Negro olhar - III

Carlos Rodrigues Brandão


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III

Deixemos portanto os brancos e seus corpos e rostos antigos e de hoje, vestidos de arminho, alvura e barba, que disfarçavam numa honradez visual, difícil de ser então questionada, o desmando e a desumanidade que regiam e regem ainda o mundo onde eles eram exatamente isto: "senhores". Voltemos aos negros, quase invisíveis como individualidade dada a ver, antes e agora. Senhores do corpo, do gesto coletivo, da ginga e do movimento. Dos jogos do dorso impossíveis ao branco, do disfarce, da capoeira e do candomblé. Useiros de pés descalços (sinal do ser escravo no passado, negros alforriados logo compravam sapatos), mãos ásperas e palavras incompreensíveis, de uma perigosa sedução sempre associada ao malefício, à feitiçaria e à simulação. Melhor, por um lado, pois eis que suas ágeis figuras luminosas de escuridão zombam da imobilidade impotente dos brancos. Pior, por outro, porque quase não deixaram e pouco deixam hoje o registro de suas faces, e do seu olhar. Como respeitar quem não se dá a ver de frente?

Faço uma pausa para lembrar aqui uma dessas observações terrivelmente sérias, de tão brincalhonas. Pois, nela, o que eu disse até agora aparece às avessas, isto é, em sua face verdadeira. Eu fotografava para esta série de "negro olhar" um capitão dançante de terno de Moçambique: Pepita, tido também como o melhor ritmista das escolas de samba do lugar. Isso foi em Oliveira, Campo das Vertentes, Minas Gerais, e ele sugeriu que eu fizesse a foto de longe, de corpo inteiro e, se possível, pegando outros de sua "guarda". Disse: "Pra que retrato de cara de negro? Para os brancos é tudo igual. É uma cara feia só. E, depois, fotografia de negro só sai é negra mesmo. Não dá pra ver nada, por mais que você queira. É só a dentadura no meio daquele negrume".

Esta série de fotografias de um negro olhar tenta negar isso. De resto, mandei de volta ao Pepita várias fotos de seu rosto e de seu corpo na ginga da festa e de sua gente vestida de lilás e amarelo (algumas fotos estão na coleção). Ele gostou de ver o seu corpo e, mais ainda, o rosto negro nítido, iluminando o claro à volta na noite da festa de Nossa Senhora do Rosário.

Estive em cidades de Minas Gerais, de São Paulo e de Goiás. Retratei em slides e em fotos em papel rostos de negros, de perto, quase sempre de frente: o seu olhar. As fotos são sempre de festas e quase todas de "festas de santo de preto": São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Nesta série de fotos em cores e em papel estão apenas rostos de festas de São Paulo e Minas Gerais. As goianas ficaram nos slides. Ainda que os fotografasse por minha conta, às vezes no meio dos folguedos da festa, sequer explicando algumas vezes antes ou depois para o que eram, são fotos, creio, em que o negro se dá a ver. Ei-lo agora, nem um rosto de quem se suspeita, nem o de quem se fotografa, porque é um raro nome ou uma função: um senhor de seu rosto. São fotos de rua, de "câmara na mão", quase sempre um instantâneo, às vezes a rara pose, quando o dançante ou a cantora de congos, catupés, moçambiques, ou um Rei ou Rainha interrompiam o seu gesto de festa para virem posar. Nenhuma delas foi feita em estúdio e nenhuma foi tirada várias vezes, para que o fotógrafo amador pudesse se dar ao direito da escolha. Algumas fotos as fiz metido dentro de um terno, eu mesmo movido pela emoção do jogo de sons e corpos. A máquina na mão (uma velha Pentax), o gravador e outros acessórios a tiracolo. Em algumas fotos de pose, o modo de fazê-la e o seu porque eram então discutidos com o próprio fotografado. Algumas mulheres davam sugestões, pediam o tempo de um aprumo no cabelo ou um detalhe da roupa.

As da primeira seqüência: dignidade, são muito raras nos jornais e revistas de grande e média circulação. Raras mesmo nos livros em que o negro é o assunto. Fotos de negros como os brancos via de regra costumam crer que apenas eles são. Tomados de perto, posando, procurei ressaltá-los como são: dignos e fazendo com que o rosto sereno e o gesto digam isso. Revisto como detalhe, o que se acostumou a ver como grosseiro, pitoresco ou quase animal, ele revela uma rara beleza de que nos exilamos por vícios de um cego olhar, há muito tempo. Eles não. Pelo menos os muitos que sabem quem são.

