Arquivos do Mal / Mal de Arquivo- III

María Angélica Melendi


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VII.

Em Mal de Arquivo, Jacques Derrida propõe-se a distinguir o arquivo daquilo ao que foi reduzido: a experiência da memória e o retorno à origem, o arcaico e o arqueológico, a lembrança ou a escavação, resumindo: à busca do tempo perdido[8].

Todo arquivo pressupõe inscrições, marcas, impressões, assim como a decodificação das inscrições e das marcas e o armazenamento e a preservação das impressões. Todo arquivo pressupõe, também, um lugar de consignação - um lugar de reunião dos signos - e uma técnica de repetição.

Um mal radical parece estar agindo desde sempre no trabalho de custódia e interpretação dos arquivos e na relação que mantemos com eles, nos modos de lembrar, memorizar e monumentalizar, na necessidade de registrar tudo, sem resto, sem perda. Mas a censura e a repressão trabalham para destruir o arquivo, antes mesmo de tê-lo produzido. Pulsões de morte, precipitam o arquivo no olvido, na amnésia, na aniquilação da memória, na erradicação da verdade. Porque o arquivo não será jamais a memória nem a anamnese em sua experiência espontânea, viva e interior. O arquivo tem lugar em (o) lugar do desfalecimento originário e estrutural dessa memória.[9]

Assim, o arquivo da ACADEPEN, arquivo de marcas, de inscrições, de impressões, arquivo de corpos escritos, descritos e desenhados, arquivo do mal, devorado pela umidade e pelo tempo, desvenda, nesse desfalecimento, uma acumulação de arquivos estratificados. Camada sob camada, o olhar de Rennó expõe as cicatrizes de feridas que o sistema intentou escamotear, mas que permaneceram abertas nas matrizes abandonadas. Sob essas cicatrizes, através dessas cicatrizes, a artista, como uma arqueóloga, nos permite entrever a possibilidade abissal de infinitas escavações.

Dominada pelo arquivo, pelo mal de arquivo, a artista não tem descanso, porque está, interminavelmente, dedicada a procurar e instaurar o arquivo ali, onde ele se escapa, ali, onde algo nele se anarquiva. Ao restaurar o arquivo, Rennó  restaura, também, a certeza de que o arquivo está irremediavelmente perdido. Extraviado na sucessão de cópias, o arquivo é ilegível porque todas as chaves para sua leitura foram apagadas. Um arquivo inútil, mesmo se lido através da memória dos arquivos de Lombroso ou de Lacassagne. Um arquivo inútil, mas dominado por uma espera infinita, desproporcionada, sempre pendente, uma espera sem horizonte de espera, a impaciência absoluta de um desejo de memória.

O que Rennó pôde recuperar são apenas as falhas, os vazios, os fragmentos desse desejo de memória. Com esses restos, a artista monta um outro arquivo, que estava latente no primeiro, num dos seus substratos. As imagens do novo arquivo - corpos nus, marcas, tatuagens, feridas; braços, mãos, pernas, pés, torsos, cabeças - pertencem agora ao arquivo da arte, potencializadas pela beleza do belo, não são senão memórias da morte. O último capítulo da vida dos homens infames.

 

VIII.

Em português, o substantivo vulgo quer dizer povo, populacho, tropa, multidão, plebe, ralé. Mas também é utilizado para designar o apelido, aquele nome outro que a família, a crônica popular, o grupo social ou mesmo a imprensa costumam colar, sobre o nome próprio. Ao nomear uma instalação que exibe fotos de supostos delinqüentes, a palavra vulgo multiplica seus sentidos. O vulgo, um sobre-nome, um nome metonímico, às vezes, rasura a inscrição do registro civil e recoloca o renomeado no elenco da infâmia; Jack, the Ripper, Landrú, o Vampiro de Dusserdolf, El Pibe Cabeza, o Bandido da Luz Vermelha, El Ángel de la Muerte, o Motoboy.

Contra a parede, fotos de seres anônimos, sem rosto, desidentificados; sobre a parede, textos sobre seres anônimos, sem nome, desidentificados. O vulgo, o povo, a plebe, a ralé.

Por outro lado, vulgo, em latim, é um verbo cujo significado é propagar, divulgar. Sendo a arte um dos modos de refletir sobre a vida, a condição para a experiência artística é a capacidade que a obra tem de convocar o espectador para essa reflexão. Na galeria, imagens e textos deixam vislumbrar, através das frestas e dos intervalos, a promessa de uma totalidade que resista à irreversível fragmentação da experiência contemporânea. Na galeria, Vulgo propaga e divulga a possibilidade de se inscrever, de se escrever e de se imprimir uma outra história, a história dos vencidos. Uma história que vem resistindo, entre os arquivos do mal e o mal do arquivo, à amnésia e à invisibilidade.

 

IX.

Para Hal Foster, a questão política, na arte ocidental da contemporaneidade, poderia ser apreendida apenas através de práticas de resistência ou de interferência. Se a vanguarda, transgressora da cultura oficial de uma sociedade erudita, se opôs, originalmente, à academia, a arte crítica ou de resistência é concebida como oposta à cultura moderna oficial, tanto na forma dos veículos de massa quanto na de um modernismo recuperado (a arte moderna dos museus)[10]. Por outro lado, o colapso da representação - hoje em dia não pode haver nenhuma representação simples da realidade, da história, da política, da sociedade: todas elas só podem ser constituídas textualmente[11] - desvela os conteúdos ideológicos implícitos nas falácias das imagens positivas.

Ao se apropriar das imagens do arquivo de um Museu Penitenciário, ao exibir essas imagens junto dos textos do Arquivo Universal, Rennó está conectando o enterrado, o não sincrônico, o menor às práticas artísticas da contemporaneidade. O Museu e o Arquivo, como repositórios de uma certa memória, são desmascarados, ao serem confrontados com a banalidade trágica dos relatos do Arquivo Universal.

A tarefa em que Rosângela Rennó está empenhada - a restauração do sentido - não contemplou nunca a evocação do massacre de 1992, porém, cada instalação com as fotos do arquivo do Carandiru não cessa de reencenar a chacina. Como se esta estivesse latente, como se cada disparo da polícia já estivesse anunciado nos disparos da câmara do fotógrafo desconhecido que, mais de cinqüenta anos atrás, tirou as fotos.

A arte de Rennó não se opõe ao sistema - a história ensinou que é tarefa inglória -, porém, agindo efetivamente desde os sítios privilegiados do sistema, deixa ver obliquamente, infra-levemente, não a perversidade desse sistema, mas, como quer Paulo Herkenhoff, um dos mapas da sua sombra.

 


[8] Cf.DERRIDA, Jacques. Mal de Archivo. . Uma impresión freudiana. Madrid: Trotta,1997.s.n.

[9] DERRIDA, Jacques. Mal de Archivo. . Uma impresión freudiana. Madrid: Trotta,1997.p.19

[10] FOSTER, Hal. Recodificação.. São Paulo: Casa Editora Paulista, 1996. p.200.

[11] FOSTER, Hal. Recodificação.. São Paulo: Casa Editora Paulista, 1996. p.200.


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