Entre retratos e paisagens: modos de ver e representar no Brasil oitocentista

Entre retratos e paisagens: modos de ver e representar no Brasil oitocentista - II

Ana Maria Mauad

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o século XIX, a fotografia de paisagem prendia-se aos cânones da pintura romântica e do paisagismo dos grandes panoramas, daí a utilização de chapas de grande formato, que eram as mais adequadas a esse tipo de fotografia, por produzirem um resultado próximo às vistas e panoramas pintados. Marc Ferrez, fotógrafo brasileiro que atuou na Corte a partir da década de 1870, especializou-se em vistas, chegando mesmo a aperfeiçoar o aparelho inventado por M. Brandon, próprio para vistas panorâmicas.

Entretanto, é importante perceber que a fotografia de vistas, mesmo com apoio nos cânones da pintura, desenvolve uma linguagem própria, em que a nitidez e a distribuição clara dos planos é a marca fundamental. O fotógrafo paisagista, ao escolher temas variados e isolados entre si para compor suas vistas e panoramas, nos quais as relações sociais eram encenadas segundo uma pose pré-estabelecida, produzia uma colagem do real, na qual o progresso se equivalia pelo que aparentava, não pela realidade. Guardando tal perspectiva, a fotografia brasileira no século XIX teve como espaço de excelência para a sua divulgação as exposições universais. A partir de 1862 a fotografia participou das exposições universais, como meio de comunicar as riquezas e a vastidão do território. Treinados na retórica do discurso civilizatório, os emissários do Brasil nessas exposições esforçaram-se por projetar uma imagem de Brasil mais próxima dos países do norte do que de seus vizinhos do cone sul. Entretanto, a presença do Império fazia-se notar por aquilo que tinha de exótico, de original, de diferente, segundo a lógica que presidia já as descrições dos viajantes anos antes.

No entanto, o século XIX, à parte de todo o fascínio causado pelas vistas estereoscópicas{3} , foi dominado pelo império do retrato.

No Brasil a moda do retrato foi aceita como todas as demais que vinham do estrangeiro para enquadrar nosso comportamento e para nos fornecer molduras para nossas próprias imagens. Rapidamente fotógrafos estrangeiros, fugindo da concorrência profissional existente em seus países, invadiram a Corte, integrando-se ao cotidiano da cidade, juntamente com as modistas, os cabeleireiros, os joalheiros, entre outros agentes dos modos de vida ocidentais.

O retrato fotográfico democratizou a imagem, antes limitada aos recursos da pintura. O barateamento dos custos, bem como a ampliação do número de fotógrafos itinerantes ao longo do segundo reinado, amplia o mercado consumidor, configurando uma clientela cada vez mais heterogênea. Já não é raro, em fins do século XIX, encontrar-se fotografias de ex-escravos, como também de um número cada vez maior de imigrantes pobres que utilizavam a fotografia como um meio de construir a sua própria posteridade.

No ano de 1870 atuavam na Corte, com endereço fixo e anúncio no Almanaque Laemmert, 38 fotógrafos. Nos seus anúncios ofereciam serviços diversos e indicavam o endereço, que dependendo da rua já era a garantia de distinção. Concentravam-se basicamente no centro da cidade, com ênfase na rua do Ouvidor. Dentre os mais renomados, destacaram-se na Corte, ao longo da segunda metade do século XIX, tanto pelos seus retratos quanto pelos seus panoramas e vistas, os seguintes fotógrafos: Revert Henrique Klumb, Insley Pacheco, Carneiro e Gaspar, Stahl & Wahnschaffe, Camillo Vedani, J.F. Guimarães, George Leuzinger, Modesto Van Nyvel, Pacheco,Christiano Junior, Henschel & Benque ,Juan Gutierrez, o já citado Marc Ferrez, entre outros.

No entanto, a atuação dos fotógrafos não se limitava à Corte Imperial: várias províncias brasileiras podiam contar com o serviço de renomados estúdios fotográficos, tais como Lindermann na Bahia, Augusto Stahl em Pernambuco, Augusto Riedl, em Minas Gerais, Carlos Hoenen, em São Paulo, dentre muitos outros. Era comum que uma casa fotográfica sediada na Corte abrisse uma filial em outra cidade, ou ainda produzisse vistas de diferentes regiões.

A família imperial destacava-se como um dos importantes membros da clientela dos estúdios. Era comum nos anúncios de fotógrafos ou de oficinas fotográficas as titulações e honrarias atribuídas pelo imperador D. Pedro II aos fotógrafos que lhe prestavam serviços, impressas juntamente com as premiações nas exposições de belas-artes, nacionais ou internacionais, como forma de valorização do trabalho oferecido. Tais atributos também eram colocados no verso dos retratos, que possuíam uma iconografia bem rica e peculiar. Se na imagem ficava registrada a invenção mágica de um cotidiano de fachada, seu verso era o espaço por excelência para o fotógrafo reinventar seus atributos profissionais através de signos de distinção e qualificação, tais como frisos, desenhos do aparato técnico, medalhas e brasões, anjos, flores, paisagens da cidade etc.

Além da família Imperial, a clientela dos estúdios era formada pela classe senhorial, dona de terras e de homens, que sempre que vinha à Corte se deixava retratar, e pela população urbana, enriquecida pelo comércio e pelos serviços prestados à elite imperial. Os trabalhos mais comuns de fotografia encontrados nos estúdios eram os retratos carte-de-visite utilizados para enviar como lembrança e para compor álbuns para serem expostos nas mesas das salas de estar.

A pose é o ponto alto da mise-en-scène fotográfica no século XIX, pois através dela combinam-se: a competência do fotógrafo em controlar a tecnologia fotográfica; a idéia de performance, ligada ao fato de o cliente assumir uma máscara social que, muitas vezes, não lhe competia; e a produção de uma nova forma de expressão visual adequada aos tempos do telégrafo e do trem a vapor. A fotografia, principalmente o retrato fotográfico, com toda a sua possibilidade de encenação, inventa uma memória para ser perenizada, eternizando na emulsão fotográfica uma vontade de ser própria à sociedade brasileira dos Oitocentos.


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{3} Vistas estereoscópicas: Consistiam na montagem de um cartão, de 9 x 18 cm, com duas fotografias ligeiramente diferenciadas que, observadas através de um visor especial, formavam uma imagem única, vista com relevo e profundidade.

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