Olhemos esses corpos de frente. Saibamos encarar esses olhares de rostos sérios, vestidos para dia de festa. Por um momento saibamos vê-los fora dos lugares arbitrariamente dados a serem "de negro", ali onde o branco o coloca: no trabalho desqualificado (sujo, maltrapilho, grosseiro, suarento), no esporte (brilho fugaz mas só no "esporte de negro"; o futebol sim, o vôlei não, o basquete sim, o tênis não, o box sim, o judô não, no samba e no pagode (melhor se mulato, melhor ainda se "mulata"), na crônica policial, na galeria vulgar dos "tipos brasileiros", em transe, vestidos de Deus, mas cheios de demônios, na umbanda ou no candomblé.

Os rostos são os mesmos, mas agora olham de frente, dão-se a ver, exigem do fotógrafo o ângulo adequado. Não estão vestidos de farsa e não se reconhecem arremedo. Dizem que se vestem e posam como acham que todo o negro tem o direito de ser, sendo negro. Dignos, ali onde o direito à diferença aspira abolir o poder perverso da desigualdade.

Quando pode, é na alegria que o negro se sente em casa. Mas é também ali que é o alvo do deboche e do desconhecimento. Se no branco a alegria da festa é grega, euforia, e é o seu direito, no negro, cuidado, pois tudo pode aproximá-lo, uma vez mais, do ser deslocado do humano. Um sujeito suarento a meio caminho entre o homem desqualificado e o animal desqualificador: "macaco". Porque a ginga alegre do negro, quando não é sensualidade é "macaquice" e nisso ou é um pecado contra a religião ou um desvio da cultura. Várias vezes em quase todas as cidades dos três estados onde pesquisei, sempre ouvi os de fora da festa, ou pelo menos fora do sentido de suas danças de praça e rua, comentarem a "macaquice" do rito e, então, observarem cada detalhe de seus rostos de fé e surpresa como a prova eloqüente da grosseria da farra. Pois eis que os que não sabem louvar os seus deuses com as artes do corpo precisam animalizar tudo o que parece estar além dos seus limites.

Mas entre eles e entre eles e seus santos e deuses, não é somente com música e dança que se faz o rito do louvor e a própria festa. É também com a alegria. Já aos primeiros viajantes espantava como os escravos gostavam de entregar o corpo ao que lhes parecia excesso - como até hoje parece a tantos - mas que só é isso à condição de ser uma espécie pessoal e coletiva de sentimentos de vitória, ainda que momentânea, sobre o próprio destino, sobre a dor. Não se ri com mais soltura do que quando se é negro e quem já viajou entre povos andinos sabe bem a diferença entre esses corpos dados ao movimento fácil, onde o improviso dos quadris substitui a marcialidade das batidas ritmadas e monótonas dos pés no chão, acompanhados de rostos que se abrem francos em sorrisos largos e, de outra parte, os duros corpos envergados de frio debaixo de rostos tristes, onde até o sorriso da festa é amargo e avaro.

Entre os negros dançadores de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, é possível ver como a alegria estampada no rosto, nos dentes e no olhar é parte da própria oração. Algo que o movimento do corpo completa e a que o canto das quadras quer menos dar sentido do que marcar a excelência do ritmo.

A mais estranha mescla dos ritos de negros católicos nas festas de seus santos padroeiros é o solene e o alegre. Entre os brancos, entre os senhores do passado, segundo os termos da própria cultura erudita, parece sempre necessário e impositivo separar uma coisa da outra. Não é a toa que se tornou costume no Brasil opor as festas de mascarada, como o carnaval, às de solenidade, como a Semana Santa ou o Sete de Setembro. Vide Roberto da Matta. Diante de Deus ou da pátria se é solene, respeitoso e apolíneo. Fora disso se pode ser até alegre, dionisíaco. O que é uma maneira sutil, mas empobrecida e desvirtuada, de se dizer que tudo pode ser virtude ou pecado, dependendo da hora e do lugar.

