A construção da auto-imagem de povos indígenas ressurgidos

Notas etnográficas: A construção da auto-imagem de povos indígenas ressurgidos
Os Tumbalalá, os Kalankó e os Karuazu, Kóiupanká e Catókinn - II

Siloé Soares de Amorim

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Imagem e estereótipo

 

A imagem dos belos índios puros ou isolados,vistos ainda como representantes de uma população pré-colombiana intocável, e a do "grotesco" aculturado, misturado, integrado, ressurgido, contrapõem-se.

No imaginário popular, tais transformações não figuram como parte de um cenário devastador ou transformador dos povos e indivíduos indígenas e suas tradições. Geralmente, a falta de visão e de compreensão desses processos (ao longo de 500 anos) faz com que o coletivo busque nos índios uma imagem idealizada: a do "natural", a do "índio nu" e "puro" que habita nas selvas. Imagens essas que, iconicamente, inculcadas na população, geralmente propagadas pela mídia, provocam olhar o índio ressurgido como aquele "que não é mais índio" e fazem vê-lo como uma geração de remanescentes dispersos entre as massas populares que visam como índios resolver seus problemas de sobrevivência. Por outro, busca no índio isolado, o amazônico, a figura do índio selvagem, puro, natural, "não miscigenado".

O Brasil indígena, ao completar 500 anos de ocidentalização, carrega consigo também as experiências do extermínio de centenas de etnias diferenciadas, e de seus componentes, que alcançavam, calcula-se, mais de 6 milhões de pessoas. O peso dessa experiência de orientação colonial recai ainda sobre o restante daqueles povos que somam atualmente no Brasil o significativo número de 220 etnias, falando mais de 180 línguas, totalizando uma população atual de aproximadamente 700 mil índios[6] que vivem na condição de isolados, contatados e ressurgidos.

Os isolados, em realidade, correspondem a duas formas de ver e situar esses povos. Uma delas diz respeito aos índios que nunca tiveram contato com as sociedades atuais e "vivem livres" na região amazônica, são nômades e até a atualidade não tiveram nenhuma forma de contato. A outra, são aqueles contatados pela FUNAI, que se recusam a aceitar a integração ou manter o contato como os Zoé (Pará), os Omorê (Rondônia), entre outros que preferem, mesmo estando alguns grupos vivendo em contato com a sociedade nacional, continuar distantes do integracionismo e são considerados ou proclamados "povos livres".

Entre os contatados, figuram aqueles que eram livres, mas que atualmente vivem em Reserva ou Posto Indígena[7] e dependem relativamente da FUNAI para sua sobrevivência, isto é, a maioria dos povos indígenas no Brasil.

Os ressurgidos, isto é, índios que circulam em busca de reconhecimento oficial, como é o caso dos Tumbalalá, em Pambu, município de Abaré, Bahia; os Kalankó e Karuazu, em Água Branca e Pariconha, Alagoas; os Kambeba, às margens do rio Negro, Amazonas; os Pipipam, em Pernambuco; os Xetá, no Paraná, entre outros[8], tentam reconstruir sua identidade historicamente negada - como povos etnicamente diferenciados, lutando pela recuperação e demarcação de seus territórios tradicionais, extintos oficialmente e ocupados por terceiros já então durante os governos coloniais e do Império[9].

Os povos em questão reúnem elementos culturais regionais ligados à cultura sertaneja nordestina, ou seja, uma série de elementos transmitidos no processo de colonização com costumes religiosos e culturais assimilados sincreticamente dos aspectos indígenas, europeus e africanos. Desenvolveram e adaptaram formas de sobrevivência com as dificuldades do semi-árido.

Na memória, guardam aspectos singulares de sua cultura ancestral indígena transmitida e praticada de geração a geração. Em sua diversidade, entre os aspectos culturais mais conhecidos estão o Toré e o Praiá[10], ambos levado a cabo no plano simbólico intermediado pelo pajé ou por um membro por ele designado ou pelo cantador e cantadora·de Toré, uma pessoa respeitada por seus poderes hierárquicos no campo espiritual e por sua capacidade de lidar com os encantados.

O Toré representa um dos mais significativos elementos de união e de identidade entre os povos indígenas no Nordeste[11]. Por seu caráter musical e dancístico, é o elemento mais significativo de sua etnicidade. É um foco convergente de poder, fornecedor de ideologias, de unidade e diferenciação; é, portanto, como o define Sheila Brasileiro (1999:184) "fonte de legitimação de objetivos políticos" [12] e, claro, de identidade.

