O referente na fotografia brasileira contemporânea

Diana Dobranszky


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No período abrangido pela pesquisa de mestrado "Referente e imagem na fotografia brasileira em fins do século XX", a história da fotografia brasileira começou a tomar corpo. Apesar de haver pesquisas, tanto publicadas como em andamento, o estudo da fotografia constitui-se ainda de um trabalho arqueológico. Se para compreender e contextualizar as obras contemporâneas é necessário o entendimento da história da fotografia - como história da arte fotográfica -, todo trabalho de investigação torna-se redobrado: um quebra-cabeça de informações e estudos isolados. Por outro lado, este período mostra-se empolgante para aqueles que pretendem contribuir para que essa história seja trazida à tona. Aos poucos e por meio de várias vertentes de estudo esperamos que a expressividade brasileira daqueles que escolheram a fotografia como meio artístico esclareça-se. Ciente da impossibilidade de abarcar a produção fotográfica em sua imensidão, esta pesquisa espera ter dado sua pequena contribuição.

Em sua percepção do acervo de fotografias do MAM-SP exposto em 2002 - ano em que essa pesquisa foi finalizada -, Tadeu Chiarelli, munido de seu conhecimento e estudo sobre a história da fotografia, traçou um breve panorama do desenvolvimento da fotografia das últimas décadas do século XX. Segundo ele, a fotografia brasileira esteve, de maneira geral, atrelada por muito tempo a sua função documental da realidade brasileira, que, apesar de mostrar o caráter de compromisso social, apresentava pouca experimentação. O ex-curador-chefe do museu diz ter notado, no entanto, que algumas obras do acervo refletiam a subjetividade do olhar dos fotógrafos e mostravam até mesmo um discurso sobre a própria fotografia. Quebra maior com o que denominou como tradição da fotografia no Brasil, foi observada por ele na exposição de fotografias "Identidade/Não identidade", de 1997, no MAM-SP: "Contra ou parodiando, em chave irônica, essa vertente, a grande maioria dos artistas presentes em 'Identidade/Não identidade', parecia evidenciar o descompromisso com aquela cartilha, sobretudo os jovens artistas. Por outro lado, a mostra tentava evidenciar como essa mesma geração buscava novos valores de identidade tanto para eles próprios - como indivíduos cidadãos e artistas, vivendo no final de um milênio, num país como o Brasil - como também para a própria arte e a fotografia" (CHIARELLI, 2002: 10). É aqui que se encontram os fotógrafos focados por este estudo, na busca de uma fotografia brasileira experimental diversificada.

Na ocasião da mesma exposição do MAM-SP, Ricardo Mendes tratou da pesquisa sobre a fotografia nos últimos 30 anos do século XX, apontando a dificuldade de se estudar um meio de expressão e de documentação tão diversificado como a fotografia. Foi na década de 1970 que Mendes acredita ter iniciado um longo processo de reconhecimento da fotografia brasileira, cujo resultado é o panorama da fotografia brasileira contemporânea. O final daquela década e o início da seguinte teriam sido, para ele, de efervescência em termos de pesquisa, livros, galeria e escolas, quando tudo era novo e motivo de investigação e estruturação: "É relevante apontar como 'aquela geração' de fotógrafos, os primeiros pesquisadores e a própria sociedade elegeram como conceito 'fotografia' um universo diversificado de manifestações, do jornalismo à experimentação. E aqui, neste ponto, talvez seja o elemento novo do quadro brasileiro, a proposição da fotografia como meio de expressão, abordagem que na longa história da fotografia no Brasil, afora os raros episódios representados pelo pictorialismo no início do século XX e mais tarde na produção mais moderna nas décadas de 1940 e 1950, nunca efetivamente ocorrera, ou seja, a fotografia compreendida enquanto linguagem" (MENDES, 2002: 20). Na pesquisa da fotografia iniciada nesse período, Mendes destaca Boris Kossoy, Gilberto Ferrez, Pedro Vasquez, Joaquim Paiva, e instituições de pesquisa, difusão e preservação - que ainda existem ou não - Museus de Imagem e Som, o Núcleo de Fotografia e o INFoto (Instituto Nacional de Fotografia) criados pela Funarte, e o Centro de Conservação e Preservação Fotográfica. Em sua avaliação, os anos 80 “foram de duro aprendizado prático. E, talvez, para os participantes da primeira fase do projeto 'fotografia brasileira', um pouco amargos. Mas tudo indica que esse projeto informal foi assumido organicamente pela geração seguinte. A década de 1990 poderia ser identificada, apropriadamente, como o período da primeira dentição" (MENDES op cit: 20). Nessa mesma década, o estudioso identifica movimentos encabeçados pelos próprios fotógrafos e pesquisadores como a criação do Núcleo de Amigos da Fotografia (Nafoto) que criou o Mês Internacional da Fotografia de São Paulo. A isso une-se a iniciativa, cita ele, do MASP - Museu de Arte de São Paulo, que conjuntamente com a multinacional Pirelli, cria em 1991 a Coleção MASP/Pirelli - fonte da pesquisadora -, que todo ano adquire obras de fotógrafos brasileiros no intuito de estabelecer um ponto de referência da fotografia nacional. Com esse histórico da pesquisa sobre a fotografia brasileira, Mendes destaca a própria coleção do acervo do MAM-SP, cuja exposição motivou o artigo citado aqui. Ao mesmo tempo, essa exposição constituiu uma importante oportunidade para que pudéssemos ver em perspectiva a história da fotografia e o meio em que se inserem os fotógrafos estudados. O que podemos destacar, além das instituições mencionadas por ele, é a importância das novas tecnologias, como a Internet (estabelecida no país na mesma década de 1990), na difusão e troca de conhecimentos acerca da fotografia, visto que em muito auxiliou essa investigação.

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