Mas esses eufóricos dançadores devotos não: ei-los que são alegres e entusiasmados (esta palavra na origem grega é profundamente religiosa) e tocam e dançam com os corpos e o rosto diante de seus deuses, para depois serem sérios e solenes andando no terno pelo meio da rua, nas marchas entre a casa e a igreja.

Pelo menos no Brasil não há gente que se coroe mais e exalte mais a "monarquia" do que o negro católico. E é preciso não esquecer que todas as festas "de santo de preto" do país são uma imensa nostalgia de realeza; seus símbolos, seu tempo mítico, seus sujeitos. Uma estranha e deliciosa oposição não deve ser esquecida aqui. A igreja oficial e, portanto, os brancos de elite desde a Colônia até hoje, coroam outros. Coroam Nossa Senhora, principalmente. A "coroação" sempre foi um piedoso - e piegas, confessemos - rito católico de igreja. Os negros não, desde quando escravos eles se coroam a si próprios. E se no candomblé alguns iniciados vestem coroas porque elas são de seus orixás, nos ritos católicos de festa de São Benedito ou de Nossa Senhora do Rosário há reis e rainhas indispensáveis, com as suas vestes de arminho e coroas. De lata que sejam, e são, mas coroas de uma bela, fugaz realeza em que vários personagens vestidos de nobres acompanham séquitos de monarcas "congos", "gingas", "pequenos", "perpétuos" ou não, em cortejos de "reinado" que, quando ainda sobrevivem, como em cidades de Minas Gerais, são o ponto alto da festa do santo padroeiro.

Vestido de veludo e coberto de coroa, quem apenas era digno nas primeiras fotos pode ser agora nobre, ainda que de "finge", mas onde o fingimento não é, entre eles, menor do que os nossos.

Já que há uma princesa Isabel meio bastarda e esbranquiçada, em festas como a de Itapira, em São Paulo, ou em Oliveira, Minas Gerais, e já que há na maior parte delas um rei, uma rainha ou, melhor ainda, um par de reis congos, é costume lembrar-se a razão de realeza como a dupla memória de uma origem africana de que se conhece por certo muito mais o mito indispensável do que a história necessária, e de um "tempo de cativeiro", seguido do instante memorável da "alforria", da "libertação" que, em algumas cidades, desloca a própria festa de São Benedito para um "13 de maio".

Joãozinho Trinta costuma dizer que rico é quem gosta do simples e que pobre gosta é de luxo. Os negros não só. Eles cultuam mesmo é o sentido do rei. Curioso que os dois padroeiros católicos cultuados em mais de 90% das festas de negros devotos sejam uma "Rainha dos Céus", coroada, Nossa Senhora do Rosário, e o mais "humilde" dos santos: São Benedito, que foi cozinheiro e tornou-se santo por não aspirar mais do que uma santidade feita de ser servil.

Neusa Santos Souza (Tornar-se negro, Graal, 1983) lembra como o negro rejeita de muitas maneiras o aspecto exterior de seu ser-negro e o disfarça quando pode. É preciso um raro grau de consciência e valor de identidade para que essa rejeição assumida ou sofrida em silêncio se inverta, e a cor e o corpo do negro venham a ser sentidos como valor de beleza sem o dever do disfarce. Pode ser e já se falou muito sobre o assunto. Mas, a menos que tudo isso seja uma outra maneira sutil de "fazer-se como o branco", os negros retratados aqui e tudo o que eles simbolizam parecem ter mais a ver com o desejo de realçar o lado negro do ser. Pois a própria realeza da festa é afirmada como negra e também como africana, perdida longe, e que sem os dados certos da geografia e da história, o rito retrata como uma festa de fé. São guerreiros africanos os seus nobres e buscam aos tropeços os seus nomes africanos.

Cumplicidade quer ter aqui um sentido muito diferente do que nos acostumamos a ver, especialmente nas crônicas e notícias policiais, sempre sugerindo o mal: o crime. Palavra suspeitosa. Cúmplices são aqui companheiros, parentes ou não, são parceiros: mãe e filhos, compadres; amigos, sujeitos de equipes de festejadores.

Ternura. Meninos e meninas negros têm sido associados, com uma assustadora crescente freqüência, aos hóspedes da FEBEM. Achei que era hora de lhes devolver a sua verdadeira face.

Campinas, 20 de novembro de 1988
Dia das festas da consciência negra


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