O Toré, para os povos ressurgidos, antes do "dar-se a conhecer" para a sociedade envolvente, era praticado apenas por algumas famílias "detentoras" desse conhecimento. A partir de sua apresentação pública como povos diferenciados, passa a fazer parte dos deveres cotidianos desses povos, suas comunidades e seus indivíduos. No que se refere a suas obrigações espirituais, o Toré passa a ser elemento de iniciação infantil, delimita funções e atribui privilégios tanto no plano social como no espiritual no interior do grupo. A complexidade sócio-político-religiosa existente no Toré é o elemento central aglutinador entre os povos indígenas do Nordeste, seu caráter ritual implica dois universos principais: o Toré de ordem pública e o de ordem "particular", isto é, o ritualístico.

O primeiro está relacionado a sua etnicidade, é público, é o "nós estamos aqui", pintados e com cocar para mostrar que "somos índios"; dessa forma se apresentam com suas vestimentas em eventos políticos e religiosos. O segundo, sem seus elementos visuais, é praticado no "terreiro", na aldeia e dele participam todos os integrantes. É a "brincadeira do índio", é sua relação social com os "encantados", isto é, seus predecessores, "índios velhos que se encantaram" e que "visitam a aldeia", que "vivem escondidos no mato" ou mesmo noutras aldeias de outros estados, mas que interagem sensorialmente com a comunidade.

Os três povos ressurgidos entoam[13] e dançam o Toré com variedades tonais e causas distintas. Seus cantos ou toadas às vezes apresentam ritmos que são capazes de hipnotizar o dançante ou ouvinte com o chacoalhar dos maracás, apitos, flautas e as toadas.

Os Kalankó, Karuazu, Kóiupanká e Catókinn (descendentes dos Pankararu e dos Geripankó), praticam o Toré e a dança dos Praiás como ritual e como dança, tendo como elemento musical à toada (voz), o maracá e a flauta, enquanto os Tumbalalá (descendestes dos Tuxá e Truká), utilizam somente o maracá. O fumo é um elemento muito significativo para esses povos, é no fumar  que são invocados os encantados para curar, para defumar,  ou seja, limpar o ambiente etc.

No campo simbólico e no sensitivo, tratados poderiam ser escritos sobre o Toré. Porém, outros rituais iguais em complexidade são praticados por esses povos que ressurgem, que recriam e relêem de forma singular suas experiências. Os Tumbalalá dançam e cantam com ritmo às vezes alegre, às vezes "monótono". Ao chacoalhar do maracá entoam o Toré em seus rituais "particulares" vestidos de taioba (saia) e seu pujá  (tocado), ambos elaborados com a fibra do caroá.

A prática de alguns rituais como a "festa do umbú" e a "queimada do cansanção"[14], está intimamente ligada à recuperação da terra indígena. Determinados rituais ou ciência - como eles os chamam - é somente transmitida uma vez "levantada a aldeia", ou seja, demarcada suas terras e o povo  reconhecido. Todos esses rituais e seus segredos são transmitidos de forma hereditária, o que só pode acontecer em terra indígena com local sagrado garantido.

Os povos ressurgidos, por estarem distante de seus descendentes (no tempo e nas relações intergrupais) carecem da terra para resgatar e praticar seus rituais; entretanto, as relações reiniciadas a partir do ressurgimento, estreitam cada vez mais os laços culturais e tradicionais desses povos que, pouco a pouco, reconstroem seu universo cultural e ritualístico.

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[6] Várias são as contradições ao enumerar a quantidade de línguas faladas e o número de etnias indígenas no Brasil. Lamentavelmente o governo brasileiro e os setores encarregados desse trabalho simplificam sempre com atalhos essa questão. De forma que é difícil saber com precisão o número de etnias e indivíduos de origem indígena no Brasil; isso varia de ano a ano, além de que não contempla os indivíduos que vivem fora das áreas indígenas, nos grandes centros urbanos ou nas periferias dos vilarejos. Cf. Jornal Porantim: "Em defesa da causa indígena", ano XXII, nº 225, Brasília, maio de 2000.

