Entre retratos e paisagens: modos de ver e representar no Brasil oitocentista

Entre retratos e paisagens: modos de ver e representar no Brasil oitocentista - I

Ana Maria Mauad*

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fotografia chega ao Brasil em 1840, sendo recebida entusiasticamente pelo articulista do Jornal do Comércio do dia 17 de janeiro:

"Finalmente passou o daguerreotipo [sic] para ca os mares e a fotografia, que ate agora só era conhecida no Rio de Janeiro por teoria, [...]. Hoje de manha teve lugar na hospedaria Pharoux um ensaio fotográfico tanto mais interessante, quanto e a primeira vez que a nova maravilha se apresenta aos olhos dos brasileiros. [...] E preciso ver a cousa com seus próprios olhos para se fazer idéia da rapidez e do resultado da operação. Em menos de nove minutos o chafariz do Largo do Paço, a praça do Peixe, o mosteiro de São Bento, e todos os outros objetos circunstantes se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela própria mão da Natureza, e quase sem a intervenção do artista"

Historique et description des procédés du daguerréotype et du diorama.  Paris: Alphonse Giroux et Cie, 1839 - Rare Books Division, The New York Public LibraryO daguerreótipo{1} , apresentado por Louis Jacques Mandé Daguerre, na Academia de Ciências da França em 1839, foi um sucesso. Em primeiro lugar, por proporcionar uma representação precisa e nítida da realidade, fornecendo à imagem um estatuto técnico que lhe subtrai, por completo, os vestígios de subjetividade. Em segundo lugar, a nitidez, a rapidez e os procedimentos simples e codificados ampliam seu uso e retiram o caráter de unicidade da produção visual do século XIX.

A necessidade da experiência visual, ressaltada na notícia do Jornal do Comércio, é uma constante no século XIX. Numa sociedade em que grande maioria da população era analfabeta, tal experiência possibilitou um novo tipo de conhecimento mais imediato, mais generalizado. Paralelamente, habilitava os grupos sociais a formas de auto-representação até então reservadas a pequena parte da elite que encomendava a pintura de seu retrato. A demanda social por imagens incentivou pesquisas no sentido de melhorar a qualidade técnica das cópias, facilitar seu processo de produção e retirar-lhe o caráter de relíquia, ainda presente no daguerreótipo, uma peça única, acondicionada em estojo de luxo. Os processos negativo/positivo, com chapas de colódio úmido e papel albuminado e, posteriormente, com chapas secas de gelatina permitiram inúmeras reproduções da imagem, a partir de um único registro.

No Brasil, a fotografia contribuiu para a construção da imagem e da auto-imagem da sociedade do Segundo Império. A produção fotográfica desse momento no Brasil orientou-se a partir de duas grandes referências: o retrato fotográfico{2} e as fotografias de vistas, geralmente feitas em chapas de grande formato (18 x 24cm).

Sob o império do retrato grupos sociais se distinguiam, construindo através de marcas visuais a sua identidade social. O retratado, escolhendo a pose adequada para a mise-en-scéne do estúdio fotográfico, evidenciava a adoção de um determinado estilo de vida e padrão de socialidade. Os objetos e trejeitos adotados para criar a ambientação ilusória do estúdio atuavam como emblemas de pertencimento social, moldados segundo os códigos de comportamento, referentes ao grupo detentor dos meios técnicos de produção cultural ou do acesso a estes.

Paralelamente, o Império brasileiro teve a sua imagem desenhada pela pena aguçada e perspicaz dos viajantes e de seus "riscadores" (desenhistas), pelos pintores paisagistas e fotógrafos que por aqui transitaram, desde a abertura dos portos em 1808, mas, sobretudo, a partir do Segundo Reinado, principalmente no que se refere aos fotógrafos. Independentemente da modalidade do registro, foi o olhar do estrangeiro que nos enquadrou, ao mesmo tempo em que educava o nosso olhar, para que nós mesmos pudéssemos nos mirar nos espelhos da cultura importada de seus países de origem.

A escrita-em-trânsito, típica dos viajantes, forneceria o tom de testemunha ocular aos relatos, escritos no estilo simples da verdade. O mesmo tom estaria presente nas aquarelas e desenhos dos pintores que acompanhavam as expedições. Ender, Rugendas, Taunay, Hercule Florence, eram eloqüentes na sua necessidade de tudo registrar. Tal eloqüência fica ainda mais patente se pensarmos que foi este mesmo Hercule Florence, o descobridor, no Brasil, em 1833, da possibilidade de se fixar desenhos com a luz: a fotografia. O isolamento do estudioso impossibilitou-o de conquistar a glória alcançada seis anos depois por Daguerre, na França.

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* Doutora em História Social, Professora Adjunta do Departamento de História e do PPGH, Pesquisadora do LABHOI/UFF.

{1} Daguerreótipo: Imagem positiva direta em chapa de cobre, coberta de uma fina camada de prata, cuidadosamente polida e sensibilizada com vapores de iodo. A imagem é revelada com vapores de mercúrio e apresentada em caixilho hermeticamente fechado.

{2} Modalidades do retrato, em tamanhos que variavam do formato carte-de visite, foto de 6 x 9,5 cm, colada sobre cartão de 6,5 x 10,5 cm ao cabinet size, foto de 10 x 14 cm, colada em cartão de 16,5 cm. Não podemos esquecer as estereoscopias que não se limitavam ao modelo retrato, incluindo na sua galeria de imagens as paisagens.

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