A Fotografia de Francisco Brandão

A Fotografia de Francisco Brandão

Eduardo Alves Covas*

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Fim do século XIX na Europa, mais precisamente 1896. A fotografia já havia deixado de ser exclusividade de poucos, passado pela coqueluche dos estúdios fotográficos e pela predominância do formato carte-de-visite, finalmente, na mão de amadores, estava ganhando as ruas e casas de todo o mundo. A própria popularidade que ganha a fotografia inspira alguns fotógrafos de fim de século, que se lançam na produção de imagens mais trabalhadas, com o intuito de referenciar a fotografia como arte, como os pictorialistas. (FREUND, 1976)

Em Portugal, no mesmo período, a vida política tornara-se instável. O Poder Monárquico perdia crédito, enquanto o Partido Republicano aumentava sua contestação diante da ditadura que então dominava. Havia já passados cinco anos da primeira tentativa de golpe contra a monarquia, e novamente se alvoroçavam os republicanos com a possibilidade de degredo. (REIS, 1984)

Francisco Ferreira Simões BrandãoFoi no ano de 1896 que emigra para terras brasileiras o senhor Francisco Ferreira Simões Brandão, português de Mealhada, vindo de família aristocrática, então com seus 23 anos de idade e com um recente diploma de Farmácia pela Universidade de Coimbra. Era ele próprio um republicano, ou como diria sua neta Maria Eugênia: "um subversivo". Vem para o Brasil justamente para evitar uma deportação mais humilhante para terras africanas, onde Portugal conseguia ainda manter suas colônias, embora diminuídas perante a ganância imperialista inglesa.

Chega ao Brasil com uma carta de recomendação para atuar como farmacêutico em Bragança Paulista, onde trabalha até surgir a oportunidade de emprego na Farmácia Popular, em Santo Antônio da Cachoeira, hoje Piracaia, ao pé da serra da Mantiqueira, no Estado de São Paulo.

Santo Antônio da Cachoeira surgiu do bairro de Cachoeira, situado à margem do rio de mesmo nome. Quando da chegada de Francisco Brandão contava com uma população inferior a 18 mil habitantes, em sua grande maioria rural, mas que movimentava o centro urbano nos finais de semana com a freqüência à missa, aos encontros nas praças, para os negócios e feiras. Prosperou graças ao café, que lhe rendeu um período de prosperidade e que possibilitou a formação de uma pequena burguesia agrária na região.

Brandão casa-se então com Maria Eugênia de Carvalho, filha de Caetano de Carvalho, dono da Farmácia Popular, tornando-se sócio da mesma e posteriormente mudando seu nome para Farmácia Brandão. Tornou-se figura benquista na cidade, relacionando-se e obtendo o respeito tanto da elite quanto da população em geral. Irá exercer outras atividades além da farmácia, como ser o agente local do jornal O Estado de São Paulo. E, principalmente, irá fotografar, e fotografar muito. Sua fotografia mais antiga no Brasil, que se conseguiu identificar, data de 1898, e seu tema foi uma cavalhada (foto 1). A partir daí, e por décadas, Brandão irá registrar com suas imagens o cotidiano de sua nova cidade, Piracaia, de sua família, seus amigos, da sociedade da qual passa a fazer parte.

Não se sabe se já fotografava em Portugal antes de vir para o Brasil, mas seu aprendizado em Química habilitava-lhe o entendimento e o manuseio do material e dos processos fotográficos. Ao desembarcar no Rio de Janeiro a caminho de Bragança Paulista, adquiriu o livro Photografie pour tous, um grande compêndio de fotografia de George Brunel, edição de 1894.

Brandão utilizava como sua primeira câmera uma "Repeater", aparelho que possibilitava o transporte de até seis chapas de vidro por vez. Ele se manterá fiel ao vidro, fidelidade que passará ao filho Caetano, que herda, além da farmácia, o gosto pela fotografia. As chapas de vidro eram inicialmente emulsionadas pelo próprio Brandão, mas posteriormente ele passou a comprá-las já industrializadas. André Boccato, de quem falaremos adiante, teve acesso as anotações de pedido de Francisco, de onde podemos inferir sobre o papel utilizado por ele: o "papel Bristol gris 5 forças, o ¼ de folha custa 250 réis" e o papel "albuminado de 1a. qualidade, a mão custa 14.000 réis" o qual uma folha "corta-se: 4 pedaços 24x30 ou 6 de 18x24 ou 15 de álbum ou 32 carte de visite", (FERRARI, 1993).

Trabalhava num quarto escuro montado nos fundos de sua casa, onde fazia suas revelações de chapas e de papéis. Não teve, porém um estúdio propriamente dito; improvisava-o em sua farmácia ou no quintal de sua casa, que era por sua vez vizinha da farmácia, criando fundos infinitos com lençóis e colchas, cenários com cadeiras, mesas e capim.

Encontramos no conjunto de sua obra alguns temas recorrentes, que acabam várias vezes por se inter-relacionar. Podemos identificar como tema principal o retrato, onde podemos incluir um outro grande tema, sua família. Usava da pose, apropriando-se de elementos tradicionais da fotografia de estúdio, mas demonstrava uma relação com seus modelos que se diferenciava da do fotógrafo profissional, uma relação de proximidade que a intimidade com os personagens de suas fotografias lhe proporcionava (fotos 2 a 5). Ao contrário de seu filho, não fazia fotografias com fins comerciais, mas retratava constantemente seus amigos, parentes e, muitas vezes, a si próprio (fotos 6 a 9). Essa é outra característica de Brandão: ele não se contentava em ser apenas o operador da câmera, mas apreciava aparecer em suas fotografias, seja em auto-retratos seja acompanhando seus amigos e familiares (foto 9, entre diversos exemplos).

