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María Angélica Melendi |
I. Em 2 de outubro de 1992, no Pavilhão 9 da Casa de Detenção do Complexo Penitenciário do Carandiru, São Paulo, SP, uma briga entre dois presos - por causa de um varal de roupas - gerou uma revolta que atraiu a Polícia Militar ao presídio. O resultado dessa intervenção foi o massacre de 111 detentos, que deixou ainda um saldo de 153 feridos, sendo 130 detentos e 23 policiais. As imagens dos corpos nus, estendidos nos caixões de zinco, com um número pintado - a modo de identificação - sobre a pele, persistem na memória de quem as viu estampadas sob as manchetes dos jornais. Inaugurado por volta de 1911, como uma unidade modelar, o Complexo do Carandiru compõe-se hoje de quatro unidades autônomas: o Centro de Triagem, a Penitenciária Feminina, a Casa de Detenção (onde aconteceu o massacre) e a Penitenciária do Estado. Nesta última, encontra-se a Academia Penitenciária do Estado de São Paulo (ACADEPEN) e nela, o Museu Penitenciário Paulista. O Governo do Estado de São Paulo prometeu desativar o Complexo do Carandiru. Até hoje não foi tomada nenhuma medida nesse sentido.
II. Em 1995, Rosângela Rennó soube da existência de uma grande quantidade de negativos fotográficos de vidro na Academia Penitenciária do Estado. Em maio desse ano, a artista solicitou permissão para ter acesso a esse arquivo com o objetivo de restaurar, organizar e, mais tarde, utilizar as imagens desses negativos no seu trabalho. Num primeiro momento, a solicitação foi negada com base em uma regulamentação que protege a identidade dos detentos e das suas famílias durante um período de cem anos. Rennó, porém, conseguiu a autorização em fevereiro de 1996, depois de descobrir que algumas dessas imagens tinham sido publicadas num tratado sobre criminologia. Sem nenhum critério de organização nem de preservação, quase 15.000 negativos de vidro estavam amontoados em caixas de papelão, nos porões da ACADEPEN. Danificados pelo tempo e pela umidade, os restos do arquivo tinham permanecido inacessíveis, esquecidos por mais de meio século. Com a colaboração da FUNARTE, da USP e da Associação de Arquivistas Brasileiros, Rennó instalou um estúdio na ACADEPEN, onde limpou, restaurou e catalogou os negativos. A maior parte das imagens eram fotos identificatórias - rosto de frente e perfil - e signaléticas - nus de corpo inteiro, frente, perfil e costas -, havia também umas 3.000 fotos de tatuagens, marcas e cicatrizes, algumas fotos de doenças e anomalias e 30 fotos de cabeças de costas. As fotografias em preto-e-branco eram usadas para ilustrar as fichas pessoais dos internos da penitenciária. O levantamento fotográfico que se estendeu entre 1920 e 1940, no setor de Psiquiatria e Criminologia da Penitenciária do Estado de São Paulo, pretendia identificar os prisioneiros por número, características físicas (feições, cor da pele, altura, peso e deformidades corporais) e marcas (tatuagens e cicatrizes propositais ou acidentais). O Dr. José de Moraes Mello, médico responsável pela operação, não deixou nenhuma documentação sobre algum uso ulterior do arquivo. Não há registro do nome do fotógrafo.
III. Desde 1992, Rosângela Rennó seleciona e organiza o Arquivo Universal, constituído por textos de jornais que narram histórias ordinárias sobre gente e fotografia[3]. Da coluna social à página policial, o Arquivo Universal compõe-se de textos em que a imagem fotográfica se torna prova, fetiche, objeto de desejo, lembrança, testemunho. No acervo textual do Arquivo Universal, as imagens fotográficas estão nomeadas ou descritas. Assim, é um arquivo de imagens sem imagens.
O Arquivo Universal é um arquivo virtual no qual os textos são incluídos depois de serem lapidados pela eliminação de nomes, lugares e datas. Um arquivo de imagens escritas, no qual a identidade dos sujeitos é mutilada pela maiúscula seguida do ponto. A indeterminação do sujeito reforça e acentua uma falsa objetividade. O anonimato da situação é também a chancela da sua extensão. No Arquivo Universal, todos somos assassinos, todos somos cúmplices, mas todos, também, somos vítimas.
A maneira como eu lido com o texto é exatamente como faço com uma foto. Sinto que o texto determina uma potência imagética muito grande como informação descritiva que a foto não dá[4], declara a artista. Os relatos do Arquivo Universal - histórias ordinárias sobre gente e fotografia -, são irrelevantes, falidos, fragmentários. Como a nossa memória, o Arquivo prolifera a partir dessas irrelevâncias, dessas falhas, desses fragmentos.
[1] DERRIDA, Jacques. Mal de Archivo. . Uma impresión freudiana. Madrid: Trotta,1997.s/n [2] BORGES, Jorge Luis. Obras Completas. Buenos Aires: Emece, 1976. p.1017 [3] RENNÓ, Rosângela. Rosângela Rennó. São Paulo: Edusp,1997. p.159. [4] RENNÓ, Rosângela. Rosângela Rennó. São Paulo: Edusp,1997.p.159. |