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Uma cena alemã ao anoitecer. Um ensaio sobre o gestus social de Brecht na fotomontagem de John Heartfield. - 4 Rodrigo Garcez |
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Os produtos refinados do capitalismo (Spitzenprodukte Des Kapitalismus)
As afinidades entre Brecht e Heartfield são oriundas em primeiro lugar do momento histórico que os formou: a derrota alemã na Primeira Guerra e a República de Weimar. Isso os leva a rejeitar completamente a harmonia do Gesamtkunstwerk wagneriano, aproximando-os da radicalidade do Dada e do Expressionismo, mas adequados ao momento histórico conturbado. O que, entretanto, torna a obra dos artistas em questão única e relevante ainda hoje é o ponto exato em que se posicionaram: tanto o teatro épico de Brecht quanto as fotomontagens de Heartfield trabalham com recortes da realidade sem serem realistas; fazem uso de sistemas de significação fragmentados não para representarem o onírico, à maneira Dada, e sim a crítica social. Esse ponto de mutação desprende suas obras da corrente do tempo e as define enquanto clássicas. Desenvolveremos esse conceito ao final; por hora retornamos à imagem. O arranjo de Spitzenprodukte guarda ainda outros índices brechtianos. A noiva que veste um vestido de 10 mil dólares apresenta-se num plano elevado, sobre uma plataforma que a faz parecer mais alta que o desempregado; mas mesmo assim a perspectiva do primeiro plano evidencia muito mais a figura em negro e seu degradante cartaz. Ambos cumprem na fotomontagem a função de serem ícones de classes sociais distintas e, segundo o pensamento marxista, antagônicas. O cartaz de "aceito qualquer trabalho" também é um índice brechtiano na medida em que representa uma ruptura que nos distancia da noiva e evidencia uma condição social. Essa condição, recortada do contexto da Alemanha de 1932, nos faz pensar que este homem provavelmente foi atingido pela falência do seguro-desemprego e estava desesperado por mudanças. Brecht, Heartfield e principalmente Ernst Toller eram humanistas e sua confiança os fazia crer que a mudança não tardaria, vinda como fúria revolucionária da classe trabalhadora. Ao final da década, o desempregado com o cartaz provavelmente estava empregado nos esforços de guerra, enquanto os artistas assistiam a tudo no exílio[12]. Provavelmente esse cenário escaparia da percepção marxista tradicional e maniqueísta de Heartfield, mas não de Brecht, que sempre manteve uma atitude de "confiar desconfiando", sendo por vezes contraditório e cínico perante o homem, mesmo em suas peças bem intencionadas. Podemos localizar ainda dois pontos que caracterizam gestus social na imagem; o primeiro é a expressão na face da noiva que, como salientou Ades (1993), nos deixa em dúvida se estamos diante de um ser humano ou de um manequim. Sendo essa uma construção ideológica para ressaltar o efeito de distanciamento da classe social abastada, estamos diante de um gestus social. O segundo ponto é a única ponte entre os dois universos de claro-escuro, em que a sobreposição sem aparas da fotomontagem política ganha toda a sua força: os sapatos negros do desempregado sobre a cauda do vestido. Temos aí toda a escuridão da crise social insinuando-se sobre a efemeridade da riqueza. Heartfield foi direto ao ponto histórico de 1932, com tal maestria que o arranjo entre as desigualdades sociais obtido por ele toca-nos até hoje. Só as obras de arte que conseguem essa comunicação através do tempo podem ser consideradas clássicas, por isso termino fazendo coro com as palavras de Brecht sobre Heartfield ditas em 1951[13]: "John Heartfield é um dos artistas europeus mais importantes. Seu trabalho se exerce sobre um campo onde ele mesmo é o criador - a fotomontagem - . Pelas lacunas desse novo procedimento artístico ele pratica uma crítica à sociedade. Sua determinação ao lado da classe trabalhadora foi desmascarar as forças, que sobre a República de Weimar a levaram à guerra e o obrigou a emigrar e lutar contra Hitler. As realizações desse grande cronista vão além das publicações trabalhistas; são consideradas por muitos, e notadamente pelo autor destas linhas, como clássicas." Ao final se ouviam ecos sobre uma pirâmide. Heartfield e Brecht foram artistas capazes de mesclar a verdade interior de sua arte com a crônica de seu tempo em obras tão profundamente humanistas que ecoam ainda hoje sua mensagem. Trabalhando uma estética de sobreposição e choque entre pólos opostos, seja na fotomontagem ou no teatro épico, expuseram a natureza humana de forma crua e sem disfarces. O tempo conturbado em que viveram fornecia a matéria rica que animava suas obras e vidas. Escrevendo hoje, no século XXI, constatamos que essa mesma matéria está lá fora, resultado das tensões da velha natureza humana, engendrando novos imperialismos, genocídios, guerras e pobreza. E nós neste imenso cenário somos apenas um ponto. Nossa nação, uma linha talvez. Da composição com os planos possíveis resulta sempre uma pirâmide; e nosso trabalho pode seguir a tradição de projetar luzes nas profundezas do coração humano não importando a falta de compreensão aparente do conjunto da sociedade. "Eu agora me limitarei a esboçar as grandes linhas do problema e a mostrar a sua importância, e me consideraria feliz se o eco de minhas palavras não se perdesse no vazio." Wassily Kandinsky (1956), no prefácio da primeira edição de seu livro "Sobre o espiritual na arte", publicado em 1912. |
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