Nas fotos de família podemos identificar também o uso recorrente da pose (fotos 10 e 11, sendo a primeira um exemplo de positivo revelado num estúdio profissional). Brandão retratava seus filhos em diversas fases de desenvolvimento, colocando-os normalmente em ordem etária, mas variando e brincando com este arranjo (fotos 12 e 13). Mas não é sempre que a pose se faz presente; ele consegue retratar o cotidiano de sua família, como quando do nascimento de um filho (foto 14, com anotações de Caetano Brandão), ou mostrando sua esposa na relação diária com os filhos (fotos 15 e 16), ou ainda seus sogros, num impressionante momento de intimidade familiar (foto 17).

O cotidiano, por sinal, será a grande marca das imagens de Brandão. Ele irá registrar o dia-a-dia da cidade e de seus personagens, como as reuniões de amigos em frente à sua farmácia (fotos 18 e 19). Este será um ponto privilegiado de observação para Francisco, servindo-lhe de referencial (fotos 20 e 21). A Farmácia Brandão localizava-se numa das principais ruas de Piracaia, e frente a ela e de suas imediações serão registradas diversas cenas da cidade e de seus personagens (fotos 22, 27 e 29).

Os encontros e festividades fotografados serão muitos. De reuniões com os amigos (fotos 23 a 25) a reuniões mais solenes da elite da cidade (foto 26), da chegada do circo às procissões e festas populares como a Congada (fotos 27 a 31). Brandão fará ainda imagens de alguns profissionais atuando em suas áreas e seus estabelecimentos comerciais, como um costureiro, um dentista ou uma prensa de jornal (foto 32).

Além do cotidiano da cidade, Brandão debruçou-se sobre a própria cidade, tomando-a como referente fotográfico (fotos 33 a 35). Suas fotografias cujo tema é centrado em Piracaia são várias, destacando-se dentre elas uma série em que Francisco cria um inventário urbano, retratando-a rua a rua (fotos 36 a 40).

Brandão avança também pelo campo do experimentalismo na produção fotográfica, executando montagens no próprio negativo, com múltiplas exposições de uma mesma chapa (fotos 41 e 42). Este tipo de trucagem fazia parte do repertório dos fotógrafos do período, e podemos encontrar diversos exemplos de sua aplicação ao longo da história da fotografia. E Brandão utiliza-o muito bem, contrapondo uma técnica não tão apurada a uma grande criatividade em suas montagens. Brandão fez uso ainda de máscaras em suas fotografias, como para colocar textos ou alegorias nas imagens (foto 43).

Outro recurso utilizado por Brandão foi a foto-montagem. A partir de fotografias variadas, e utilizando-se de ilustrações, ele cria cenas satíricas ou cômicas, fotografando-as novamente e transformando-as de novo em um objeto fotográfico, como no caso das duas montagens referentes ao carnaval de 1901 (fotos 44 e 45).

Ainda no campo da pose, Brandão irá criar narrativas com fotografias encenadas (foto 46), e até seqüências curtas com seus amigos e seus filhos, utilizando fantasias e montando cenários (fotos 47 e 48).

Brandão passou ainda um longo período em Mealhada, Portugal, de 1936 a 1946 (foto 49). Seu interesse por fotografia, no entanto não se manteve com a idade, e quem continuou a fotografar com a mesma intensidade com que Francisco fotografava foi seu filho Caetano. Apenas em ocasiões especiais Francisco voltava a empunhar sua máquina fotográfica (foto 50).

Brandão não era um simples fotógrafo amador, preocupado em registrar fatos e pessoas. Ele conhecia o "programa da caixa preta" (FLUSSER, 1985), e utilizava seu conhecimento para produzir um material que sai do comum, que transmite um olhar de fotógrafo. Sua relação com os objetos fotografados dava-se num nível mais profundo; a cidade por ele fotografada não reflete apenas o olhar do estrangeiro, a identidade do fotógrafo, mas espaço adotado afetivamente por este; não eram pessoas, mas a família, os amigos, que participavam de suas encenações e posavam diante de seu estabelecimento; era a população que ia às festas e encontros que Brandão fotografava. E fotografava sempre, até o ponto em que todos se acostumaram com ele e sua câmera fotográfica, até que suas fotos se tornassem parte do cotidiano da cidade (CERTEAU, 1996).

Enfim, em Brandão o referente fotográfico deixa de ser um objeto inanimado, mas um cúmplice e aliado do fotógrafo. A produção imagética de Brandão deixa latente o fato de que o fotógrafo anima, concede uma aura singular a seus referentes fotográficos. Suas fotos tocam-nos, ferem, acabando também por animar-nos (BARTHES, 1989).

Meu primeiro contato com as fotografias de Francisco Brandão deu-se no Centro de Memória da Unicamp, para onde foram levados os negativos de vidro produzidos por Francisco Brandão e por seu filho Caetano Brandão, pelas mãos de André Boccato, fotógrafo que junto com o historiador Sandro Ferrari teve a sorte de conhecer pessoalmente Caetano, ou Seu Tetê, como era conhecido. A pesquisa realizada pelos dois serve-me agora como importante fonte primária.

Ao iniciar minha pesquisa, fui a Piracaia, local de origem das imagens, e entrevistei Ailton Brandão, neto de Francisco e herdeiro das fotografias. Foi Ailton quem autorizou a doação do material que se encontra na Unicamp, e ele ainda possui um grande número de imagens, as quais passei também a utilizar em meu trabalho. As fotografias estão aqui identificadas como "Fb" (Coleção Família Brandão) quando provenientes do acervo da Unicamp, e "Ab" (Acervo particular Ailton Brandão), quando proveniente do acervo de Ailton Brandão.

* Mestrando do departamento de Multimeios do IA/Unicamp.

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