[7] Espaços criados pelo então Serviço de Proteção ao Índio (SPI) a partir de 1910 e pela FUNAI, que substitui o órgão anterior ao entrar em função em 1968, para proteger os índios.

[8] Porantim, (encarte), edição 233, CIMI, março de 2001.

[9] O processo de extinção e expropriação dos aldeamentos indígenas corresponde a uma prática propriamente colonial. Até 1759, com as feitorias, depois, com os colégios e aldeias jesuítas. A partir de então, com sistema de "diretores laicos" (administradores que substituem os jesuítas) para "civilizar" o índio. "Concluído" o processo civilizatório, isto é, não falar mais sua língua e, devido à mistura étnica, adotava português e a forma de viver do colonizador, perdas culturais, práticas religiosas sincréticas, traços físicos etc.; as terras indígenas eram por decreto dadas por extintas e consideradas devolutas, isto é, voltavam para o poder público da época, que lhes dava diversos usos, enquanto a população índia ficava à mercê de sua própria sorte. Siloé Soares de Amorim: Reintegración da la Identidad del grupo étnico Xucuru-Kariri, Tese de graduação, Escuela Nacional de Antropologia - ENHA, México, DF, 1996:101.

[10] Os Praiás formam um tipo de sociedade secreta na qual ninguém "pode saber" quem ocupa a vestimenta denominada praiá; ao mesmo tempo, o praiá (a veste), é o próprio "encantado", ou seja, um espírito ancestral. O moço que a veste é seu "dono", zela pela veste e pelo espírito: lhe dá garapa (suco de cana ou água adoçada) e fumo e o leva para dançar no terreiro da aldeia, além de cuidar e zelar pelo bom estado da vestimenta. Entre os Pankararu, dos quais descendem os Kalankó e Karuazu, Catókinnn e Kóiupanká, sua diversidade simbólica está representada por vários aspectos festivo-ritualísticos particulares, como a "dança dos praiás", em que representam uma infinidade de animais e suas danças; "flechamento do umbú", festa-ritual que dura quatro semanas a partir do flechamento do primeiro fruto do umbuzeiro; "menino do rancho", outro ritual que envolve diretamente os Praiás, no qual uma criança é iniciada, geralmente para ser curada de algum malefício, doença etc. Esse ritual implica, também, na iniciação de um praiá menino, cuja complexidade não permite que seja descrita superficialmente.

[11] Os povos indígenas no Nordeste (mais Minas Gerais e Espírito Santo) somam um total de 46 etnias reconhecidas pelo Movimento Indígena. São mais de 170 mil pessoas (Cf. Jornal  Porantim, ano XXV, n. 253, março de 2003). Não estão somados aqui os índios do Espírito Santo nem os de Minas Gerais, somente os dos nove estados que compõem o Nordeste e que vivem em condições similares, tanto históricas como étnicas, econômicas, sociais e religiosas. Sua problemática de inserção tanto no Movimento Indígena como no indigenismo oficial tem origens similares. Pela FUNAI, das 46 etnias, são reconhecidas oficialmente 33. O órgão ainda não reconhece os povos ressurgidos que são atualmente 13. Aqueles que se deram a conhecer publicamente estão esperando reconhecimento oficial, além de outros que estão se organizando para o mesmo fim, buscando também formas de legitimação, que implica na elaboração de um laudo (levantamento/reconhecimento) antropológico da etnia para identificar o povo e delimitar o território tradicional. Esse levantamento só tem validade se autorizado e afiançado pela FUNAI e pode levar anos; isso irá depender da coesão e formas de luta desses povos e de liberações burocráticas. O reconhecimento é importante para identificar, demarcar e homologar as terras indígenas e a restituição dos seus direitos contemplados na Constituição Brasileira.

[12] Sheila Brasileiro. Povo indígena Kiriri: emergência étnica, conquista territorial e faccionalismo, apud João Pacheco de Oliveira (organizador): A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena, Rio de Janeiro, Contra Capa, 1999:184.

[13] De toante. Entoar um Toré, cantar ou dançar solenemente. Todos os povos indígenas do Nordeste entoam  ou puxam formalmente o Toré. O toante (o cantador), estreita sua relação sagrada com os encantados, o que acontece somente nos locais apropriados. O Toré, como dança,  pode ser  publica ou não.

[14] Planta de pelo urente da família das euforbiáceas, loasáceas e urticáceas que provoca em contato com a pele, queimação e coceiras.