olhar mórbido e seus efeitos passam pelo olhar crítico do fotógrafo, pelas lentes da câmera e suas potencialidades tecnológicas. Com o uso da luz e da velocidade do diafragma da câmera, o fotógrafo ambientaliza a foto criando uma situação mais propícia para a interpretação do leitor. O editor de imagem, profundo conhecedor da linha editorial do jornal e, por sua vez, do seu público alvo, escolhe a foto que melhor comunica o fato jornalístico, através da comunicação imagético-fotográfica. Criou-se então a estética da violência. Algumas fotografias que serão expostas têm a mais clara identificação com a mitologia e sua lógica no imaginário coletivo. A linha editorial do veículo NP sabia como ninguém explorar essa mítica. Cérbero, personagem mitológico apresentado abaixo e referenciado com foto exemplificativa é umcão monstruoso, de múltiplas cabeças (três, cinqüenta, cem), com cauda de dragão, e o dorso eriçado de cabeças de serpente. Proíbe que os vivos entrem no inferno, e que os mortos saiam. O Cão de Hades simboliza o terror da morte entre aqueles que temem os Infernos. Mais ainda, simboliza os próprios infernos e o inferno interior de cada ser humano.[1] (Chevalier e Gheerbrant, 1998). O jornal tinha como sua espinha dorsal o tripé sexo, bizarrice e violência. Sob essa lógica de trabalho eram pautadas as matérias e as fotos. Todos os fotógrafos conheciam como ninguém o mundo cão das ruas e esse exercício pela procura do mórbido era diário. A exploração da imagem do ser humano em situação depreciativa, humilhante, tinha espaço garantido nas manchetes do veículo, que muitas vezes eram até desnecessárias. A foto já era suficiente para que o interpretante decodificasse o signo. A presença do negro, do pobre, das minorias étnicas e homossexuais era apresentada de forma sub-humana. A analogia imediata que se faz com o desejo do inconsciente coletivo em encontrar controles sociais e culturais, antes através da mitologia e na atualidade pelas lentes do fotógrafo, tem a intensa e discreta manifestação de perpetuar o mito. Hoje a imagem perpetua o mito. A estética fotográfica ajuda a formar novos objetos mitológicos. Afrodite (Vênus) - deusa da mais sedutora beleza, cujo culto, de origem asiática, é celebrado em numerosos santuários da Grécia, principalmente na ilha de Citera. Filha do sêmen de Urano (o Céu) derramado no mar, após a castração do Céu por seu filho Cronos (daí a lenda do nascimento de Afrodite, que surge da espuma do mar); esposa de Hefestos, o Coxo, por ela ridicularizado em várias ocasiões. Simboliza as forças irreprimíveis da fecundidade, não em seus frutos, mas no desejo apaixonado que acende entre os vivos. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)[2] O Jornal Notícias Populares tinha um baixíssimo número de assinantes. Seus leitores eram basicamente operários, que compravam os exemplares nas bancas, a caminho do trabalho, utilizando transporte público. Nesse itinerário queriam obter informação sobre crime, violência, cotidiano, ou o simples prazer de perceber o alheio e se identificar com os fatos ali relatados. Nas fotos estudadas se faz claro o entendimento de Koury quando da citação "a ilusão de imaginar que o mundo real não se encontra externo, porém interno à imagem" (Koury, 1998: 64).[3] A população, assombrada com tanta violência, procura nas páginas do NP e nas fotos do veículo uma fuga do real. A transcendência da verdade. Da realidade do bairro, da violência das ruas, de sua própria enfermidade. O que o individuo procura na fotografia do NP é justamente uma realidade pior que a sua própria realidade, num desejo desesperado de encontrar motivos para continuar fazendo sua vida valer a pena, fazer o seu cotidiano, apesar de intragável, prosseguir. A criminalidade também era bastante explorada pelo NP. A imagem fotográfica dos bandidos lhes fazia parecer piores do que eram na vida real. Eram criados nomes como "Homem Diabo", "Capeta", "Matador de Guarulhos" e outros para identificar figuras que, segundo os próprios fotógrafos, nem eram tão perigosos assim. A busca pelo sensacional e pelo aumento da tiragem do jornal e de sua comercialização fazia com que essas atitudes editoriais fossem tomadas, conforme foto abaixo: Esse envolvimento que o receptor cria com a imagem e a interação que a captação fotográfica produz trazem todas as condições estético-comunicativas para que esse elemento condutor se produza. A mola-mestra é a comunicação e nesse caso signos, símbolos e interpretantes têm em comum a interpretação plena, ora como objeto fotográfico, ora como receptor analítico (leitor). Segundo Aumont, as imagens dos espaços representados fazem fluir temporalidades diversas, experiências compartilhadas como significativas, sutis cumplicidades e nesse puzzle figurativo, narram o grupo, produzem um sentido singular do grupo. (Aumont, 1999:247).[4] Essa simbiose interpretativa faz com que o receptor se veja no palco da cena, se sinta virtualmente ligado aos acontecimentos, sem os danos da violência. A estética não dói. A tragédia do cotidiano, sim. |
I | II | referências bibliográficas
Fabiano Silvestre é jornalista com especialização em jornalismo científico (Labjor).
[1]CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed. Rio de Janeiro : José Olympio, 1998.
[2]CHEVALIER, J., GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.
[3] KOURY, Mauro. "Fotografia, sentimento e morte no Brasil", in: KOURY, Mauro org. Imagens e Ciências Sociais, João Pessoa : EdUFPB, 1998.
[4] AUMONT, Jacques. A imagem, São Paulo : Papirus, 1999.